Brumas de Sintra

Ponto de encontro entre a fantasia e a realidade. Alinhar de pensamentos e evocação de factos que povoam a imaginação ou a memória. Divagações nos momentos calmos e silenciosos que ajudam à concentração, no balanço dos dias que se partilham através da janela que, entretanto, se abriu para a lonjura das grandes distâncias. Sem fronteiras, nem limites

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O meu nome é Maria Elvira Bento. Gosto de olhar para o meu computador e reconhecer nele um excelente ouvinte. Simultaneamente, fidelíssimo, capaz de guardar o meu espólio e transportá-lo, seja para onde for, sempre que solicitado. http://brumasdesintra.blogspot.com e brumasdesintra.wordpress.com

domingo, 20 de janeiro de 2008

Os Frangos do Asdrúbal

O Asdrúbal era o ponto de encontro dos militares destacados na capital guineense e de todos os que se deslocavam a Bissau. As dimensões do restaurante não eram desafogadas, nem sequer a decoração tinha algo de particularmente interessante, apenas uma sala, com mesas muito juntas o que, curiosamente, não provocava incómodo porque em clima de guerra é-se solidário em tudo, de forma espontânea. Partilha-se espaço, emoções e vida.

-É isso -pensou Catarina- o que torna o Asdrúbal tão mítico.
Quando a porta se abria tinha-se a sensação de entrar num palco onde cada novo cliente era vedeta. Todos os olhares se dirigiam na sua direcção, com curiosidade é certo, com desejos camuflados até, se fosse uma mulher bonita (muitos desses homens estavam há meses no mato) ou, apenas, olhavam com na cumplicidade de partilharem, silenciosamente, o facto de estarem vivos. O comportamento usual naquelas paragens seria a de uma mulher entrar no Asdrúbal devidamente acompanhada, porque para ir-se só, como Catarina o fazia, eram necessárias pelo menos duas coisas: ser-se de fora e decidida. Já que estavam reunidas as condições indispensáveis, porquê esperar mais?

E foi de ânimo solto, seguro e mesmo feliz que empurrou a porta e entrou, com alguma altivez, reconheceu para si própria. Sentiu que a sua presença teve sabor a triunfo e no silêncio ouviram-se aplausos surdos que a sua presença arrebatou. Não que o ruído tivesse cessado por completo mas que baixou muito de tom, foi uma realidade. Todos se voltaram para a porta onde a silhueta de Catarina, em contra-luz, fez dela uma deusa.
Os caracóis soltos sobre os ombros, o simples mas sensual vestido azul-claro (tinha apenas como adereço um colar de pequenas pérolas) a mala de verniz preto ao ombro, a condizer com os sapatos de saltos altos, tipo agulha, completava a toilette cuidada, sem exagero, mas com requinte.Catarina não ignorou que ao entrar sozinha chamava as atenções, mas há muito que estava habituada a situações idênticas, tinha percorrido meio mundo e habituou-se a ser independente e segura na sua solidão.

Desceu os pequenos degraus que a deixaram na sala e nela procurou lugar. Um empregado arranjou-lhe uma mesa bem localizada. Depois de agradecer com um sorriso doce sentou-se na cadeira que lhe este lhe indicou. Sentiu-se bem, respirou fundo e voltou a olhar recantos que já conhecia. Havia uma certa semelhança entre aquele restaurante e as muitas refeições que fez nos campos de Angola, a maioria delas ao ar livre. Que semelhanças poderiam existir?

-O ambiente! É isso, o ambiente. O convívio entre militares, a alegria de se estar vivo. O medo disfarçado sobre o que se passaria amanhã ou logo, ou agora...-Pensou Catarina.

Olhou para a toalha aos quadrados brancos e vermelhos sobre a qual estava uma jarra pequena, com algumas flores o que dava um toque que soube bem encontrar em terras onde o sobressalto, o medo e o imprevisto andavam de mãos dadas. Pouco esperou pelo empregado que veio saber o que escolhera, Catarina pediu um frango bem assado e uma jarro pequeno de vinho tinto.

Quando começou a saborear o jantar e este pereceu-lhe um manjar dos deuses. Estava simplesmente divinal o frango no churrasco como era timbre do Asdrúbal. Passada meia hora de permanência, o diálogo com os companheiros das mesas ao lado surgiu de forma natural. Do lado direito estava um casal com um bebé que, deitado numa alcofa azul, não conseguia dormir, olhava curiosamente para as luzes e para as constantes atenções que a mãe, muito jovem e bonita, não deixava de lhe dar.
O marido olhava-os com ternura. Pelo ar muito pálido da jovem e do bebé, contrastando com o bronzeado amarelecido do pai, este deveria ser militar e, por certo, tinha vindo de qualquer parte da Guiné ao encontro da mulher e do filho, no aeroporto de Bissau.

Ao lado esquerdo numa mesa maior, estavam dois alferes, um capitão e quatro furriéis, eram os reis do barulho e da alegria. Não demoraram muito a contar a Catarina as suas aventuras em terras da Guiné, e por eles ficou a saber que estavam a comemorar a vinda à capital, depois de seis meses consecutivos no Norte. Nas entrelinhas das gargalhadas e da alegria exuberante, Catarina sentiu que havia ali muita amargura disfarçada, mas era uma forma evidente de libertar tensões e emoções, numa mescla mal contida de nervos, de medo e de revolta.

Revolta, pelos camaradas que vieram com eles, mas que já não iam regressar à Lisboa que os viu partir. Dor, recalcada nas lembranças dos combates sangrentos, desumanos, dantescos, onde os homens deixam de o ser e libertam a parte animalesca. Barbaridades feitas em nome da sobrevivência que nenhuma bebida do mundo jamais os faria esquecer. Sentia-lhes o drama. Olhou-os com aquele olhar de profissional habituada aos cenários de guerra e pensou que nenhum deles deveria ter a idade que pareciam ter. Tinham amadurecido precocemente no rebentar de cada granada, na explosão dos lança-chamas, nos cortes das catanas e no espetar das baionetas. Estavam ali para esquecer.

Distantes ainda da peluda (disponibilidade), voltariam para a base dentro dos próximos oito dias. Confraternizaram até tarde, e quando foram levar Catarina ao hotel a despedida soube a amizade de longa data, como se, juntos, tivessem já atravessado os oceanos de muitos tempos. Catarina olhou-os nos olhos e encontrou neles almas atormentadas. Nada podia fazer, desejou-lhes sorte e separaram-se.

Ficou marcado um encontro sem data nem local. Trocaram contactos e o futuro diria quando se veriam novamente. Feitas as despedidas Catarina subiu para o quarto e nele escutou a sua primeira serenata, na capital da Guiné e, às escuras (se abrisse a luz os mosquitos entravam sem cerimónia), abriu a janela e sorriu-lhes, pedindo que não fizessem barulho para que a Polícia Militar não os levasse para a Fortaleza. Quando os viu partir, sentiu tristeza.


-Sentimentos assim que rompem em explosões de sinceridade só se encontram nestes ambientes- Pensou Catarina. Onde hoje se vive e, amanhã, talvez não! Aprende-se a ser solidário com os outros de uma forma leal. Por inteiro. Sem traições. Dá-se e compartilha-se com desconhecidos o que de melhor é capaz de albergar o coração humano.

É o lado positivo da guerra, une as pessoas, fá-las sentir que só a interajuda vence. Não há espaço para o isolamento para o trabalho solitário. Só equipas que lutem em conjunto, sofram em conjunto e quando algum elemento é abatido, morrem todos um pouco, em conjunto. Para sempre.

Na manhã seguinte Catarina tinha de apanhar a pequena Dornier que a levaria de Bissau a Bolama. Já era tarde mas não sentiu sono, o encontro com os jovens militares tinha-a emocionado. Leu, depois de ter tomado um duche rápido, e o sono acabou por vencê-la, já a noite ia alta.

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