Brumas de Sintra

Ponto de encontro entre a fantasia e a realidade. Alinhar de pensamentos e evocação de factos que povoam a imaginação ou a memória. Divagações nos momentos calmos e silenciosos que ajudam à concentração, no balanço dos dias que se partilham através da janela que, entretanto, se abriu para a lonjura das grandes distâncias. Sem fronteiras, nem limites

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O meu nome é Maria Elvira Bento. Gosto de olhar para o meu computador e reconhecer nele um excelente ouvinte. Simultaneamente, fidelíssimo, capaz de guardar o meu espólio e transportá-lo, seja para onde for, sempre que solicitado. http://brumasdesintra.blogspot.com e brumasdesintra.wordpress.com

domingo, 6 de abril de 2008

TEIXEIRA DE SOUSA - O COMBOIO DO ADEUS


...Os dias passavam com uma lentidão doentia e, tentando contrariar essa apatia, Catarina decidiu concretizar um plano que tanto tinha de louco como de desesperado.

-Não posso estar à espera que as soluções me venham ter às mãos. Tenho de tomar decisões e procurar pistas.


Em trabalhos anteriores, Catarina tinha conhecido o Dr. Germano que residia em Teixeira de Sousa (hoje Luau), em Angola. Era um profissional muito querido em toda a zona por tratar os doentes fossem de que Partido fossem e, mesmo quando (camufladamente) era chamado para lá da fronteira (Congo)), nunca negava os seus préstimos. Ajudou os feridos, os doentes, os velhos, as crianças, as mulheres grávidas com problemas nos partos. Tinha uma acção de movimentação privilegiada porque para este médico português não havia cores, raças ou fronteiras. Ele estava sempre onde era chamado.


Pensando nele, a jornalista concretizou um plano. Apanhou o comboio no Luso (hoje Luena) até Teixeira de Sousa. Foi uma viagem serena embora emotiva já que os passageiros pensavam que no minuto a seguir surgiriam as temidas emboscadas, mas acabaram por ser horas agradáveis passando por paisagens deslumbrantes. Os restaurantes dos comboios são sempre especiais, envolve-os um subtil romantismo e um ténue véu de mistério. Este não era diferente. Catarina entrou, escolheu uma mesa junto à janela e olhou, deliciada, a paisagem à medida que o comboio avançava pela mata, dos verdes caminhos do perigo. Com o passar dos quilómetros, sentiu-se próxima de uma solução pela qual ansiava. Foram horas de viagem. Horas de medo e de olhares perdidos no vazio, com arritmias num coração empolgado e sofrido.

Catarina precisava de se libertar da angústia dos últimos tempos, sentia-se no limiar das forças físicas e quando a viagem terminou pareceu-lhe ter atravessado o mundo. Olhou a estação de Teixeira de Sousa e respirou profundamente. Em seguida, procurou o hotel e nele descansou o resto do dia. Na manhã seguinte, encontrar-se-ia com o Dr. Germano, no café da praça. Ambos foram pontuais. O contacto tinha sido feito a partir de Luanda e, apesar de superficialmente, Catarina tinha tocado no assunto que a levou a procurá-lo. Pessoalmente havia maior disponibilidade para focar em pormenor tudo o que sabia e tudo o que desejava descobrir. Infelizmente o médico, que se mostrou um atento ouvinte, no final não teve nada de conclusivo para lhe dizer.


-Catarina, sei dessa operação, foi das grandes e fez muitas baixas. Capturados, não ouvi dizer que tivessem sido feitos, se isso tivesse acontecido duvido que não soubesse. Sabe, eu funciono de uma forma que lhe poderá parecer estranha, mas estou em todos os campos de batalha! Sou médico, o único nestas paragens, não posso deixar morrer ou de assistir quem me pede auxílio, independentemente de todas as regras estipuladas. Para ser franco e não querendo ser pessimista, penso que o seu amigo foi vítima mortal dessa batalha, mas também sou de opinião que se deve tentar tudo até estarem esgotadas as buscas. Bom, vamos à fronteira, tenho lá um contacto que nos pode ser útil. Está disposta a entrar em terrenos perigosos?


-Dr.Germano, não estar neles é que me deixaria admirada. Vamos, por favor. Apesar de um leve sorriso, Catarina não conseguiu disfarçar nem a amargura nem a expectativa.

A viagem até à fronteira foi feita na ambulância com o Dr.Germano, um condutor e um enfermeiro, ambos negros. Catarina não desconhecia que entrar naqueles terrenos era desafiar a sorte. As minas, pródigas na zona, intimidavam-na. Sempre a intimidaram. Ainda se recordava quando no vale do arame farpado, no Úcua, elas, apesar de simuladas, provocavam arrepio nos militares que rastejaram em zonas demarcadas, no percurso de instrução nas temíveis cinco semanas de avaliação.


-Por favor, vá atrás. Disse o médico.Vamos ser vistos e eles não estão habituados a encontrar aqui uma mulher. O nosso escudo é a ambulância mas, principalmente, sou eu. Eles precisam de mim e não escondo que, neste momento jogo com isso. O Augusto é o meu enfermeiro, já está habituado a estas movimentações. Vamos, suceda o que suceder, não se assuste porque vai acontecer alguma coisa, essa é a forma de me dizerem passaste por seres tu, mas nós vimos-te. Está assustada?

-Francamente não sei o que lhe dizer. Assustada? Dr, está a ser gentil, estou em pânico!

A viagem para lá decorreu sem incidentes de maior. Pelo vidro que separava o banco da parte de trás o Dr. Germano, a determinada altura, disse a Catarina:


-Não olhe, mas eles estão emboscados no lado direito, se dispararem não se assuste, é para intimidar.

Catarina começou a sentir-se mal, mas não disse nada. Quando chegaram à parte que marcava a fronteira (um risco de separação ao meio da ponte), o médico olhou-a e disse:

Está pálida, com um ar abatido. É tudo medo? Catarina sorriu e abanou os ombros


-Já passa .


A paisagem era invulgarmente bonita. O rio de águas transparentes, saltitante pelos seixos grandes e redondos, originavam pequenas cascatas faíscantes e musicais. Esse rio unia as duas fronteiras (Angola/Congo). Lavadeiras (no lado da Congo), sorridentes, indiferentes às realidades políticas, lavavam a roupa e acenavam ingénuas (ou provocadoras) na sua seminudez, que lhes deixavam o tronco nú. O Dr.Germano encaminhou-se até ao meio da ponte onde já tinham chegado dois guardas da fronteira e um terceiro aproximava-se. Catarina seguiu o médico e ao aproximar-se dele este parou o diálogo que mantinha com os guardas, obviamente armados. Virando-se para eles e conduzindo Catarina para o seu lado, disse-lhes:


-Não a apresento oficialmente mas, particularmente, esta é a jornalista de quem lhes falei.Os interlocutores olharam Catarina com alguma simpatia, (pelo menos sem agressividade visível) e disseram num tom que pareceu cordial:


-Lamento o que aconteceu ao seu amigo. É a guerra! Disse um deles

Falar com o inimigo não era nada normal e provocava uma sensação estranha.Talvez medo misturado com curiosidade. Catarina esboçou um sorriso e baixou ligeiramente a cabeça:


-Obrigada.

O Dr. Germano manteve um diálogo mais prolongado e a sós com os militares e quando voltou o rosto expressava um certo desalento.


-Lamentou não ser portador de boas notícias, mas disseram-me que o Quartel General já teve conhecimento dos corpos de dois oficiais encontrados, não muito afastados do local da emboscada.


- Dois? Mas eram três!


- Eu sei. Espero que o terceiro seja o seu amigo mas francamente, não sei se será bom estar vivo. Pode ter sido capturado. Como lhe disse não soube do aprisionamento de nenhum militar português. Neste caso tem duas soluções: ou entra em desespero ou enfrenta a esperança e luta por essa réstia. Qual escolhe?


- A última, claro...


Não acabou a frase porque a ambulância travou brusca e inesperadamente.


- O que foi? -Perguntou Catarina.


-Temos a estrada bloqueada. Não saia! Disse o médico.


-Desculpe, mas saio. Aqui dentro sou um alvo fácil, perto de si estou mais protegida. Vou sair, suceda o que suceder. Aqui fechada, nem pensar. Abra-me a porta, por favor.


-Não sei se deva...


-Abra Dr., à minha responsabilidade; se sabem tudo, também sabem que vou aqui.


Apesar do médico discordar do raciocínio acabou por abrir a porta e Catarina saltou rápida. Na estrada, um tronco enorme bloqueava o acesso.


-Mas passámos há pouco e tudo estava livre como é que isto aparece aqui?- Perguntou Catarina


-É o cartão de visita, é a forma de me dizerem: nós vimos-te e passas porque queremos. Augusto e o Vítor, empurraram o tronco com a alavanca que estava debaixo do banco.


-Cuidado com as mãos! Catarina não sei qual é a sua ideia e também não sei qual é a deles, mas, pelo que conheço da psicologia é melhor vir para o meu lado. Você aqui não é valiosa, eu valho mais, acredite em mim.

Catarina concordou e limitou-se a pôr as mãos no tronco porque força, claro, não tinha, mas queria ajudar. Passaram mais de quinze minutos em sucessivas tentativas de libertarem o trilho poeirento do obstáculo no percurso. Ao entrarem para a ambulância, Catarina mais serena, diz:


-Afinal eles só nos quiseram assustar.

Inesperadamente do lado esquerdo da mata, veio um aviso bem sonoro:


-Pois sim, passa cá sozinha que vais ver o que te acontece!

Catarina ficou sem pinga de sangue, incapaz de balbuciar qualquer palavra. Entrou na ambulância, sentou-se e escutou o fechar da porta. A viagem decorreu sem mais incidentes.

Chegados ao centro de Teixeira de Sousa ficou combinado encontrarem-se no hotel pelas oito horas. Jantariam e trocariam impressões sobre as últimas novidades que o médico tinha conseguido saber na fronteira. No seu quarto, Catarina pediu uma chamada para Luanda. Ligou para casa de Daniel, o médico da unidade, colega e grande amigo do capitão Fernandes.

A jornalista teve necessidade de esperar uns dias pelo regresso à capital. À partida, Catarina agradeceu todo o apoio dado pelo Dr. Germano, com o qual teve longos e elucidativos diálogos relacionados com a riqueza, o futuro (estava-se em 1969), a divisão angolana, as influências externas e a unificação que um dia seria, na sua visão, uma realidade.


-Terá muito que ver com a futura coesão europeia e com o papel que Portugal conseguir ter frente aos que quererão explorar a riqueza de Angola e não o seu coração. E muito menos o seu povo. Portugal terá que ser sábio perante os tempos terríveis que surgirão. Apesar da conquista da independência, os angolanos percorrerão anos e anos de travessia no deserto. Aguardam-nos muitos sofrimentos

- Confesso, diz Catarina, que não me é fácil acompanhar o seu raciocínio. Não entendo quando me fala na coesão europeia, isso é um sonho que ainda foi realizado! Portugal está de costas viradas para Espanha; a Suíça é uma ilha no meio de países vivendo uma eterna neutralidade; a Bélgica tem divisões; Espanha, idem. A Alemanha dividida, mata quem tenta saltar o muro à procura da liberdade!


-É isso! Quando esse muro cair ( símbolo opressivo, vergonhoso) começará a ouvir-se o Sopro da Liberdade e, simultaneamente, nascerão as convulsões para uma Europa que, para cumprir a sua missão (o Continente antigo, berço da Civilização e da Cultura, correrá riscos de alarmante envelhecimento) terá de mexer nas fronteiras, compreender a ânsia dos povos, e lançar âncoras nos portos agitados que serão o desequilíbrio emocional dos desenraizados, perdidos; dos que sem emprego e sem futuro são capazes de mover massas humanas unidas no desejo de viver. Há povos que não desistirão nunca das suas ânsias.

-Estou absolutamente abismada Dr. Germano, não lhe conhecia essa capacidade de futurologia e o rigor da análise é inquietante. Em que se baseia para pensar assim? Perguntou Catarina, verdadeiramente interessada, mas a resposta do deixou-a intrigada.

-Basta abrir o Mapa do Mundo! Abra-o, assinale onde há convulsões e veja se elas não estão ligadas com as fronteiras. Diz-lhe o médico com um ar tranquilo deixando no ar um enigma de difícil resolução.

Mas Catarina não quer desistir.

-Falou-me da coesão europeia, mas como será possível? Qual foi o Continente mais devastado pela Guerra? A Europa, claro!

-Ah! Sim, foi horroroso, mortífero, foi a convulsão do crescimento, o renascer das cinzas. Nessa altura as pessoas consciencializaram-se da importância da sua força e conseguiram-se feitos épicos: a solidariedade colectiva reerguendo cidades dos escombros. A Paz começa sempre no coração de cada um. -Disse o médico com um olhar perdido no vazio segurando, maquinalmente, um copo de cerveja que não bebia...

-Gente que mais não era do que farrapos humanos no pós-guerra e que souberam ir às reservas mais íntimas da força que ainda lhes restava e readquiriram uma notável capacidade de lutar e trabalhar. Descalços, rotos e famintos, nunca perderam o orgulho nacional e, unidos na desgraça, reergueram, com dignidade, cidades monumentais. Este é o lado positivo da guerra. Faz acordar os acomodados, adormecidos, é o natural instinto de sobrevivência.

-É apologista da guerra? -Perguntou Catarina visivelmente admirada.

-Meu Deus, como eu odeio a guerra. Como eu a odeio! Toda a minha vida não vai chegar para esquecer o que aqui vivi. As guerras são verdadeiras barbaridades humanas. Falava-me na Segunda Guerra e concordo com a sua sensação. Foram números tão dramáticos que nos envergonham de pertencer à raça humana mas ela fomentou, nos sobreviventes, a ambição de vencer. Despertou-os para o trabalho, romperam as ideias e surgiu a dinâmica dos grandes anos, das fábricas em plena laboração, das descobertas sucessivas que fizeram rodar o Mundo.

- E os milhares e milhares de mortos? Murmurou Catarina.

- Falando friamente, não fique indignada comigo, diria que são os acidentes de percurso. Há sempre uns que são apanhados pela rede da pouca sorte, chame-lhe destino, chame-lhe má sorte, chame-lhe os sacrificados, o que quiser, mas houve (e haverá) os que nas grandes catástrofes morrem, e há sempre os outros, os que sobrevivem. Sem culpa, sem razão e sem lógica. Mas é assim! O Kennedy, morto há pouco tempo, era para a América o símbolo do seu sonho, mas acabou por ser morto pelos seus porque ousou defender os mais fracos e apontar situações de corrupção. A América ficará orfã anos sucessivos porque não será capaz de se emancipar da saudade de um homem que, apesar de algumas decisões erradas, fez renascer o orgulho nacional. O povo identificou-se com ele, quando Kennedy voltou a dar brilho a uma América cinzenta. É isso o que falta aos portugueses, esse será um ponto que lhes cobrará altos e terríveis dividendos.

- Explique-se melhor, por favor. Pediu Catarina

-Claro, refiro-me à nítida incapacidade do povo português, de uma forma geral, não estou a analisar casos individuais, de sentir esse orgulho nacional. O português é desunido. O português é muito acomodado, por vezes parece adormecido. Quando a união for uma realidade tudo se modificará e surgirão nos tempos certos os políticos certos e, juntos, povo e governantes, conquistarão o progresso.
Nunca mais esquecerão de apostar e desenvolver a Educação, a Saúde, a Solidariedade, bases de construção sólida de qualquer país Falei muito para tudo se resumir em duas coisas: a Europa precisa de se tornar num continente forte, em todos os sectores. Os portugueses têm de reconquistar o orgulho nacional, parece que perdido na glória do século XVI. Uma Europa forte e unida terá condições de intervir, de ajudar, de defender...

- Defesa pressupõe guerra! Argumenta Catarina, ao que o médico prontamente respondeu:

-Não, é uma forma de preparar a Paz! Daí a necessidade de umas Forças Armadas organizadas, preparadas e moralizadas. Um continente sem defesa é como uma linha de pesca sem anzol, outros acabarão por colocar o isco para que o peixe venha morder. E, enquanto a Europa não for capaz de resolver os problemas dentro da sua própria casa, sem ajudas externas, muitos peixes irão picar no anzol

-Estou completamente fascinada e perplexa, Dr.Germano Vou pensar em tudo o que me disse, mas numa coisa estamos de acordo: que Angola se torne livre e seja inteligente para não deixar que outros venham a ser os seus colonizadores ocultos, impedindo-a de trilhar os caminhos do progresso e da harmonia.

Adeus, Dr.Germano. Catarina acenou-lhe nos degraus da carruagem que a levaria de regresso ao Luso.

-Nunca saberei dizer-lhe como o admiro e como me fascina a sua acção notável que aqui desenvolve desinteressadamente, sem esperar nem louvores nem medalhas. O senhor é um verdadeiro herói. -Disse a jornalista, à janela do comboio que se afastava lentamente, prolongando o adeus que acabaria por ser o último.

Tempos depois Catarina soube que o Dr.Germano fora morto numa emboscada, na zona da fronteira onde habitualmente prestava assistência médica. Todavia, muitos foram os nativos de todos os quadrantes que acompanharam o caixão na sua última viagem de comboio naquela zona angolana, antes de regressar a Portugal. A linha de Teixeira de Sousa teve um movimento desusado. Escondidos na vegetação homens, mulheres e crianças cobriram de cor a urna com flores que atiravam ao comboio do adeus, na tentativa de que algumas ficassem lá. Numerosos grupos ocultos na mata ao longo do percurso disseram-lhe, à sua maneira, adeus, disparando rajadas de G-3. O Dr.Germano teve um “acidente de percurso? Teve pouca sorte? Cumpriu o destino? Ou teria, apenas, terminado a sua missão?”
Quando soube da notícia Catarina chorou e, simultaneamente, recordou o vigor da sua postura perante a vida: na lucidez e na generosidade. Sentiu-se profundamente triste. Chorou, mas sentiu que o tinha no coração.


-Esteja onde estiver, Dr.Germano penso que estará bem. Trouxe uma missão para cumprir na vida e concretizou-a. Merece tranquilidade. Descanse em paz.

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