Brumas de Sintra

Ponto de encontro entre a fantasia e a realidade. Alinhar de pensamentos e evocação de factos que povoam a imaginação ou a memória. Divagações nos momentos calmos e silenciosos que ajudam à concentração, no balanço dos dias que se partilham através da janela que, entretanto, se abriu para a lonjura das grandes distâncias. Sem fronteiras, nem limites

A minha fotografia
Nome:
Localização: Portugal

O meu nome é Maria Elvira Bento. Gosto de olhar para o meu computador e reconhecer nele um excelente ouvinte. Simultaneamente, fidelíssimo, capaz de guardar o meu espólio e transportá-lo, seja para onde for, sempre que solicitado. http://brumasdesintra.blogspot.com e brumasdesintra.wordpress.com

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

109P/Swift-Tuttle

Gosto de olhar o céu, seja qual for a hora do dia. Fixar as nuvens que deslizam lentamente nessa imensa tela -é sempre uma descoberta fascinante- já que cada forma nos parece um desenho de forte criatividade. Assim, a tela transforma-se numa galeria aberta onde centenas de obras (chamo-lhe as farófias do céu) passam livremente pelos nossos olhos, provocando a imaginação perante a oferta tão sedutora e criativa.

Mas, sem dúvida, é à noite que o o tecto que nos abriga neste planeta transparente é mais exuberante e mágico, renovando (descaradamente) a provocação de o admirar e de, olhando-o atentamente, tentar passar para lá dos brilhos que parecem espiar-nos. À janela, ou no jardim, renovo o prazer de acenar às estrelas com a patética inocência de pensar que com este movimento estou a interligar-me com o Universo. Olho o céu com frequência embora poucas sejam as vezes que sinta ser bem sucedida. É mesmo raro. As noites de veludo, salpicadas de brilhos, estão a ser cada vez mais mais difíceis de encontrar.

Tento aprender com Máximo Ferreira, através dos seus programas na Antena 1, o mais possível. Sinto que não passei, ainda, do primeiro degrau de uma infindável escadaria, mas não desisto. Sempre pensei que, pelo menos, uma das estrelas brilha para mim. E foi assim, com esta paixão pelo Universo, pela astronomia, que em finais de 1992 (quantos anos!), por "culpa" de Máximo Ferreira apanhei uma das minhas maiores desilusões nocturnas (e uma gripe de peso), neste meu filme de espiar os Astros.

Foi por ele, pelo programa, que soube que a 11 de Agosto a esteira do cometa Swift poderia ser vista. Foi uma excitação total, já que este cometa, descoberto em 1862 por Lewis Swift e Horace Tuttle, só voltaria a ser visto em 2126. Andava tudo à espera dessa magia nocturna. E, por ter sido tão especial, tão publicitada, recordo a experiência. Melhor, a tentativa de experiência.


Não me lembro de conhecer o tal cometa até que fui alertada para a sua passagem. Não o conhecia, é verdade, mas nunca mais o esquecerei, nem mesmo no ano de 2126 se, por qualquer capricho de outras vidas, voltar à Terra. E, talvez aí, consiga não perder as 100 mil estrelas de Perseu, numa chuva brilhante que, se a tivesse visto em 92, já me teria iluminado a vida e a alma.


Nessa noite o que eu tentei, mas como tentei! Sem resultado. Dos traços luminosos coloridos a uma média de 100 mil por hora, que seria, segundo diziam os peritos na matéria, o acontecimento astronómico do século, com muito, mas muito boa vontade, talvez tenha conseguido ver um clarãozinho e nada mais que isso.


Talvez, porque certezas sobre a centena de milhar de poeiras que rasgariam o escuro, nada! Era meia-noite e já eu estava debruçada na varanda olhando o céu que, por capricho dos deuses, estava envolto numa neblina e, ainda por cima, gélida. Era uma hora e vestida para abraçar o Alasca, lá continuava firme no meu posto. Duas da manhã.Três da manhã (pareço As Doce) o mesmo frio e o mesmo cinzento.


Gelada, desanimada e triste, decido olhar bem para dentro daquele nevoeiro numa noite imprópria para brilhos. Tanto nevoeiro! Seria que dando corpo à lenda D. Sebastião surgiria numa noite tão esperada? Mas nada, nem o Rei, nem um ET, nem Pégaso, Cassiopeia, nem Marte, nem sequer a Lua.

Hoje, no meu ritual de olhar o céu, encontrei quase o mesmo frio, o mesmo nevoeiro, o mesmo cinzento que em 1992 me deixou desanimada. Talvez por isso lembrei-me do cometa que me agitou a noite. Consumiu-me a paciência, confesso.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

As Esquecidas da Força Aérea

A primeira vez que vi enfermeiras pára-quedistas (duas) foi na verdadeira babilónia que se registava no aeroporto da Portela, em Lisboa, em 1963, quando embarquei para Bissau (Guiné). Envergando a farda caqui, se a memória não me prega partida, o que recordo nitidamente é que tinham ao ombro uma carteira tipo pasta, julgo que preta e uns sapatos de salto baixo, também pretos.

Lembro-lhes a postura vigorosa, decidida e elegante. Na cabeça, uma boina verde com o emblema da Força Aérea e, por vezes, um sorriso gracioso que sabia bem ver já que o ambiente era, na altura, de crispação. Penso que teriam seguido para Angola num voo militar, a partir de Figo Maduro, já que a bordo do avião da TAP não as vi.

Pelo ritmo da minha profissão viria a encontrá-las, mais tarde, em Angola, por diversas vezes e a ultima vez que as vi, já nos anos 80, foi em Tancos (Arripiado), numa reportagem que fiz com o saudoso mestre da fotografia, Carlos Gil, e, no dia seguinte, na redacção da revista Mais, em Lisboa, onde as consegui juntar numa foto única e histórica.

Olhei aquelas nove mulheres e agradeci-lhes em silêncio. Eram um exemplo de valor e dignidade que eu tinha o privilégio de fixar. Tocou-me esse momento. Havia nos seus olhos, pregados na câmara do Gil, um misto de orgulho e tristeza. Valorosas nas suas fardas azuis, reuniam-se na redacção de uma revista, anos depois de terem deixado os cenários de guerra.

Ivone Reis-capitão (1961), Eugénia de Sousa- capitão (1962), Manuela França- capitão (1962), Céu Esteves- capitão(1962), Mariana Gomes- capitão (1964), Rosa Mendes-capitão (1964), Francis Matias- capitão(1973), Natália Pinheiro- tenente (1973) e Lurdes Lobão, primeiro sargento (1974), representavam páginas vibrantes, gloriosas, de sacrifícios levados ao extremo nas linhas da frente na guerra do Ultramar.

Foram os verdadeiros anjos que caíam do céu (eram assim conhecidas), já que muitas vezes a inacessibilidade do terreno não permitia outro tipo de auxílio. Sózinhas, descendo pelos ares com a mala da Cruz Vermelha, caíam mesmo em cima dos confrontos.

Correram os maiores perigos, salvaram vidas e vidas, escutaram milhares de últimas palavras dos que já não regressariam. Foram pioneiras. Foram exemplares. Foram umas heroínas. Viveram horrores, glorificando sempre a farda que envergavam mas, em minha opinião, não tiveram, em Portugal, o reconhecimento que mereciam. Não eram convidadas para estarem presentes no dia da Unidade, nas cerimónias oficiais…

Na altura, lembro-me que lhes disse que elas pareciam ter sido esquecidas pela Força Aérea, argumentaram que não

-Não. Não somos é já necessárias a bordo das aeronaves. Terminaram as situações de emergência

Tudo começou em 1961, 6 de Janeiro, quando seis enfermeiras voluntárias, receberam o brevet e a boina verde, culminando o curso dos Páras (bem conhecido pela sua extrema dureza). Graduadas militares foram enviadas para África, com a missão de prestarem assistência de enfermagem a todos os ramos das Forças Armadas.

Foram anos de guerra, algumas colegas mortas (na pista, uma foi degolada pelas pás de um hélio), tantos horrores que só o orgulho das missões lhes suavizava agora as recordações. Encontrei-as na Guiné, em Angola, várias vezes, sabia dos seus feitos e testemunhava a admiração e o carinho que todos tinham por este corpo feminino nas Forças Armadas.

Houve operações tão marcantes, evacuações tão dramáticas e tão sublimes em que estiveram envolvidas que escutar os relatos era como se estivéssemos a ver um filme empolgante. Elas foram mesmo gloriosas.

Em Lisboa, fui ao Hospital da Força Aérea onde os capitães Manuela França, Mariana Gomes e Francis Matias desempenhavam a suas tarefas diárias. Fui às enfermarias com Lurdes Lobão, primeiro-sargento. Encontrámo-nos todas no lançamento de pára-quedas, que faziam de seis em seis meses.

Ainda hoje as recordo com respeito, orgulho e gratidão e lembro a extrema simpatia de Ivone Reis (capitão), a mais antiga, que sempre foi um excelente elo de ligação com o seu grupo, que nunca perdeu nem a coragem nem a convicção perante desafios medonhos.

Embora tentasse, nunca consegui que nenhuma das nove enfermeiras pára-quedistas deixasse transparecer existir por parte da Força Aérea qualquer tipo de esquecimento para com o seu trabalho na guerra em África.


Mas existiu!

Os Tambores de Taiko

Era domingo e a tarde de Inverno tinha o toque suave de uma doce Primavera antecipada. Sentada num degrau do Palácio Nacional de Sintra, enquanto aguardava pelo espectáculo vindo de Miyazzaki (uma das quatro maiores ilhas do Japão), através de um grupo de jovens (Kunimitsu, Kyoichi, Yoshito, Masaru, Shingo e Shunsuke) que têm na alma, no espírito e estilo de vida, o ritmo do Taiko -um género musical para mim desconhecido, confesso-, mas que mais tarde reconheceria, ser empolgante.


Vim a saber que os tambores que olhava eram conhecidos por Nagadó Taiko, Okedó e Shimé Duiko. E soube, ainda, que o maior Taiko que existe tem um diâmetro de 267cm,foi feito em 1966 e, para isso, foram necessários 5 anos. Pensei logo que o som deve dar para comunicar de Sintra para o Alasca. Pelo menos.
O largo do palácio estava salpicado por poucas pessoas que vinham olhar mais de perto os belos tambores expostos no palco montado para o espectáculo que se anunciava para as 15 horas. Pela pouca afluência pensei que podia arranjar um bom lugar, que era capaz de comparecer pouca gente e que estava ali muito bem a admirar a paisagem idílica que me rodeava.


Em frente, o rendilhado do Castelo dos Mouros a flutuar no Monte da Lua. Lindo. Atrás, o meu palácio. Vivo cá, é meu! Conheço-lhe os cantos, os recantos, a história e a minha imaginação liberta-se pelas escadarias que já trata por tu as memórias do passado deste Paço Real que recebeu D. Manuel II antes de partir para o exílio em Richmond (Inglaterra).


Faço uma vénia a D. Isabel, D. Beatriz. D. João I (esteve em câmara ardente na sala dos 27 Cisnes que o monarca mandou pintar em homenagem à filha, Isabel, no pedido de casamento feito pelo duque de Borgonha), D. Filipa, D. Sebastião, que adorava sentar-se no pátio num banco de pedra, colocado estrategicamente para o paraíso de Sintra. Se não estiver errada creio que foi nesse mesmo banco que O Desejado se encontrou com Luís de Camões e este lhe leu os Lusíadas. Estarei a fazer confusão? Como vou saber a esta hora da madrugada!


Passo por D. Afonso VI e sinto a amargura da sua clausura que durou nove anos, num quarto agora gasto pelos passos então dados. Olho a sua cama e vejo-o frágil, desapegado da vida. Esboço um sorriso malicioso quando olho a Sala das Pegas, onde D. João foi apanhado pela mulher, D. Filipa de Lencastre, a beijar uma dama da corte. Irritado, o rei mandou pintar 136 pegas (o número das damas existentes no Paço) mas todas com uma rosa no bico, homenageando a benevolência com que a esposa soube enfrentar o deslize matrimonial.


Perdida nos pensamentos históricos só recuperei (será que Camões esteve mesmo aqui?) quando começo a ouvir toques de tambores que desciam lentamente as escadarias do palácio. Já no largo, agora completamente lotado, passam pelo público que abre alas para passarem.São seis jovens (um não terá mais de 10-12 anos, penso) que sobem ao palco e nos conquistam com os sons, fortes, fortíssimos, serenos ou apoteóticos. Indescritível. Diferente e arrebatador. Sons renovados, na mais pura tradição do Taiko, transmitindo-nos poderosas emoções.


Ainda bem que acedi ao convite e vim ver os Tambores Japoneses Taiko, em Sintra. Olhei em frente, as árvores tinham florescido, estavam cobertas de flores de cerejeira, rosa e brancas; as árvores, agora mais verdes, salpicavam-se de cor, de plantas exóticas, luxuriantes; do planador que nos sobrevoava caíam flocos matizados, sedosos, deixando o local inebriante de cheiros apetecidos. Balouços, feitos de flores entrelaçadas, moviam-se por cima das nossas cabeças.


Na muralha do Palácio dos Mouros e nas janelas do Paço, damas vestidas à época, jovens e menos jovens, envergando vestes reais, sorriam e acenavam aos sons que, por mais de uma hora, envolveram a sétima vila mais bonita do mundo: Sintra!


sábado, 26 de janeiro de 2008

Eu e BOTERO… em Sintra


Passo diariamente pelo edifício (belíssimo) do Museu de Arte Moderna, em Sintra e, diariamente, reconheço nele uma inegável beleza. À noite, quando fica estrategicamente iluminado, deslumbra. Em absoluto. Faz-me lembrar recantos de Monte Carlo, onde há edifícios muito idênticos, portanto, lindíssimos.

Mas a beleza que falo deste Museu, pintado a branco e num suave tom de amarelo, foi edificado em 1920, se não me falha a memória, e nele passaram os mais variados inquilinos. Recordo uma escola e umas deprimentes instalações das Finanças, onde fui muitas vezes de credo na boca e estômago apertadinho.

Entrar ali intimidava-me. Pelo cinza decrépito que me envolvia e por pensar no que, aos balcões de umas instalações horrorosas, teria de pagar. Mudaram-se os tempos e as Finanças foram-se -mas passaram-se para outro lugar, iluminado, mais amplo e mais caro, mas isso são outras guerras e hoje estou virada para o belo-.

Desde 1997 que o Museu de Arte Moderna foi aberto (com muita pompa e muita circunstância) ao público com a Colecção de Arte Contemporânea de José Manuel Rodrigues Berardo (uma das melhores colecções privadas do mundo de Arte do século XX).

É ele! O Joe Berardo a quem já os portugueses quase tratam por tu, tantas são as vezes que ele nos aparece em casa, falando de vinhos, de Opas, de bancos, de acções, de futebol. De tudo! É dele todinha esta colecção que é nem mais nem menos uma das 10 melhores do mundo. Sabia?

Pois, nada é pouco na vida deste intérpido madeirense que nunca pensou pequeno e aos 19 anos (nasceu a 4 de Julho de 1944) deixou a sua terra natal e rumou às minas de ouro da África do Sul, onde encontrou o seu caminho de luta e de enriquecimento.

Não sei se foi uma luta muito ou pouco dura, o importante é que ele é hoje um bilionário português, quer dizer: o quinto homem mais rico de Portugal (tenho em casa mais de 27 quadros pintados por mim com muita inspiração, Comendador…), creio que com uma fortuna avaliada em mais de 1,7 mil milhões de euros, e o nosso maior coleccionador de arte contemporânea.

Colecção que vai mostrando ao mundo e permitiu também que Sintra a admirasse permanentemente. Fui a todas, e não é por não pagar, os moradores de Sintra não pagam e os jogadores da 1ª Divisão também não! Esta é que eu não entendo! Esses têm montes de massa, os pequeninos é que não! Um dia hei-de entender.

Falando da exposição Arte Latino Americana, patente no Museu, desde 14 de Dezembro passado, digo já que sim. Gostei e vou voltar, gosto de o fazer, sempre o fiz. É uma viagem agradável pelas espaçosas e silenciosas (gosto daquele inspirador silêncio) das salas do museu.

A viagem começou cá em baixo, à entrada, nos jardins. Virada para o edifício tem à sua direita uma enorme escultura branca, em mármore de Carrara (483x118x75cm), denominada Camino Vital, de 1999, obra de Pablo Atchugarry , escultor do Uruguai, nascido em 1954. Preciosa.

À esquerda, uma imponente escultura em bronze (403x338x180cm.) denominada Male Torso, de 1992, da autoria desse impressionante Fernando Botero. Uma imagem grande, gorda, redonda, de um volumoso torso, com uma pequeníssima folha de parreira. Contrastes!

Como eu gosto do rebelde Botero! Comecei a apreciá-lo em Toronto, quando passava por alguns lugares onde estavam expostas as suas obras. Olhava-as, pausadamente, ao ritmo do bus que galgava as avenidas a perder de vista. Era um bálsamo para um coração de emigrante português. Sempre carente.

Homenageando os bons tempos que as obras deste pintor- escultor já me proporcionaram, sentei-me num banco, quase ao lado deste Torso e recordei o pouco que sei deste colombiano, nascido em Medelin, que quase correu o risco de ser toureiro quando um seu tio o inscreveu numa escola de toureio.

A tauromaquia não era, de todo, o gosto do jovem mas dessa permanência fez, mais tarde, a sua primeira aguarela, O Toureiro. Faria em 1948, em Medelin, a sua primeira exposição. Em 1951 apresentou-se em Bogotá e, em 1966, atirou-se à Europa, na Alemanha, com uma mostra que o consagrou ao mundo.

A sua pintura destaca-se por imagens fortes através de figuras redondas, luzidias, com rostos desproporcionados, mais pequenos. Diz-se que é uma crítica social à ganância do ser humano. Tem obras magníficas.

Nesta exposição onde Berardo apresenta, pela primeira vez, o seu imenso núcleo de arte latino-americana, o conjunto resulta numa vasta diversidade de obras assinadas por nomes históricos do mundo da arte do século XX: o mexicano Diego Rivera, David Alfaro, o brasileiro Emilio Di Cavalcanti, o mexicano Rufino Tamayo, o chileno Roberto Matta, o venezuelano Jesus Rafael Soto.

Os países e os artistas são muitos (impossível referenciar todos) e a eles junta-se, claro, Botero, irónico, mordaz? Talvez! Mas, um artista colombiano de excepção, que voltou a oferecer-me excelentes momentos, quando me sentei ao lado de uma sua obra de arte, em Sintra.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

SE

Se podes conservar o teu bom senso e a calma
No mundo a delirar para quem o louco és tu...
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê...
Se vais faminto e nu,
Trilhando sem revolta um rumo solitário...
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...
Se podes dizer bem de quem te calunia...
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)...
Se podes esperar sem fatigar a esperança...
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...
Fazer do pensamento um arco de aliança,
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho...
Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores...
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores...
Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste...
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio a construir de novo...
Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar avante...
Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade...
Se quem conta contigo encontra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minute se espraie em séculos fecundos...
Então, ó ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!...
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!...

Kipling

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Os Oceanos do Tempo

Hoje, ignoramos regras, estatutos, discursos arcaicos e vazios. Hoje, vamos olhar de frente, sem cedências, desmistificando falsos virtuosismos e os profetas do desalento. Hoje, ousamos ousar e provocamos os intocáveis que, escudados, gravitam nas esferas da ignorância anestesiada.

Hoje, é dia de acreditar no vigor da justiça, na sedução da inteligência, na consonância ambiciosa dos que trabalham, dos que não traem, não minimizam, não confundem. Hoje, sem “pompa e circunstância” dialogamos, com a verdade e ignoramos a táctica de dividir para reinar.

Hoje, é dia de fechar a porta à ironia e repudiar jogos de conveniência. Hoje, é dia apenas para estar e saborear. Repare, só por pensarmos e escrevermos, lentamente, abre-se uma janela por onde entram brisas renovadas e estimulantes! Sentimo-nos mais serenos, mais libertos e mesmo mais entusiasmados. A janela, neste caso, é a da Internet que, enigmaticamente, nos deixa na ponta dos dedos o pulsar do Mundo. E não só!

O ponto de encontro dos bloggers é uma riquíssima explosão de saberes e uma total liberdade de visões e opiniões quando atiram irreverentemente para o Globo páginas preciosas de criatividade. Diria que a Internet é uma pérola de procuras. E, por procuras, recordei algo que gosto de relembrar.


"...Percorri os Oceanos do Tempo para te encontrar...”.

Esta frase (linda) pertence a um filme de Copolla, “Drácula” e, obviamente, à partida, nada tem que ver com Portugal nem com os portugueses mas lembrei-me dela quando ao pensar neste jardim à beira-mar plantado (continua a ser, apesar de ondas bravias que por vezes nos atingem), berço dos maiores navegadores do mundo, que nos gloriosos séculos XV e XVI descobriram a maior parte das terras de África, América e Ásia. Portugal, maravilhoso nos seus 90 mil quilómetros quadrados debruçados pelos 800 quilómetros de costa inebriante e renovadamente bonita.


Portugal continua a ser lindo mas, sobretudo, continua a ser um país de essência. Há que senti-la e entendê-la. O desafio nem sempre é fácil! Por exemplo, saudade? O que é? Como a sente? Como a explica? Um estado de alma? Uma emoção? Um afecto? Apenas uma expressão? Seja o que na realidade sentir, saudade é muito palavra muito nossa. Nenhum país a tem no seu vocabulário.

É um estar não estando; é um querer não tendo; é um partir ficando; é um destilar de nostalgia. Não se sabe a sua origem. Há quem defenda que, um dia, foi dita por uma mãe ao despedir-se do filho que emigrava. Talvez sim, talvez não. É bem provável que seja uma herança genética que nos tocou profundamente e que soube resistir ao passar do tempo.

”...Percorri os Oceanos do Tempo para te encontrar...”.

É uma busca tão íntima e, simultaneamente, tão intensa, uma confissão solitária e sofrida que rivaliza com saudade. É um mescla de amor e de sofrimento pela ausência da pessoa amada. Ficava bem num fado! Por isso se Carlos do Carmo o cantasse seria um dolente fado de amor e de procura que poderia terminar assim: “e não te encontrei” ou “amei-te perdidamente”, antecedendo os acordes finais e vibrantes de uma guitarra em forma de coração.

A Vida é um Poema de Heróis

É natural que te apeteça chorar
Mas se o soluço te abafar a garganta
Endireita as costas, levanta o queixo e sorri
Ri mesmo, abertamente,
Frente ao que te considera humilhado
Humilhante é humilhar-se os humildes.
É natural que te sintas só
E te percas na imensidão da tua solidão
Mas se ela fizer eco na tua vida e te sentires desesperadamente só
Abraça o ar que te rodeia
Respira profundamente e lembra-te
Que a vida é um desafio a longo prazo.
É um poema de heróis
Não de vencidos
Tu homem, tu mulher
Nasceram para vencer.
É natural que morras lentamente
Quando te afogas na saudade
E sintas o passado esvair-se pelos dedos
Como nuvens sopradas pelos ventos
É natural que te vires para trás
Na ânsia de caminhar para o aquém do tempo
Ansiando por recuperar sonhos e alvoradas.
É natural que as lágrimas
Queiram deslizar dos teus olhos,
E os joelhos se queiram dobrar
Ao peso dos passos parados
De quem não sabe por onde andar
É possível que a indecisão te desespere
E te sintas confuso nos dias
Que odeies o mundo que te rodeia
E que as pessoas para ti
Pareçam sombras esbatidas e fugidias
E te sintas só, desprezado,vazio, nada.
Nenhuma pessoa é ninguém!
Nem tu és o Mundo!
O que é o Mundo?
Vendavais de força
A espezinhar os fracos
Falta a força, não da Verdade
Mas a força que torna fortes os fracos.
Há que iniciar a luta na selva da tua vida
Se te apetece chorar, ri
Ri, com serenidade
Se te apetecer quedar estático a um canto
Sem forças para reagir, levanta-te
Mesmo que não saibas como
Estático é que não!
Os cemitérios é que estão povoados
De estátuas adormecidas
Nos luares das noites frias.
Não deixes os outros sentir
A extensão da tua pobreza
Não mostres a simplicidade dos teus trajes
Nem as tuas ânsias secretas.
Não mostres a tua sede
Nem a tua fome, nem sequer o teu abandono
Tu, na selva, para sobreviver
Tens de mostrar força.
Não de armas.
Força dos fortes
Com dignidade e brilho no olhar
Se te apetecer chorar, ri!
Se te apetecer fugir, fica!
Se te apetecer acabar, vive!
Se te apetecer comer, espalha as migalhas
Se os teus pés estiverem feridos
Das pedras dos caminhos, dança
Se estiveres desesperadamente só abre os braços ao Infinito.
Olha em redor
Há algo vivo à tua espera!
Nunca espalhes o teu sangue,
A tua dor, o teu suor, a tua vida, sem luta.
Na vida, sobrevivem os fortes
Se és fraco, terás de deixar de O ser!
MEB

domingo, 20 de janeiro de 2008

Os Frangos do Asdrúbal

O Asdrúbal era o ponto de encontro dos militares destacados na capital guineense e de todos os que se deslocavam a Bissau. As dimensões do restaurante não eram desafogadas, nem sequer a decoração tinha algo de particularmente interessante, apenas uma sala, com mesas muito juntas o que, curiosamente, não provocava incómodo porque em clima de guerra é-se solidário em tudo, de forma espontânea. Partilha-se espaço, emoções e vida.

-É isso -pensou Catarina- o que torna o Asdrúbal tão mítico.
Quando a porta se abria tinha-se a sensação de entrar num palco onde cada novo cliente era vedeta. Todos os olhares se dirigiam na sua direcção, com curiosidade é certo, com desejos camuflados até, se fosse uma mulher bonita (muitos desses homens estavam há meses no mato) ou, apenas, olhavam com na cumplicidade de partilharem, silenciosamente, o facto de estarem vivos. O comportamento usual naquelas paragens seria a de uma mulher entrar no Asdrúbal devidamente acompanhada, porque para ir-se só, como Catarina o fazia, eram necessárias pelo menos duas coisas: ser-se de fora e decidida. Já que estavam reunidas as condições indispensáveis, porquê esperar mais?

E foi de ânimo solto, seguro e mesmo feliz que empurrou a porta e entrou, com alguma altivez, reconheceu para si própria. Sentiu que a sua presença teve sabor a triunfo e no silêncio ouviram-se aplausos surdos que a sua presença arrebatou. Não que o ruído tivesse cessado por completo mas que baixou muito de tom, foi uma realidade. Todos se voltaram para a porta onde a silhueta de Catarina, em contra-luz, fez dela uma deusa.
Os caracóis soltos sobre os ombros, o simples mas sensual vestido azul-claro (tinha apenas como adereço um colar de pequenas pérolas) a mala de verniz preto ao ombro, a condizer com os sapatos de saltos altos, tipo agulha, completava a toilette cuidada, sem exagero, mas com requinte.Catarina não ignorou que ao entrar sozinha chamava as atenções, mas há muito que estava habituada a situações idênticas, tinha percorrido meio mundo e habituou-se a ser independente e segura na sua solidão.

Desceu os pequenos degraus que a deixaram na sala e nela procurou lugar. Um empregado arranjou-lhe uma mesa bem localizada. Depois de agradecer com um sorriso doce sentou-se na cadeira que lhe este lhe indicou. Sentiu-se bem, respirou fundo e voltou a olhar recantos que já conhecia. Havia uma certa semelhança entre aquele restaurante e as muitas refeições que fez nos campos de Angola, a maioria delas ao ar livre. Que semelhanças poderiam existir?

-O ambiente! É isso, o ambiente. O convívio entre militares, a alegria de se estar vivo. O medo disfarçado sobre o que se passaria amanhã ou logo, ou agora...-Pensou Catarina.

Olhou para a toalha aos quadrados brancos e vermelhos sobre a qual estava uma jarra pequena, com algumas flores o que dava um toque que soube bem encontrar em terras onde o sobressalto, o medo e o imprevisto andavam de mãos dadas. Pouco esperou pelo empregado que veio saber o que escolhera, Catarina pediu um frango bem assado e uma jarro pequeno de vinho tinto.

Quando começou a saborear o jantar e este pereceu-lhe um manjar dos deuses. Estava simplesmente divinal o frango no churrasco como era timbre do Asdrúbal. Passada meia hora de permanência, o diálogo com os companheiros das mesas ao lado surgiu de forma natural. Do lado direito estava um casal com um bebé que, deitado numa alcofa azul, não conseguia dormir, olhava curiosamente para as luzes e para as constantes atenções que a mãe, muito jovem e bonita, não deixava de lhe dar.
O marido olhava-os com ternura. Pelo ar muito pálido da jovem e do bebé, contrastando com o bronzeado amarelecido do pai, este deveria ser militar e, por certo, tinha vindo de qualquer parte da Guiné ao encontro da mulher e do filho, no aeroporto de Bissau.

Ao lado esquerdo numa mesa maior, estavam dois alferes, um capitão e quatro furriéis, eram os reis do barulho e da alegria. Não demoraram muito a contar a Catarina as suas aventuras em terras da Guiné, e por eles ficou a saber que estavam a comemorar a vinda à capital, depois de seis meses consecutivos no Norte. Nas entrelinhas das gargalhadas e da alegria exuberante, Catarina sentiu que havia ali muita amargura disfarçada, mas era uma forma evidente de libertar tensões e emoções, numa mescla mal contida de nervos, de medo e de revolta.

Revolta, pelos camaradas que vieram com eles, mas que já não iam regressar à Lisboa que os viu partir. Dor, recalcada nas lembranças dos combates sangrentos, desumanos, dantescos, onde os homens deixam de o ser e libertam a parte animalesca. Barbaridades feitas em nome da sobrevivência que nenhuma bebida do mundo jamais os faria esquecer. Sentia-lhes o drama. Olhou-os com aquele olhar de profissional habituada aos cenários de guerra e pensou que nenhum deles deveria ter a idade que pareciam ter. Tinham amadurecido precocemente no rebentar de cada granada, na explosão dos lança-chamas, nos cortes das catanas e no espetar das baionetas. Estavam ali para esquecer.

Distantes ainda da peluda (disponibilidade), voltariam para a base dentro dos próximos oito dias. Confraternizaram até tarde, e quando foram levar Catarina ao hotel a despedida soube a amizade de longa data, como se, juntos, tivessem já atravessado os oceanos de muitos tempos. Catarina olhou-os nos olhos e encontrou neles almas atormentadas. Nada podia fazer, desejou-lhes sorte e separaram-se.

Ficou marcado um encontro sem data nem local. Trocaram contactos e o futuro diria quando se veriam novamente. Feitas as despedidas Catarina subiu para o quarto e nele escutou a sua primeira serenata, na capital da Guiné e, às escuras (se abrisse a luz os mosquitos entravam sem cerimónia), abriu a janela e sorriu-lhes, pedindo que não fizessem barulho para que a Polícia Militar não os levasse para a Fortaleza. Quando os viu partir, sentiu tristeza.


-Sentimentos assim que rompem em explosões de sinceridade só se encontram nestes ambientes- Pensou Catarina. Onde hoje se vive e, amanhã, talvez não! Aprende-se a ser solidário com os outros de uma forma leal. Por inteiro. Sem traições. Dá-se e compartilha-se com desconhecidos o que de melhor é capaz de albergar o coração humano.

É o lado positivo da guerra, une as pessoas, fá-las sentir que só a interajuda vence. Não há espaço para o isolamento para o trabalho solitário. Só equipas que lutem em conjunto, sofram em conjunto e quando algum elemento é abatido, morrem todos um pouco, em conjunto. Para sempre.

Na manhã seguinte Catarina tinha de apanhar a pequena Dornier que a levaria de Bissau a Bolama. Já era tarde mas não sentiu sono, o encontro com os jovens militares tinha-a emocionado. Leu, depois de ter tomado um duche rápido, e o sono acabou por vencê-la, já a noite ia alta.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Sócrates, Tem Mau Feitio!

As sondagens valem o que valem mas, apesar das surpresas que por vezes sucedem em actos muito mediáticos, eleições, por exemplo, elas geralmente levantam bem o véu sobre os resultados finais.

Por isso, ao olhar para o painel de avaliação dos ministros do Governo, resultantes de uma sondagem do Correio da Manhã/Aximage, não é estranho ver quem são os últimos quatro classificados: Cultura (9,9), Obras Públicas (9,7 -o Jamais é vitalício), Educação(9,2) e Saúde (5,3). Mesmo assim acho que os portugueses foram flagrantemente benévolos na votação para com esses ministérios que não deveriam ter passado dos 3, qualquer coisa). É tudo muito mau. Além disso, confuso e, francamente, preocupante.

Não querendo plagiar Mário Lino (Obras Públicas) o sector da Cultura parece mesmo um deserto, com umas miragens de oásis aqui e além, mas nada de relevante.Um desconsolo. Além disso, Isabel Pires de Lima não tem demonstrado a mais leve aptência para comunicar seja o que for. Assim, quem espera obra do seu ministério, queda-se pelo desencanto.

A Educação tem dois contras: primeiro, os resultados positivos custam a chegar, embora se reconheçam algumas boas alterações, mas o balanço quer na situação dos professores, quer no funcionamento dos estabelecimentos de ensino, quer no próprio programa, não é positivo; segundo, a crispação e irritabilidade de Lurdes Rodrigues, incomoda.

Quanto a Correia de Campos a realidade é tão preocupante que, seguramente, alguma coisa importantíssima se esqueceram de dizer ao povo, em relação ao fecho dos Centros de Saúde, Urgências, Maternidades, Hospitais e afins. Jorge Sampaio diz que estas alterações corajosamente foram feitas mas faz questão de alertar para o facto da flagrante falta de informação e, por isso, os portugueses desesperam.

O caso não é para menos. Como o Governo não quer matar os idosos de ansiedade, stress e pavor, poupando nas reformas, é urgente que alguém diga onde está o brilhantismo do actual modelo em vigor. Não se esqueçam de ver bem o que se passa nos quartéis dos Bombeiros, pelo País, que se debatem -diariamente- com carências de toda a espécie. Conheço bem a situação e, garanto, que só a carolice de muitos impediu que o balão ainda não rebentasse. Há quartéis na total penúria. Como podem ser, então, os braços salvadores de populações angustiadas?

O Presidente da República, agrada a 62,3% dos portugueses. Eles reconhecem em Cavaco Silva o pilar da estabilidade na vida política nacional e premeiam-lhe a actuação (10% dizem ser má).

Quanto a José Sócrates o caso não é fácil. Ele é um político (já o disse neste blogue em Dezembro) brilhante que tem sabido manter com o Presidente uma saudável e necessária convivência política. Mas é um político só e com mau feitio. Fez inimigos no interior do seu próprio partido (PS) que no futuro não lhe facilitarão a vida, creio. Além disso, nem sempre é hábil frente à Oposição. Ele bem diz que quando tem razão pega e não larga!

O primeiro-ministro faz uma governação solitária e deixar cair algum dos seus ministros parece não ser muito viável, até porque todos dizem para o fazer e, isso, vai contra à sua maneira de ser. Claro que paga a factura e isso marca-o Por vezes o seu olhar traduz uma certa nostalgia. Embora choque muitos, como se viu recentemente no Parlamento, a sua atitude política em relação ao Tratado de Lisboa não podia ter sido outra.

Filipe Menezes está a subir na confiança dos portugueses mostra também este estudo. É uma realidade própria num estado democrático: o direito à opinião. É saudável. O que não quer dizer que não se deva estar atento. O tempo já nos mostrou que o lugar de primeiro-ministro não é para todos. É para quem pode! Eu, particularmente, achava que Filipe Menezes devia ser o líder do PSD, desvinculando-se do lugar de presidente de câmara.

Antes de terminar falo de Luís Amado. Acho-o um ministro dos Negócios Estrangeiros notável e gostaria de o ter visto colocado em primeiro lugar nesta avaliação feita pelos portugueses. Obteve 11,6 valores. Eu dava-lhe 18, sem pestanejar.

Terminada este brevíssima análise sobre o que pensam os portugueses dos seus ministros, recolhe-se facilmente o dado de que não estão, nem pouco mais ou menos, felizes. Andam tristonhos, preocupados, confusos. É preciso que Sócrates nos saiba dar esperança.Não sei se pode, mas deve! Já que nos aperta tanto o cinto, aperceba-se também dos nossos sonhos, vontade, empenho, projectos. Aperceba-se da nossa ânsia de vida. Das nossas esperanças.

Por falar num povo esperançado, e deixando bem claro que o caso de Eva Péron nada tem que ver com a realidade portuguesa, está visto, lembrei-me, vá-se lá saber porquê, do mito de Evita. Relembro a trajectória de uma mulher que, vinda do nada, soube agarrar a alma de um país e teve a audácia (apesar da sua aparente fragilidade física) de incutir a um povo desmoralizado energia, confiança e coragem. Desafiou poderosos e sistemas, moveu-se por entre armadilhas e despertou cóleras, ódios e traições.

Amou o seu povo e por ele foi idolatrada. Criou uma imagem de marca (rotina actual no staff de princesas, políticos e actores) revelando-se perita numa área ainda desconhecida na época. Foi vibrante, dinâmica e contagiou com a sua energia quando abanou a Argentina e lhe mostrou que não era proibido sonhar. Marchou ao lado de descamisados com determinação, intrepidez, iluminando os deserdados da sorte que na hora da sua morte a choraram dolorosamente, legando às gerações futuras uma saudade mítica.

Tornou-se imortal. Para una continua a ser a bandeira, o arco-íris, a santa; para outros a “pega”que, vestida de sedas, peles e pérolas, enganou os fracos e desprotegidos. Quem foi a verdadeira Evita? Julgue quem puder aquela que soube dar esperança a um povo.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Só Por Hoje, Pense em Si

Há a consciência colectiva de que os tempos actuais (em todo o mundo), não são, não estão fáceis. A violência grassa, a pobreza moral, física e mental, é galopante. O medo inibe, asfixia, apavora. Os atentados mais vis são direccionados contra indefesos, tornando-se hediondos os que visam crianças, idosos, tornando-os em verdadeiros desprotegidos da sorte.

As vítimas são por atacado e sem culpa, apenas adensam o monte de carne dilacerada atirada para o molhe dos desditos a quem não perguntaram idade, religião, nacionalidade ou sexo, apenas tiveram a desdita de estar na hora errada, no local errado. Não lhes deram sequer a oportunidade de erguer a bandeira branca da paz como esperança desesperada de proteger a vida que estava a segundos de lhes ser tirada.

Os conflitos bélicos, camuflando negócios de alto gabarito abrem, segundo a segundo, os tentáculos do monstruoso polvo que cego, agarra presas, países e futuros. As mentiras, os enganos, os acordos, a corrupção aumenta, adensa a teia de seda, por vezes invisível, que aperta e mata.

A droga miseravelmente sustenta impérios e destrói vidas mal começadas a viver. Entranha-se nas veias, no sangue. Cega o coração, a alma, confunde o espírito, esmaga a esperança, sonhos e pinta de negro os amanhãs sem alvoradas. Pobres deserdados da sorte que aos cantos da vida se tornam mendigos da sua própria desdita.

A panorâmica é terrível, parece terrível e sem resolução. Paremos um pouco para pensar... -eu deixei de escrever, olhei o tecto da sala, inspirei lenta e profundamente e esperei...É bom esperar-se sempre. É bom sentir que aconteça o que acontecer, seja qual for a situação que enfrentemos, se deve lutar contra o medo, o desânimo.
Não podemos sentirmo-nos limitados. Nunca devemos deixar de ouvir o nosso coração, porque ele bate mesmo nos momentos em que o desespero nos amordaça.


Outro problema ameaçador é o alcoolismo. Dizem as estatísticas que a aumentar galopantemente e revelando que o sexo feminino está a tomar a posição cimeira. É gravíssimo, mas é uma realidade. Para quem na solidão da sua vida se degladia com este problema, tomo a liberdade de recordar palavras (sábias) que devem ser lembradas, divulgadas, como sementes prontas a germinar no tempo e no coração onde caírem. Não feche o seu coração. Uma mente pode ser enganada. Um coração, não!“Só por Hoje”, foi um folheto distribuído há anos pelos Alcoólicos Anónimos e dele retirei algumas passagens.


”Só por hoje, procurarei viver o dia que passa, sem procurar resolver todos os problemas da minha vida. Só por hoje, procurarei fortalecer a minha inteligência e aprenderei algo de útil. Só por hoje, livrar-me-ei da pressa e da indecisão. Só por hoje, agirei delicadamente, não propagarei o que de bom possa fazer. Por hoje, não criticarei, nem darei ordens, a não ser a mim própria. Só por hoje dedicarei meia hora ao silêncio e ao repouso. Meditarei na vida e nos projectos. Só por hoje, não hei-de ter medo de apreciar a beleza e de acreditar que aquilo que eu der ao mundo, o mundo me devolverá”.

São palavras que podem agir como flecha atirada ao alvo: acertar nos mais indecisos e ajudá-los a trilhar o caminho da esperança. Não é um trilho fácil é mesmo, inúmeras vezes, desconfortante, até desesperante mas, percorrido com verdade, com querer, os resultados são muitas vezes a concretização dos desejos. Não esqueça, Só Por Hoje.

A verdade é que não há tempestades permanentes e, apesar dos vendavais, nunca deveremos deixar de nos agarrar ao leme do barco das nossas vidas. E quando os ventos se cruzam em fúria e ecoam pelas veredas das serras ou caem nos mares crispados; quando os céus ficam pesados e negros e as nuvens carregadas de energia se tornam ameaçadoras e o ribombar dos trovões faz estremecer; quando pelos ares revoltos passam folhas, ramos, árvores, casas, é tempo de erguermos cabeça, acalmar o coração e lembrar que lá em cima sereno, perante a fúria bravia da Natureza, o Sol continua no seu lugar, esperando o passar da tempestade para voltar a brilhar.

Assim somos nós, há desesperos de toda a espécie que nos derrubam mas se quisermos realmente, podemos levantar-nos. Só Por Hoje, dê a si próprio essa oportunidade.

A paixão de Sir Wiston Churchill

Quem alcançou a casa dos quarenta, sem jamais ter pegado num pincel, ou feito um rabisco a lápis e um belo dia se vê intensamente dominado por um novo e cativante interesse, rodeado de tintas, telas, paletas, sem se sentir decepcionado pelos resultados obtidos experimenta, sem dúvida, uma forte e fecunda emoção. Gostaria que os meus semelhantes partilhassem de igual prazer”.


Este conselho foi dado por Sir Wiston Churchill que se afirmou como político brilhante e escritor notável, apesar de em Harrow, onde estudou, ter sido um mau aluno em todas as matérias, excepto em inglês. Começou como jornalista antes de se dedicar à política. Como estadista foi um defensor acérrimo da Inglaterra, um negociante ímpar e um orador verdadeiramente empolgante.


Famosos ficaram os seus discursos:”Tenho a certeza de que hoje somos senhores do nosso destino, que a tarefa que temos perante nós não está acima das nossas forças; que as dores e dificuldades não estão para lá das nossas capacidades de resistência física. Enquanto tivermos fé na nossa própria causa e uma indomitável vontade de ganhar, a vitória não nos será negada”. Um dos seus preferidos foi dito nos anos 40:”…Não posso prometer-vos senão sangue, suor e lágrimas…”.


Os seus discursos parlamentares eram tão impressionantes como temíveis, as suas ironias agressivas feriam profundamente o alvo que queria atingir. Bem no centro, não admitia falhas. Churchil foi um homem forte na política, sem dúvida, que teve a inteligência de se preparar gradualmente para os tempos de calma que a idade avançada lhe traria.

E, quando eles foram chegando o inflexível político de craveira mundial, soube saboreá-los. Como pintava muito bem as suas aguarelas e esboços ganharam fama e hoje valem fortunas. Escrevia de forma fascinante e, por isso, em 1953, recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Era, como se vê, um homem dotado.

Mas foi nas telas que Churchill encontrou a sua grande forma de evasão. Passava horas interligado com a Natureza e dela saboreava-lhe a beleza, o imaginário. Soube captar-lhe a luz, a cor, as formas. Nas telas encontrou espaço para um trabalho criativo e solitário que o ajudou a concentrar-se e, simultaneamente, a libertar-se. De tal forma que expressou publicamente o desejo que todos experimentassem esse prazer.


Recordando o seu perfil e a sua trajectória, acho inteligente aceitarmos o conselho de um homem brilhante, por vezes exaltado, é certo, que negociou de forma ímpar no calor dos grandes acontecimentos que exigiam decisões lúcidas que não admitiam faltas, erros. Foi, simultaneamente, um homem que ajudou a fazer História e que soube saborear a vida.


Façamos como ele! Olhemos para uma tela branca -fixamente- até que um dia, tenhamos a felicidade de conseguirmos ver nela os movimentos, os traços que estão gravados no nosso subconsciente. Vamos nessa. Vamos apanhar formas, mexer nas cores, iluminando-as de luz. Quem sabe, se não está em si uma faceta, um potencial, até agora desconhecido?

domingo, 13 de janeiro de 2008

O Reino Encantado de Camelot


O mistério da ilha de Páscoa, o enigma das suas imponentes estátuas e principalmente de quem e como as teriam feito e colocado ali, aos pés do vulcão Rano Raraku; das pistas do Tibete onde as marcas no solo confundem os neurónios de peritos curiosos e iluminados, que por mais estudos que façam não conseguem respostas conclusivas ou satisfatórias; das confusões e certezas de milhares de pessoas em todo o mundo que afirmam a pés juntos ter visto nos céus OVNIS (objectos voadores não identificados) que as deixaram geladas, imóveis e mudas, são temas sempre actuais.

Alguns doutos e menos doutos na matéria pensam que Sintra é uma base desses objectos rapidíssimos, luminosos, que cortam o horizonte num abrir e fechar de olhos. Talvez tenham razão, digo eu, que da janela do meu quarto sou uma privilegiada observadora, do espaço, das noites de veludo e brilhantes, e dos movimentos naturais ou configurados involuntariamente pela minha imaginação. Às vezes há bailados magnetizantes que me deixam confusa.

Confesso que estes temas me acicatam frequentemente os pensamentos e sempre que surge um novo fico envolvida por ele. Mas não é só a evolução da actualidade que me fascina, os factos do passado continuam a surpreender-me. Quando em 1976 a Viking I , ao fotografar Marte, numa região denominada Cydonia, fixou uns invulgares relevos que imitavam na perfeição um gigantesco rosto humano, o mundo agitou-se e eu, claro, nem falar. Foi um desassossego

Mistério dos mistérios! Na altura a NASA não soube explicar e a sonda Observador, que tinha sido enviada em missão diplomática ao Planeta Vermelho, quedou-se pelo silêncio e até cortou o cordão umbilical que a ligava à Terra. E, enquanto não se soube mais soube o assunto a minha imaginação fervilhou.

Na actualidade, ando numa verdadeira girândola de dúvidas relacionadas com o Planeta Terra e as suas confusas alterações que me levam a sentir que viver na Terra é um milagre! É tudo tão perfeito, tão perfeito, que basta deixar de o ser um bocadinho para...e saber?

Mas, verdadeiramente o que me mais fascina e encanta, o que povoou e povoa longas meditações, o que imagino e saboreio com dúvidas e prazer (há anos) é o tema do Reino Encantado de Camelot . Hoje como ontem! As mesmas dúvidas e o mesmo deleite. Penso que o rei Artur, sábio e justo, coroado aos 15 anos (mesmo lenda), ao unificar a Inglaterra, ao criar a Távola Redonda,onde unia em sessões especiais 150 nobres Cavaleiros (podendo sentar 1.600), em espaço de verdadeira irmandade, igualdade, e regendo-se por um espartano código de conduta, foi um verdadeiro democrata do seu tempo.

A Excalibur, espada mística, de poderes mágicos, que se diz ter sido enterrada numa pedra pelo pai de Artur antes de morrer é um elemento fascinante, embora particularmente goste bem mais da ideia de Excalibur ter sido atirada para o lago de Avalon e depois ter sido devolvida a Artur pela Dama do Lago. Quando ela ergue o braço e rompe das profundezas com a espada na mão é uma visualização poderosa.

Avalon é a ilha sagrada cheia de mistérios, magias, fadas, feiticeiras onde Artur, ferido, foi curado pela belíssima e maléfica Morgana, sua meia-irmã. Pensa-se que na batalha final contra Lancelot -o seu melhor amigo, forte e corajoso mas que não resistiu à beleza da sua rainha-, Artur foi ferido violentamente e levado para Avalon onde acabou por falecer.

Diz-se, também, que nas escarpas da Cornualha foi edificado o castelo do rei. Ficava a 180 metros de altura e, aí, surgiu o paradisíaco reino de Camelot, belíssimo, calmo, onde Artur, Guinevere (a rainha) viveram juntos 12 anos felizes. Lancelot (o cavaleiro que conquistou o coração de Guinevere), Merlin (o mago com muitos poderes e muitos segredos ) entre outros personagens, deambularam por terras encantadas neste universo imaginário e eterno.

E, nesse mundo encantado, dizem ainda hoje ecoar pelas costas bravias da Cornualha, uma voz forte que diz:"Consolai-vos. Ficai seguros que voltarei quando a terra da Bretanha precisar de mim".

Simplesmente encantador. Apaixonante. Sempre. O Reino Encantado de Camelot continua a viver comigo e, apesar dos anos, vou sempre descobrindo aqui e ali, pozinhos novos que conseguem avivar o brilho da imaginação.

E, curioso, quando apanho na Portela de Sintra a camioneta para Mafra, antes de chegar a Ondrinhas, do lado esquerdo, fica um monte cheio de meníares e árvores diferentes, com raios de luz projectando-se nas rochas redondas, brilhantes, onde se sentam damas de cabelos longos, entrelaçados com flores, por onde cavaleiros de armaduras de couro e prata, cavalgam a trote. E, há dias, quando os fixo melhor, que os vejo saudarem-me...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O Palácio Flutuante do Graal


Quando se chega a Sintra assaltam-nos memórias do passado. Jardins, palácios, o perfil da serra a abraçar o Castelo dos Mouros, o Palácio da Pena, majestoso, flutuando no Monte da Lua. É, ainda, Monserrate (o sonho e a obra de Byron e Cook), rendilhado, orientalista, exótico, colorido, circundado por jardins que só por um caprichoso lapso dos deuses ainda não foi descoberto por pesquisadores do passado e, por isso, não desmaiaram já de emoção ao sentirem-se dentro do Éden Terreno. São as chaminés ímpares do Palácio da Vila, visitado por largos milhares de turistas que vindos de todos os cantos do Mundo, durante o ano, se rendem totalmente à beleza desta paisagem que se espraia até ao Atlântico. É tanto azul, tanto verde, que embriaga os sentidos.

Quando o comboio bamboleia na curva da Portela e lá em cima, no cume da Serra, surge o perfil do antigo mosteiro dos monges de S. Jerónimo, Nossa Senhora da Pena, fundado por D.Manuel (quase destruído no terramoto de 1755), não imagina que lá de cima, um dia, o Rei espreitou a frota de Vasco da Gama, no seu regresso da India. Mais tarde seria D.Fernando II que, ao adquirir em hasta pública as ruínas do mosteiro, o mandou restaurar a um engenheiro militar, o alemão Eschwege, em 1839, construindo um castelo que ainda hoje mostra as magníficas linhas arquitectónicas das construções árabes, o estilo mudéjar de Espanha e o romantismo alemão.

Enquanto o comboio continua a serpentear pela linha e o fim dela se aproxima, instala-se no passageiro uma espécie de ansiedade. Ele sabe que está a entrar num reino especial ao qual em 1848, o conde Raczynski, famoso critico de arte, dizia: os arqueólogos do ano 2245 quebrarão a cabeça quando quiserem fixar a época das diferentes construções da Pena. Talvez seja por isso mesmo, por essa miscelânea de concepções que o Palácio Flutuante do Graal, continua a deslumbrar. E, curioso, com o passar dos anos consegue ir a espaços secretos (por certo) arrebatar uma vitalidade que o torna cada vez mais esplendoroso. Subir a rampa de acesso e olhá-lo cá de baixo, cuidado, a emoção é muita. É mágico. Quando chega ao pátio e se aproxima do belíssimo muro debruçado para o Infinito, não dá para descrever. É estonteante.

A paisagem matizada emociona, virada para qualquer que seja o lado. É encanto puro a salpicá-la naquele espaço, diz-se com espólio dos Templários, imortalizado por pintores, reis, escritores, artistas. Sintra é um império de sonhos. Seja qual for o capricho dos seus dias. Há nevoeiros intensos, brumas enigmáticas, brisas acariciadoras. Há miragens quando Sintra se envolve em neblinas e ostenta altiva e sensual mantos que flutuam ao sabor da imaginação porque, em Sintra, a realidade é invenção! O diferente, são os cânticos que ecoam pelos palácios, pelos recantos da memória e reanimam vidas que se projectam noutras dimensões do espaço e descem, mansamente, as escadas do tempo e chegam aos locais de saudade. Em Sintra há sopros de ventos, embalando a sabedoria dos deuses: silenciosos, sublimes e supremos. As vibrações são poderosas porque Sintra é um Império de sonhos unido ao respirar dos céus.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

No Coração do Moxico

Em 1964, o Luso (hoje Luena), no coração do Moxico, era de uma incomparável quietude, contrastando com o bulício bélico que envolvia os habitantes da zona rodeada por arame farpado. Tanto em terra como no ar e nas águas, os espaços eram constantemente invadidos pelas tropas aí sediadas, pelos barcos dos fuzileiros, por toda a espécie de aviões que cortavam os ares, ruidosamente, com notoriedade para os hélios e os “barrigas de jimguba”.

Apesar de todo este frenesim a vida desenrolava-se numa rotina macia conquistada pela habituação aos desassossegos e pânicos que, assiduamente, abalavam os arredores do Luso e que, obrigatoriamente, se reflectiam na capital. Mas, por entre o agora estrondo e depois silêncio; agora sirenes, depois música, por exemplo -podia escutar-se Mozart debaixo do ruído dos aviões que cortavam o céu lazúli sem que isso se convertesse em escândalo-.
Havia uma subtil evasão dos sentidos. Podia dialogar-se com o silêncio, contemplar o voo dos pássaros. Cada um aprendeu a fazer dos segundos das suas vidas um mar de bonanças, geridas com alguma coragem e um pouco, diria mesmo uma forte tónica de descontracção, a raiar a insensatez. Mas, havia que sobreviver. E as armas de defesa individual encontradas permitiam profundos contrastes.

Como é fácil de deduzir, nada era calmo no Luso, tudo era vibrante. As berliers corriam, os jipes voavam, as tropas não paravam mas a vida continuava ou melhor, sabia ir recuperar o seu ritmo normal depois das frequentes ameaças de violentas tempestades. Viver no Luso era de loucos e de privilegiados. Não era uma localidade de espectacular beleza arquitectónica, mas era arrumada, bem estruturada, luxuriante, aromática, e o ar era fresco, leve, transparente. Envolvia num abraço macio.

Quando se descia a rua que levava ao jardim do largo, frente ao Radio Clube do Moxico (A Voz Amiga do Leste de Angola), tinha-se a sensação de flutuar noutra qualquer dimensão. Havia uma brisa especial, diferente das outras e, se nos deixássemos levar pela fantasia, ganhávamos asas e as nuvens eram nossas.

Quando Catarina conheceu o Luso já estava, sem se aperceber da dimensão, apaixonada por África. Ah! Sim, África conquistou-a desde o primeiro momento em que, anos atrás, tinha descido do avião e pisado a pista de Bissau (Guiné). Foi um espanto e uma descoberta, um encanto e um feitiço. Os cheiros inolvidáveis, o ritmo inebriante, a mistura nem sempre pacífica da humidade com o calor, o conhecer das suas gentes, fizeram brilhar o esplendor tropical.
Quando se abre a porta ao continente africano não se imagina (não se pode) o turbilhão que nos espera porque África na sua grandiosidade emana uma força prodigiosa, arrebatadora e indelével. Em Bissau, Catarina descobriu África e, no Luso, viria a enfrentar um vendaval de emoções.
Anos mais tarde, o Livro da Vida orientou Catarina pelo mundo. Foi viajante em muitos países e acabou por escolher Portugal para viver. Muitas são agora as vezes em que já vergada pelos anos procura o mar e, sentindo-lhe a frescura e o borbulhar da espuma das ondas, invoca o que de melhor há em si. Invoca Deus, os Santos, os Anjos, os Espíritos de Luz. Invoca mesmo Iemanjá os deuses dos mares e das ondas. Projecta-se para o mais profundo do seu Eu ou para o mais distante de si.
Olha a grande estrada azul e, por vezes, sente o vento agreste. Mas fica. Mistura as nuvens com o Sol; as águas com as lonjuras do horizonte; o recorte do litoral com as rochas caprichosas que parecem figuras inanimadas. Fica, pensa, espera, num ritual de prece. A areia escorre-lhe pelos dedos e Catarina acompanha o seu deslizar sereno. Quem sabe se um dia, do fundo do mar adormecido, numa noite de lua pálida ou numa tarde de sol resplandecente, os deuses entenderão os sonhos? Vagueia, docemente, olhando a pomba azul que desaparece sempre nas estrelas adormecidas.
Catarina vive e desvive em cada memória e em cada saudade. Esta é a sua luta, o seu mundo e, por vezes, na caminhada sonolenta nas tardes de praia, sente que um murmúrio de brisa sobrenatural a arrebata, dizendo-lhe que a compreende. Aí, Catarina, sente mesmo as asas dos ventos sussurrantes. Como no Luso, no coração do Moxico.

Fernão Capelo Gaivota




Hoje, à esquina da tarde, quando a luz rósea do Sol se preparava para abraçar o mar, subi a uma rocha solitária e majestosa e olhei pausadamente o horizonte. Uni o polegar e o indicador, virados para cima, arqueei o corpo e invoquei as forças do Universo. Sentia-me poderosa e livre, qual Ave do Paraíso prestes a levantar voo.

O tempo sentia-se suspenso. Parado. Nem o vento respirava. A serenidade parecia envolver o Mundo naquele começo de noite mágico, estonteante de encanto, soberbo de magia. Electrizante e iluminador. Do céu caíam partículas cintilantes, poeira de estrelas, que rapidamente cobriram a rocha, deixando-a como um trono cravado num invulgar rochedo.

Depois, o céu abriu-se num tom púrpura, cintilando entre o laranja e o verde-esmeralda. Foi um estonteante festival cósmico envolto em sons harmoniosos com vozes angelicais e acordes magníficos. O desejo de absorver tudo o que via e o querer que algo me fosse revelado, agitava-me. Baixei os braços com as palmas das mãos viradas para cima, esperei por brisas renascidas e desejei que uma chuva macia me envolvesse em âmbares e cristais e me fizesse sentir entre o sonho e a realidade.

Fiquei, como diz a lenda védica, com a leveza da folha, a graça da corça, a alegria do Sol, as lágrimas do orvalho, a inconstância do vento, a timidez da lebre, a dureza do diamante, a crueldade do tigre, a doçura do mel, o calor do fogo, o frio do gelo, o perfume das rosas.

Rodeada de luares, energias e exércitos de átomos, vindos do agora e dos confins do tempo, inspirei as vibrações do Universo e entrei em mundos poderosos e secretos, abertos por uma exclamação mística, dita sete vezes seguida com a voz mais poderosa: a voz do pensamento.

Luminosa e leve, tal como Fernão Gaivota (que vive em cada um de nós) olho agora as minhas asas alvas, adquiridas no Rochedo da Transformação e, então, tal como diz Gaivota, quebro as correntes do pensamento e deslizo sem pudor neste voo da noite-fronteira, entre 2007 e 2008.

Abraço o ano prestes a findar e sussurro-lhe frases soltas, gratas e sentidas. Abro, depois, os braços ao que ainda vindo das imensidões do Infinito se prepara para nascer para o Mundo e saúdo-o, voando a seu lado, liberta, sorridente e feliz. Desafiadora.

Senti-me especial e divina. Fernão Capelo lembrou-me (uma vez mais) que não há limites. Lembrou-me a necessidade de superar as nossas fragilidades, medos e lançarmo-nos nos voos da descoberta e da realização. Ao despedir-me do Gaivota, que se preparava para voar dois mil e quatrocentos metros e aterrar em voo picado, ainda me gritou: não te esqueças nunca de que a verdadeira lei é aquela que conduz à liberdade.

Feliz 2oo8
-Publico esta crónica dias depois da data que o desejaria ter feito. Probemas técnicos assim o motivaram Quero agradecer aos serviços técnicos do Blogger, Google, Windows e da Sinalbyte, em Sintra, a possibilidade de me ajudarem a sair deste sufoco que foi o de não conseguir aceder ao meu querido e saudoso(que lamechas, sou!) blogue de que eu tanto gosto. Obrigada MEB