Brumas de Sintra

Ponto de encontro entre a fantasia e a realidade. Alinhar de pensamentos e evocação de factos que povoam a imaginação ou a memória. Divagações nos momentos calmos e silenciosos que ajudam à concentração, no balanço dos dias que se partilham através da janela que, entretanto, se abriu para a lonjura das grandes distâncias. Sem fronteiras, nem limites

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O meu nome é Maria Elvira Bento. Gosto de olhar para o meu computador e reconhecer nele um excelente ouvinte. Simultaneamente, fidelíssimo, capaz de guardar o meu espólio e transportá-lo, seja para onde for, sempre que solicitado. http://brumasdesintra.blogspot.com e brumasdesintra.wordpress.com

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A CANÇÃO DA MINHA VIDA


Foram anos e anos de fascinação, de memórias, de dores terríveis, de alegrias imensas. Foram transformações, lutas, mudanças constantes num transbordar de vitalidade ou numa serenidade inspiradora capaz de iluminar pensamentos e ambições. Foram medos negativos que tolheram gestos e palavras treinadas que nunca foram ditas. Foram confissões em surdina que perderam o vigor. Enfraqueci e contemplei, com o sabor mágico do encanto, do deslumbramento, o sonho, de olhar e sorrir como se a fonte de inspiração fosse magnífica e fizesse de mim sábia num universo revitalizador. Tornei-me aliada da minha própria existência no desfilar dos meus dias.


Transcendi-me. Quebrei grilhetas, agitei emoções adormecidas em silêncios vigorosos, doloridos, que me agitaram, engrandeceram e deixaram transbordante de vitalidade e grandeza. Vivi em permanente estado de desassossego. Dediquei-me a causas. Procurei cumprir objectivos. Com harmonia, em desamor, em lassidão. Fui agressiva, obsessiva, doce, serena, silenciosa, autêntica. Envolvi-me em mantos de luz, de audácia.Tomei as rédeas da vida e apelei ao meu poder. Desafiei e desafiei-me. Esperei. Amei e desamei. Amei em esperança, em desespero, em fascínio. Amei silenciosa em cada manhã por acontecer. Deambulei por montes e vales, andei mil quilómetros a cada segundo, percorri estradas que não eram minhas, caí em precipícios medonhos.


Saltei obstáculos mortíferos. Defendi o meu tempo e os meus anseios e, quando me sentia vazia, corria ao sabor do vento para lhe escutar os sussurros e sentir as brisas. Chorei e desisti em fugas de solidão e de amor. Fiquei exausta, esgotada, desanimada, esquecida. Foram viagens gratificantes, esplendorosas, por caminhos de medo e união que, por vezes, conduziam à esperança, à sabedoria e à renovação. Levantei-me sempre que caí, mesmo que o trilho de lama ou de pedras já me tivesse ferido os pés, mesmo que a densidade da mata já me tivesse rasgado, dilacerado. Atormentada no círculo do silêncio respondi, sempre, ao milagre, ao mistério da vida que me amparava, rodeava e protegia. Confesso que vivi e enfrentei desertos, oásis e ilhas paradisíacas ao som constante de uma melodia que encheu a minha vida. Foram anos sucessivos com ela no coração, fazendo de mim o barco que contornava a costa, ao som do eco do farol e da sua luz. Fui dependente da sua harmonia. Escutava-a quando queria e mesmo quando a rejeitava. Ela era o sinal de trânsito da minha existência.


Foi o despertador sem horas das minhas alvoradas Foi demais e foi bom. Foi motivador e desesperante. Foi tudo e continua a ser o que já foi e, assim, será... Concerto para Uma Voz, foi a canção da minha vida. Tudo girou em torno dela (como é possível!). A primeira vez que tomei contacto com esse 45 rotações foi em Luanda, na Rádio Ecclésia, quando necessitava de um indicativo para um novo programa. Seria a queridíssima Ana Maria Bello Marques a descobri-lo. Escutei-o e, no mesmo instante, fiquei no mais exaltante e indelével estado de deslumbramento. Acabei por o usar frequentemente e o curioso (ou seria provocação?) da vida é que o viria a encontrar ao longa do exercício da minha profissão (é uma história demasiado longa para contar).


Concerto para uma Voz foi composto por Saint Preux, em 1969. Tinha 19 anos. Danielle Licari interpretava-o tão bem que arrepiava.


-Dabadá, dabadabadabadá-dabadabá. Badaba badabada badaba uabididaba. Badabada ahhhhh... badabadaba uabididaba


Nunca ouvi mais do que isto e, como bastou!



A música é a linguagem universal da humanidade
(Longfellow)

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