Brumas de Sintra

Ponto de encontro entre a fantasia e a realidade. Alinhar de pensamentos e evocação de factos que povoam a imaginação ou a memória. Divagações nos momentos calmos e silenciosos que ajudam à concentração, no balanço dos dias que se partilham através da janela que, entretanto, se abriu para a lonjura das grandes distâncias. Sem fronteiras, nem limites

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O meu nome é Maria Elvira Bento. Gosto de olhar para o meu computador e reconhecer nele um excelente ouvinte. Simultaneamente, fidelíssimo, capaz de guardar o meu espólio e transportá-lo, seja para onde for, sempre que solicitado. http://brumasdesintra.blogspot.com e brumasdesintra.wordpress.com

segunda-feira, 24 de março de 2008

O SOL LARANJA NO CAIS DO PIDJIGUITI


...Catarina chegou ao aeroporto de Bissau, vinda de Luanda. Quando se encontrou na placa voltou a sentir o contraste poderoso (sentido já na sua primeira deslocação à Guiné) entre a terra vermelha e os troncos suados dos negros que trabalhavam sob o sol ardente e, impressionou-se com o vigor das imagens. O calor e a humidade eram de valores altos e incomodativos e, rapidamente, sentiu a desagradável sensação de pele pegajosa. Ultrapassada a pequena gare apanhou o jipe que esperava pela jornalista e nele fez o trajecto até à cidade. Foi um percurso demorado feito numa estrada de terra batida. Deliciada, voltou a confirmar que o cenário continuava exótico e belíssimo.


-A Guiné é linda! Sente-se aqui o palpitar e o vigor do coração africano. Tudo é genuíno, de uma pureza comovente -Pensou Catarina enquanto admirava a paisagem que a envolvia.


Os miúdos banhavam-se nas celhas e as lavadeiras, com saias de longos e coloridos panos, mantinham o peito descoberto. As mulheres e os homens guineenses sempre foram de uma elegância impressionante, tinham o porte de príncipes. As silhuetas longuilíneas de corpos esculturais pareciam ter sido esculpidos por artista. Tinham um porte naturalmente majestoso. As mulheres, com o ancestral hábito de trazerem os filhos às costas, adquiriram uma postura própria dos grandes manequins do internacional mundo da moda.


Catarina voltou a sentir os activos cheiros da terra, das flores, no ar que respirava. Odores inebriantes, únicos, nada se lhes comparava. Respirou profundamente e voltou a deslumbrar-se. Viu as cubatas de colmo, construídas com rigor e a forma como se dispunham no terreno. Encantou-se com o percurso até ao asfalto, à entrada da cidade. E foi aí que um episódio impensável se tornou numa hilariante realidade Dois chimpanzés, à beira da estrada pediam boleia às viaturas militares que passavam (as civis não eram escolhidas).


-Não é possível. Pensou Catarina


- Deve ser insolação! Boleia?


Eles lá estavam, tranquilamente, do lado direito da berma. Catarina tinha-os visto saltar de um outro jipe e atravessarem a estrada. Juntos e decididos preparavam-se para regressar, fazendo o percurso inverso. Foi nessa altura que um dos chimpanzés bateu com força no capou do jipe em que a jornalista seguia. O motorista parou e, naturalmente, deixou-os entrar. Eles fizeram-no calmamente e, quando se sentiram confortáveis, olharam para trás e, num gesto rápido, estenderam as mãos a Catarina, num largo cumprimento. Catarina riu abertamente.


-Estou na Guiné, voltei a casa!


E não parou de rir, facto que não agradou nada ao chimpanzé macho e se não fosse a rapidez do condutor a agarrar-lhe a palma da mão, Catarina tinha levado uma forte e sonora bofetada.


-Isto não me pode estar a acontecer. É sonho! Não, miragem. Ninguém vai acreditar nisto, se eu um dia tiver coragem de contar.


Acabou por saber através do condutor que aquele era o comportamento normal do casal de chimpanzés, conhecidos por todos os militares de Bissau. Eram uns animais simpáticos, por vezes até sorridentes (mostravam abertamente os grandes dentes amarelados como se estivessem a troçar do mundo) e tinham nítidas preferências sobre as viaturas que escolhiam. Se andavam nas camionetas era por não haver alternativa porque os jipes descapotáveis (detestavam quando lhes colocavam as lonas) eram, decididamente, os preferidos. Comiam bananas, papaias e adoravam cajú. Por isso, muitos soldados iam fornecidos com esses frutos para melhor apreciarem tão insólita companhia. Todavia, havia uma regra que não ousavam esquecer: ninguém se podia rir! Eles não o permitiam. E quem o ignorava, esquecia ou queria testar a realidade, tinha já ido parar com as costas ao chão e com a cara a ferver, tal tinha sido a força da bofetada dada. Sorrindo (para dentro), Catarina sentia-se feliz e exultante com o inebriante cheiro de África a entrar-lhe na alma. O calor intenso e a humidade davam uma sensação desagradável é verdade, mas África, é África!


-Desconcertante, magnetizante, electrizante. Apaixonante! -Disse Catarina para si própria. apetecendo-lhe gritar com força para que a ouvissem bem.


-África é isto: apaixonante. Conquista-nos no primeiro segundo e prende-nos a vida inteira.


Chegou ao hotel, preencheu a ficha e esperou que o empregado levasse a bagagem ao quarto. Este era amplo e tinha uma grande ventoinha no tecto. A cama era larga e sobre ela caía um mosquiteiro de tule branco como se fosse um leve véu de noiva. Catarina sentiu-se bem. Depois de abrir as malas dirigiu-se à casa de banho onde tomou um longo duche que a deixou fresca. Em seguida, optou por dar uma volta pela cidade, enquanto ainda era dia. Revisitar a Casa Branca, que vendia desde agulhas a carros, era apetitoso e essa visita foi das primeiras coisas que fez (tinha de fazer) no seu regresso a Bissau. Já na rua, olhou para recantos dos quais se lembrava e descobriu uma varanda de um prédio colonial, em tons de um bonito verde e branco, onde funcionava a sucursal do hotel onde tinha dormido anteriormente, já que na altura a sede estava esgotada. No tranquilo deambular pela cidade notou uma desusada movimentação facto que, por certo, se ficava a dever à cerimónia oficial a realizar no dia seguinte, no aeroporto de Bissau, que se preparava para receber o novo Governador e, Catarina, estava destacada para fazer a reportagem. De novo em terras guineenses, tinha apenas um dia para estar na capital. No dia seguinte apanharia a avioneta para Bolama.


Para andar serenamente pelas ruas que ainda lembrava, mitigando a saudade desse fascínio africano, Catarina escolheu um vestido azul claro, cingido ao corpo, de corte direito com um largo decote nas costas que quebrava a simplicidade do modelo. Fresca e cheirosa, caminhou pelas ruas de Bissau onde, inesperadamente, viu a chegada de um contingente de tropas portuguesas recebidas pelos habitantes da cidade com grande calor humano. Deitaram flores, bateram palmas e dançaram, expressando alegria e agradecimento pela protecção que viam nesses militares vindos de Lisboa, garbosos nas suas fardas de caqui. Teve pena de não ter consigo a máquina para fotografar o momento, mas a memória fixou as expressões sorridentes dos guineenses e as dos maçaricos muito brancos, alguns com calções exageradamente largos, marchando com visível apreensão. Estar na Guiné (1964) não era uma missão fácil, tudo lhes era desconhecido e, por isso mesmo, os medos tornavam-se terrores, as dúvidas afligiam e a surpresa parecia acontecer a cada canto. Todavia, aquele primeiro contacto, tão espontâneo e amistoso com a população, tranquilizou-os. Catarina olhou-os com um misto de orgulho e pena, sabia que muitos não voltariam e seriam vencidos pelos fazedores de balas, pelo deflagrar das minas, pelo explodir das granadas. Guerra, era terreno que Catarina conhecia bem e, por isso, sofreu ali, na Avenida de Bissau. Por eles, pelas mães que em Portugal, choravam, pelas mulheres e pelos filhos. Sentiu-se mal. Emocionou-se. Havia que reagir e continuar o passeio. Viu tudo e voltou a deliciar-se com o comércio africano. Numa loja acabou por comprar uma belíssima pulseira que passou a usar frequentemente.


A Guiné era fascinante, Catarina sabia-o, e pensou que se não houvesse guerra e fosse um território explorado para o turismo, por exemplo, as propostas a oferecer eram irrecusáveis. Lembrou-se como o arquipélago dos Bijagós era de uma beleza estonteante. A Ilha das Galinhas parecia um diamante a sair da terra, tal era a sua pureza! A beleza, em bruto, faiscava ao sol intenso de forma ofuscante. Luxuriante, colorida, exótica. Indescritível a transparência das suas águas, a vegetação tropical. Sobrevoada duas vezes por semana, quando o avião passava e largava o correio era como se a 5ª Avenida, de Nova Iorque, descesse à ilha. A euforia era geral, dava direito a gargalhadas, a mergulhos nas águas mornas e límpidas, a acenos para o piloto que correspondia ao entusiasmo incontido dos militares destacados naquelas paradísiacas paragens.


Na Guiné viveu momentos inesquecíveis. Lembrou o batuque escutado numa das ilhas do arquipélago. Nunca vira até ali nada que se pudesse igualar e tinha sérias dúvidas se alguma vez mais voltaria a ter sensação idêntica. Foi uma experiência fabulosa. Maravilhou e amedrontou numa amálgama de emoções que, na altura, nem soube saborear, recordou.


-Não dominei o momento, fui literalmente arrebatada por ele.


Os corpos brilhavam intensamente pelos óleos usados e pelas gotas de suor que caíam como pérolas no ritmo frenético dos movimentos de homens e de mulheres que foram ao fundo das suas raízes culturais e agarraram a tradição, libertaram-se e, numa poderosa agilidade, executaram danças que não só desafiavam a gravidade como se revestiram de fortíssima emoção. Foram danças nativas autênticas, vigorosas, sensuais, arrepiantes, arrebatadoras e envolventes. A cadência dos tambores ecoava na noite como um coro de vozes sobrenaturais. Catarina chegou mesmo a ter medo desse ritmo, desse entusiasmo e desse frenesim que dominou por completo os bailarinos, pintados garridamente, descalços, vestidos com pequenas tangas, não faltavam dezenas de colares e máscaras estranhas. As bailarinas, usavam saias de ráfia que mexiam nas ancas como se um furacão as fustigasse. Tudo foi freneticamente genuíno e contagiante. A jornalista não encontrou as palavras certas nem teve memória visual para fixar o que nunca tinha visto. Valeu-lhe a máquina fotográfica e, através dela, fez um trabalho fabuloso, com fotos de qualidade.


Sempre recordou aquele inédito serão. A determinada altura levaram-na para o centro do círculo e, à sua volta, dançaram, cantaram e gritaram. Pensou que ia morrer de susto. Sentiu-se como alguém que ia ser sacrificada a algum deus desconhecido. Mas, afinal, aqueles bailarinos acabaram por lhe colocar ao pescoço um longo colar de ráfia florido, elegendo-a rainha da noite, por entre gritos, risos e palmas. Mas, as expressões, os olhares, o ritmo avassalador que lhe tinham provocado arrepios, foram instantâneos que a memória não apagou.


Lembrou-se também de Varela, uma estância turística de muita qualidade que foi destruída num ataque pela calada da noite. Ataque impiedoso que fez dezenas de vítimas e destruiu uma estância de férias que poderia rivalizar com as melhores das melhores na elegante Europa. Um dos donos, um antigo e famoso jogador de futebol, agora dono de um café no centro de Bissau, quando falava dessa jóia perdida não conseguia reter as lágrimas, que deslizavam pelo rosto magro e curtido por muitos sóis e demasiadas amarguras. No entanto, não deixou a Guiné. O fascínio africano corria-lhe nas veias e embora não o confessasse, ou talvez nem se apercebesse, continuar ali era estar mais perto do seu sonho, do paraíso que um dia tinha construído. Apenas lhe restava a miragem que lhe iluminava os dias e lhe povoava os sonhos, por vezes tornados pesadelos.


Catarina respirou tranquilamente e ao sabor das recordações e do caminhar pausado, quando deu por si estava frente ao cais do Pidjiguiti. A criatividade da Natureza no seu grande esplendor estava ali por entre barcos, palmeiras, numa avenida africana transbordando energia. Sentou-se no muro branco alvo e olhou o quadro que o céu pintava numa mescla de nuvens, cores e transparências assombrosamente irreais. O Sol, laranja-avermelhado, preparava-se para outras paragens e deixava, lentamente, Bissau envolvida num manto brilhante e multicolorido, raiado de luzes intensas e fugidias. Catarina olhou, voltou a olhar e disse, baixinho, para si:

-Isto é uma canção de amor...




4 Comentários:

Blogger Pitigrili disse...

e já tem editor?

26 de março de 2008 às 02:21  
Blogger MEB disse...

Bem gostaria. Não tenho! Será que, um dia, alguém me "descobre"?

27 de março de 2008 às 01:33  
Blogger Ana Claudia disse...

Estou agora a descobrir os textos sobre a Guiné. Não desanime. Vale mesmo a pena continuar a escrever.

22 de março de 2009 às 12:18  
Blogger MEB disse...

Obrigada pelo estímulo. Já descobri que escrever posts enormes, ninguém lê. Estou a tentar agora textos pequenos mas sinto estar numa fase de algum desencanto. A minha fonte de inspiração é África...

23 de março de 2009 às 01:04  

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