Brumas de Sintra

Ponto de encontro entre a fantasia e a realidade. Alinhar de pensamentos e evocação de factos que povoam a imaginação ou a memória. Divagações nos momentos calmos e silenciosos que ajudam à concentração, no balanço dos dias que se partilham através da janela que, entretanto, se abriu para a lonjura das grandes distâncias. Sem fronteiras, nem limites

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O meu nome é Maria Elvira Bento. Gosto de olhar para o meu computador e reconhecer nele um excelente ouvinte. Simultaneamente, fidelíssimo, capaz de guardar o meu espólio e transportá-lo, seja para onde for, sempre que solicitado. http://brumasdesintra.blogspot.com e brumasdesintra.wordpress.com

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

PAGANINI NO ROSSIO


Walt Whitan, o poeta da Democracia, disse:"Eu ou tu, sem um tostão no bolso, podemos comprar este mundo e o outro". Penso frequentemente nesta citação e gosto de o fazer, encontro leituras e sensações diferentes.

O poeta transmitiu aos menos afortunados da sorte que não há limites nem para o sonho nem para a felicidade; colocou o dinheiro no lugar onde este deve estar, primeiro, a necessidade de cortarmos amarras e voarmos tão longe quanto a nossa imaginação ou desejo nos levar, sejam quais forem as asas; depois, as viagens do mundo interior têm a dimensão do nosso querer; e, contrariamente ao que à primeira vista possa parecer, não é uma apologia nem à acomodação nem à pobreza.

Pelo contrário, é um estímulo à capacidade do querer e à grandeza do ser humano. Superar-se a si próprio, principalmente nos momentos mais desesperantes, lutando para que eles antecedam novas possibilidades. Penso que é um alerta à ganância desenfreada e uma declaração (sublime) ao sonho que mais não é que a transposição para outros estados de alma.

Conheci pessoas muito ricas que não conseguiam, não queriam, não tinham tempo, nem se lembrava, não estava no banco dos seus desejos, perder um segundo a sonhar, a voar para lá das suas realidades. Viviam em altas rotações e tudo bem. Conheci pessoas sem nada, mesmo nada, que revelaram ser uns verdadeiros hinos à vida. Eram tão felizes que incomodava! Como era possível?

Eles tinham o passaporte secreto da esperança e não perdiam-nunca- a capacidade de sentir que, um dia, venceriam. Esses sim, têm todo o direito que lhes assiste de passear a sua liberdade pelos campos das miragens e comprar este mundo e o outro, mesmo quando no bolso não têm um euro.

Lembrei-me de um facto ocorrido há anos atrás que me marcou profundamente. Nada deixava supor que aquele encontro com a noite fosse diferente dos outros, mas foi! Chovia torrencialmente, o dia tinha estado frio e desagradável e na Estação do Rossio (ainda funcionava) juntavam-se largas centenas de pessoas no seus regressos a casa depois de intenso dia de trabalho.

Assim que entrei na grande sala do piso inferior da bela estação ouvi uns acordes vibrantes, tocados com emoção, saber, e muito coração. Não podia ter ficado mais surpreendida e deliciada. Melodias famosas de grandes compositores numa miscelânea irresistível: Sonho de Amor, valsas de Strauss, prelúdios de Chopin e páginas vigorosas de Paganini, tocadas com tanto ardor que, por vezes, pareciam que "arranhavam a alma".

O silêncio foi total quando os acordes das Czardas, no átrio da estação, romperam e encheram o espaço e a emoção dos presentes que cada vez eram mais. Mas, quem tocava? Tentei aproximar-me do local onde pensava estar o violinista. Com alguma agilidade de cintura, empurrei, delicadamente (?), mais para aqui, mais para ali e, por fim, consegui!

À minha frente, o artista. No pleno sentido da palavra, o artista. Olhei para ele com admiração porque nunca tinha escutado música no Rossio e, ainda por cima, com tal qualidade. Foi o imprevisto que me surpreendeu. Olhei-o e reparei que era invisual. Senti uma espécie de murro no estômago (não esperava), mas as páginas musicais continuavam a escutar-se.

Seguro da forma como tirava do violino os sons de muito talento, alheio a todos, continuava o concerto inesperado oferecido por um homem que no escuro do seu universo fechado tinha encontrado horizontes livres e amplos, sem amarras nem bloqueios, na forma de sentir e viver o mundo, de o ver e de com ele comunicar.

O que aquele violinista fez naquele fim de tarde mais não foi de que um acto de amor à vida. À sua maneira. Enfrentou a diferença e soube aproveitar dos outros sentidos a compensação valiosa que o ajudou a superar a deficiência da visão.

Ainda hoje ouço as vibrantes páginas musicais que, na altura, encheram a estação do Rossio e adoçaram o coração dos cansados, no regresso a casa. Ainda hoje recordo a imagem do violinista que tocava com um entusiasmo contagiante. Com um ar de plena satisfação vibrava com Paganini, transmitia isso.

Paganini no Rossio, aconteceu-me uma única vez e agradeço por isso. Agradeci-lhe por isso. Só deixei o local (perdi muitos comboios) quando o artista deu por terminado o improvisado concerto. Na caixa, ouvia-se o constante tilintar das moedas, dei as minhas e disse-lhe comovida e baixinho:

-Obrigada, gostei muito de ouvi-lo.

Esboçou um sorriso e disse-me:

-E eu ainda gostei mais de tocar.

Acreditei piamente. Só quem está tão cheio de música, quem domina a técnica do violino e tem tanta emoção à flor da pele consegue partilhar, com quem não vê, tanto fulgor, luz e fantasia. Aquele violinista era um homem feliz, mesmo que não tivesse um euro no bolso tinha o seu mundo e passeava, sorridente, por ele. Tinha traçado o seu caminho ao lado da música que lhe enchia sonhos, com esplendor e paixão.

1 Comentários:

Blogger Pitigrili disse...

Obrigado pela inspiração...

4 de fevereiro de 2008 às 03:01  

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