Brumas de Sintra

Ponto de encontro entre a fantasia e a realidade. Alinhar de pensamentos e evocação de factos que povoam a imaginação ou a memória. Divagações nos momentos calmos e silenciosos que ajudam à concentração, no balanço dos dias que se partilham através da janela que, entretanto, se abriu para a lonjura das grandes distâncias. Sem fronteiras, nem limites

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O meu nome é Maria Elvira Bento. Gosto de olhar para o meu computador e reconhecer nele um excelente ouvinte. Simultaneamente, fidelíssimo, capaz de guardar o meu espólio e transportá-lo, seja para onde for, sempre que solicitado. http://brumasdesintra.blogspot.com e brumasdesintra.wordpress.com

terça-feira, 10 de junho de 2008

O VOO DO DESESPERO


O calor era insuportável naquela tarde em Luanda mas, Catarina, nem se apercebia das altas temperaturas que vinham tornar mais pesados os últimos acontecimentos num país em guerra. A palavra de ordem era partir a todo o custo, o que não era fácil porque os esquemas instalados na capital angolana fervilhavam em pouca ortodoxia. Catarina era uma autómata entre os outros milhares que a rodeavam na infindável fila no aeroporto de Luanda, todo ele repleto de pessoas vindas das mais diversas regiões, aguardando (muitas há mais de uma semana) a ordem mágica que lhes seria dada ao balcão de controlo -dominado por militares-, do ambicionado acesso ao avião da TAP que, na pista, fazia a ponte entre o caos e a esperança, isto é, entre Luanda e Lisboa.


Exausta e confusa, a jornalista que há sete anos tinha trocado Lisboa pelo Luso, mais tarde por Benguela e, finalmente, por Luanda, nada sentia. Era uma mera espectadora de um quadro da sua própria vida naquele cenário impregnado de dúvidas e de receios. Envolvia-a um estranho desconforto: a blusa creme, de seda natural, colava-se-lhe ao peito; os pés inchados de tantas horas parada e uma irritante dor de cabeça não a deixava raciocinar. Desesperada, perguntava a si própria até quando iria aguentar. Um dia já era passado e muitas horas pareciam estar ainda à sua frente, porque a distância que a separava do tal balcão, onde três militares decidiam com um está, ou não está (na lista), quem tinha direito ao sonhado passaporte de embarque, continuava a ser assustadoramente longa.


A fila parada cortava a esperança mesmo aos que, sabe-se lá como, ainda conseguiam guardar uma réstia de optimismo. A lista era consultada vagarosamente, e a expressão dos que ficavam a saber que não tinham os seus nomes nela afixados, era terrífica. Oscilava entre o patético e o trágico porque, uma vez decretada a sentença de ficar, na maioria dos casos significava prisão, morte ou tortura. O espírito analítico de Catarina observava e acumulava emoções. Eram tantas e tão profundas que lhe provocavam uma certa anestesia. Parecia que não sentia, flutuava. Havia demasiado sofrimento à sua volta.


Tinha passado meses e meses de massacres, de fugas, de medos escondidos e abafados naquela capital linda, debruçada para uma baía tranquila e cúmplice de muitas esperanças. Depois, passou a ser o espelho reflector das balas tracejantes que romperam os céus de Luanda. Tiroteio horas a fio, correrias debaixo de fogo cruzado, recolheres obrigatórios que não podiam ser violados porque as armas em riste disparavam sem piedade. Comida arranjada no mercado negro, o eco do martelar de caixotes, na tentativa de trazer pelo menos, um pouco do que se tinha juntado ao longo dos anos de permanência em África. Na maioria dos casos muitos anos, porque eram pessoas aí nascidas.


Apesar de endurecida pelo sofrimento, Catarina conseguia ainda sentir a dor que os rostos dos desalojados deixavam transparecer. Comovia-se. Se fosse capaz chorava, mas as lágrimas parece que tinham secado nos seus olhos. Foi um final diferente daquele que tinha imaginado para a sua permanência em Angola, para a sua vida, toda ela a repleta de dinamismo e aventura. Ser jornalista sempre lhe dera um protagonismo em cenários onde o perigo era constante, mas a guerrilha vivida naquele precioso país africano era desoladora e imprevisível. As horas continuavam a passar num ritmo lento e o ar quase irrespirável misturava odores que provocavam vómitos. Com dois sacos da Tap e uma mala de reduzidas dimensões Catarina permaneceu horas no mesmo lugar, na frustrante tentativa de embarque.


-O espólio de anos passados em Angola é reduzido, disse para si própria, quando olhou os parcos haveres e, aí, envolveu-a uma mescla de sensações indefinidas.


Havia desencanto misturado com saudade e medo mesclado de solidão, pavor até, dado que os relatos vindos de todos os cantos da Angola eram de arrepiar. Só queria embarcar, fugir, reconheceu para si própria. Era impotente para lutar contra uma causa tão poderosa. A sua fragilidade perdia-se no clamor de um profissionalismo há anos exercido com autenticidade, só que permanecer em Luanda, nas suas condições, era desafiar os deuses. A casa ficara mobilada. A geleira razoavelmente composta para os atribulados tempos. Na garrafeira, até duas garrafas de Drambuie! Quem iria usufruir dessa riqueza? Quem se iria deitar na sua cama? Ficara feita e aberta, não por um acesso de ironia, mas porque partir inesperadamente, tornou-se imperioso.


Que importa isso agora, pensou. Sem se aperceber abanou os ombros e tentou uma posição mais cómoda. Impossível! Já não havia postura para pés quase em ferida. De braços caídos, no aeroporto Craveiro Lopes, recordou como tinha sido dolorosa a despedida da sua empregada Ina, fiel e amiga, que tinha desafiado todas as normas de segurança, atravessando bairros, ruas e vielas de grande perigo, ignorando o recolher obrigatório, para estar presente na hora do adeus. Catarina, ao sair de casa não conseguiu olhar para trás. Ali ficaram enterrados sonhos, lutas e ambições. Não fechou a porta à chave deixou-a apenas no trinco. Percorreu o corredor que dava acesso ao elevador e olhou para o largo pátio do prédio.


-Nunca mais o verei. -Disse para si.


Desceu com a pouca bagagem e ficou estática na Rua Luís de Camões. Teve a sensação de estar a viver um pesadelo e desejou que a qualquer momento algo pudesse modificar a situação.Para os lados da Mutamba, via-se apenas uma mancha escura onde somente alguns fracos candeeiros se mantinham acesos. Olhou na direcção do Trópico, hotel de tantas recordações e tentou memorizá-lo, fixando o olhar no vazio. Perdida nas lembranças, chorou. À porta de casa, no momento do adeus, Ina olhou Catarina sem dizer palavra. Depois, abraçou-a e, subitamente, rompeu aos gritos, parecendo querer acordar a cidade. Não foi fácil separarem-se porque, no fundo, ambas sabiam que nunca mais se iriam ver.


Catarina tomou a iniciativa, acabou por desfazer o longo abraço de Ina. Beijou-lhe o rosto e com os dedos tentou secar-lhe as lágrimas que rolavam. As mãos uniram-se mas acabaram por se afastar tremulamente. De cabeça baixa e coração apertado entrou no carro. Fechou a porta, ligou a ignição e partiu precipitadamente. Ainda olhou para trás pelo retrovisor e a silhueta de Ina foi-se perdendo (para sempre) na distância. Sentiu-se deprimida. Triste. O carro continuou a percorrer velozmente as ruas de Luanda, chegando mesmo a enganar-se no percurso. Antes de o rectificar Catarina ainda olhou a Fortaleza, a baía. Tomou depois o caminho do aeroporto e, aí, já tudo se tinha toldado no seu espírito.


Ina tinha ficado para trás mas o seu desespero (Catarina sabia-o) iria ficar-lhe gravado na memória. Vivos estavam ainda o seu choro sofrido e o seu abraço infindável. As lágrimas à porta na rua Luís de Camões, a dor da separação, foram momentos pungentes. Nada pôde fazer por ela, e deixá-la entregue à sua sorte na perigosa Luanda, foi algo que não conseguiu perdoar a si própria. Na saturação da espera, Catarina sentiu Luanda como um local já distante, um capítulo encerrado na sua vida, uma terra de onde parecia ter já saído quando ainda estava pregada ao chão sujo de um aeroporto que conhecia tão bem e de onde tantas vezes tinha chegado, e de onde tantas vezes tinha partido, em condições completamente diferentes.


O dia da partida chegou quando Catarina conseguiu ter o bilhete da TAP na mão. Três dias depois deixou Luanda, após ultrapassadas as muitas barreiras. Foram horas difíceis, mesmo angustiantes. Partiu, deixando por resolver graves problemas. Deixou uma cidade que adorava. Afastou-se de amigos maravilhosos e sentiu um futuro incerto e muito conflituoso para o novo país, a sua Angola que lhe batia no coração. Ainda no aeroporto avaliou o dramatismo da situação quando olhando atentamente em torno de si se apercebeu, in loco, como era de angústia e de terror o sentimento que unia milhares de pessoas na ânsia de partir. Eram crianças que de olhares esbugalhados olhavam não sabiam bem o quê; eram os idosos, encostados ao canto da vida, já sem forças e sem esperanças; eram os homens, nervosos, disfarçando raivas e desencantos tentando proteger o que não já não existia. Foram-se-lhes as casas, as fazendas, amigos, anos de vida e de luta. Homens e mulheres, juntos, viviam ali, naquele espaço, raivas e medos, desencantos e incertezas, Que futuro? Que amanhãs?


Mulheres descalças, mulheres suadas, mulheres em combinação saíam estonteadas de ambulâncias e ao enfrentaram aquele mar de gente quedavam-se atónitas entre a dor, a agonia e a vergonha. Retiradas milagrosamente de Malange -uma das zonas de intensas lutas, tão intensas que a cidade acabou por ficar conhecida como a cidade branca, por ter sido necessário cobrir as ruas, os cadáveres com cal para que as epidemias de todas as espécies não proliferassem-, partiam sem nada e, se não fosse a Cruz Vermelha dar-lhes roupa, nem vestidas regressavam a Portugal. Dentro do avião foram dadas blusas, saias e vestidos e, assim, todas chegaram minimamente composta. Curiosamente, quando os passageiros desse avião chegaram ao aeroporto da Portela, viram um pequeno grupo abrir uma faixa de pano branca, onde se lia em letras garrafais escritas a vermelho e negro:


-Voltem para onde estavam, não temos pão para vocês.


Felizmente que o sofrimento já tinha anestesiado a quase totalidade dos passageiros daquele voo da agonia. Assim, a maioria, nem se apercebeu da insensibilidade desses portugueses ao exibirem palavras de hostilidade a centenas de pessoas que tinham deixado para trás toda uma vida, em tempos tão amargos marcados por atroz sofrimento. Estar em Portugal para uns era uma fatalidade, era estar por estar. Não havia nem vontade nem querer, só existia a necessidade de fugir à carnificina. Por outro, para a maioria, era um regresso indesejado porque a vida estava lá, tal como o coração e a alma.


Depois, ainda havia a franja dos autómatos, daqueles que já nem sentiam, nem viam, nem queriam querer nem crer. Limitavam-se a respirar. Dentro do cérebro ainda ecoavam os gritos dos horrores, o desespero dos aflitos, o rebentar das granadas, os uivos roucos dos moribundos, dos estripados da vida que sem forças para se arrastarem ficaram a servir de carne para os cães, para os ratos, apodrecendo nas ruas vermelhas de sangues cruzados e coagulados. Quase todos os passageiros daquele voo não queriam regressar. Foram apanhados em fogos cruzados, contradições estratégicas, péssima gestão política em Lisboa, realidades dolorosas que falaram mais alto. Por isso vieram, mas a Alma, essa, deixaram-na lá. Para sempre…


A maior perda de vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos

(G.García Márquez)

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