Brumas de Sintra

Ponto de encontro entre a fantasia e a realidade. Alinhar de pensamentos e evocação de factos que povoam a imaginação ou a memória. Divagações nos momentos calmos e silenciosos que ajudam à concentração, no balanço dos dias que se partilham através da janela que, entretanto, se abriu para a lonjura das grandes distâncias. Sem fronteiras, nem limites

A minha fotografia
Nome:
Localização: Portugal

O meu nome é Maria Elvira Bento. Gosto de olhar para o meu computador e reconhecer nele um excelente ouvinte. Simultaneamente, fidelíssimo, capaz de guardar o meu espólio e transportá-lo, seja para onde for, sempre que solicitado. http://brumasdesintra.blogspot.com e brumasdesintra.wordpress.com

sábado, 18 de outubro de 2008

"AQUI, RÁDIO ANDORRA"


Esta frase -Aqui, Rádio Andorra- preencheu muitas noites da minha meninice e dos meus medos. Ainda criança lembro-me (como se fosse hoje) de estar deitada entre o meu tio Francisco e a minha tia Rita (foram eles que me criaram), nas noites invernosas em Abrantes (a Cidade Florida) e escutarmos, baixinho, a Rádio Andorra. Era um ritual que se vivia naqueles tempos conturbados. Claro que não entendia nada do que ouvia mas, apesar da minha pouca idade, não me passava despercebida a atenção que os meus tios dedicavam ao que, então, era emitido. Recordo-me do meu tio me dizer, várias vezes: Se algum dia, quando fores grande, existir uma guerra, foge para Andorra. Eu olhava-o, sem dizer nada, abanava a cabeça em sinal afirmativo, e ficava de coração apertado.


A guerra preencheu os primeiros anos da minha vida (nasci em Cachôpo-Tavira, em 1939. Aos três anos fui para Castro D´Aire e, mais tarde, para Abrantes). Nessa belíssima cidade vi as suas janelas ficarem com os vidros cruzados por papel, como protecção para possíveis bombardeamentos que, felizmente, nunca sucederam. E nos passeios que se faziam nas noites cálidas de Verão, no picadeiro junto ao RI 2 (Regimento de Infantaria nº 2), viam-se nos céus os enormes focos de luz que se cruzavam, tentando apanhar aviões suspeitos. Passei por racionamentos, temores, enfim, tempos difíceis.


A Rádio Andorra foi inaugurada a 7 de Agosto de 1939 (nasci em Setembro). Um mês depois suspende as emissões mas retoma-as em Abril de 1940. Depois de uma história de resistência que duraria 40 anos, acaba por encerrar definitivamente em Março de 1981. Eram 21 horas. Creio que as instalações, arquivos, foram destruídas totalmente por um violento incêndio. Confesso que nesta dinâmica do passar dos anos a frase que me martelava na cabeça Aqui, Rádio Andorra, foi-se diluindo e, reconheço, esqueci-a.


Todavia, há dias, ao navegar na Net vi uma notícia da BBC que me fez estremecer. Dizia assim: Por que é que em Andorra se vive mais tempo? Andorra! Foi como se um sino acordasse o meu arquivo cerebral e, de imediato, regressasse às noites vividas em surdina ao lado dos meus tios (já falecidos) e a voz feminina, doce e calma, voltasse a segredar Aqui, Rádio Andorra. Tocou-me a nostalgia, a saudade. Chorei. E quando serenei fui descobrir o mistério de Andorra, a terra para onde há décadas o meu tio me dizia, foge para Andorra se aparecer uma guerra.


Na beleza imponente dos Pirenéus, na fronteira com França, encontra-se o Principado de Andorra que, ficou-se a saber, é, presentemente, no mundo, o lugar com maior esperança de vida (pensava que era uma ilha chinesa povoada por centenários), graças a uma mistura muito saudável que acontece no alto daquelas montanhas brancas ou verdes, conforme a época do ano, ou no vale florido e soalheiro. Ali, trabalha-se muito, todos têm uma vida activa até muito tarde. E há uma estrutura social envolvente de extrema importância que começa no exercício físico. Andorra tem sete centros desportivos públicos (gratuitos e com transporte) além de outros privados, onde homens e mulheres de idades avançadas povoam animadamente as piscinas executando exercícios.


Uma alimentação à base de carne magra, fruta fresca, vegetais, azeite, vinho tinto, coisas boas para o coração (a típica dieta mediterrânea). Em Andorra come-se de uma forma equilibrada e saudável. Ali vigora o terceiro melhor sistema de saúde pública do mundo, segundo a OMS. Tudo isso aliado a uma excelente qualidade do ar. Se o rigor do Inverno não deixa ir às montanhas, trata-se dos jardins. No Principado, o nível de criminalidade é quase inexistente, há 50 presos na cadeia. Vive-se um clima de paz permanente, bem-estar, tranquilidade. Sete séculos de história sem guerras são um factor psicológico de extrema importância. Talvez o meu tio Francisco, nos tempos de guerra, conhecesse já esta serenidade de Andorra. Talvez!


A paz não é um estado primitivo paradisíaco, nem uma forma de convivência regulada por acordos. A paz é algo que não conhecemos, que apenas buscamos e imaginamos. A paz é um ideal
(
Hermann Hesse)

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

Hiperligações para esta mensagem:

Criar uma hiperligação

<< Página inicial