Brumas de Sintra

Ponto de encontro entre a fantasia e a realidade. Alinhar de pensamentos e evocação de factos que povoam a imaginação ou a memória. Divagações nos momentos calmos e silenciosos que ajudam à concentração, no balanço dos dias que se partilham através da janela que, entretanto, se abriu para a lonjura das grandes distâncias. Sem fronteiras, nem limites

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O meu nome é Maria Elvira Bento. Gosto de olhar para o meu computador e reconhecer nele um excelente ouvinte. Simultaneamente, fidelíssimo, capaz de guardar o meu espólio e transportá-lo, seja para onde for, sempre que solicitado. http://brumasdesintra.blogspot.com e brumasdesintra.wordpress.com

segunda-feira, 31 de março de 2008

CONCERTO 21 DE MOZART


Hoje, é tempo para navegar na noite, devorar o silêncio no jardim inebriante e envolvente onde as luzes veladas e indirectas esboçam espaços inatingíveis que olhamos, sentadas, nos bancos de bambu, polidos pelos brilhos dos imensos e poderosos luares. Não há intenção para desafios nem se esperam respostas às dúvidas que, por vezes, sufocam os dias. Apenas um estar doce, silencioso e macio numa abundância espiritual que aquieta e restaura emoções fragilizadas, que ensina a explorar, dentro de nós, a riqueza, o mistério, arquivados nos centros da memória.


É tempo certo para contemplar -num ritual profundo, às vezes adormecido- e aceder ao impulso de deslizar pelo manto da noite, sem sair do jardim de buganvílias e rosas de veludo, em contacto com dimensões que inquietam e fascinam. É tempo intimista, gratificante, pleno de magia, convidando à reflexão no santuário iluminado onde se domina a vida, com entusiasmo e pensamentos disciplinados, como senhores inspirados de festivos destinos. É tempo de redescobrir e despertar a plenitude da existência que gostávamos fosse sábia e força indomitável a guiasse. Há muita luz nas noites de interiorização, passadas nos jardins de brisas ondulantes que antecedem as alvoradas. Que não deixam de ser nossas, nos voos dos silêncios e dos impulsos.


Há noites deliciosas, especiais e únicas, envoltas na imortalidade de Mozart, escolhidas espaçadamente para não se perderem na banalização e nos soarem eternamente sublimes. Escolhem-se nas noites brilhantes de brisas mornas, sentadas nos jardins inebriantes de luzes indirectas e veladas. Cerram-se os olhos, libertam-se os músculos e os sentidos e, enlevadas, começamos a escutar os acordes lentos do Concerto para Piano nº 21 (segundo andamento) e, a partir daí, somos aves, folhas, nuvens, estrelas, templos, brilhos cintilantes, pétalas de rosa, chama, braços abertos aos universos.


Pára a brisa, pára o movimento da noite e da Terra. O som emotivo de Mozart invade-nos os sentidos, na subtileza, no lirismo pujante de serenidade e, cedemos ao diálogo entre o piano e a orquestra que nos transporta arrebatadora e intensamente ao centro do tornado da nossa saudade.



-Ouçam bem o momento em que o violino e a viola entram para executar o primeiro solo. Se não sentir arrepios, tente novamente; se sentir, é normal. Dificilmente há coisa mais bela
(citação de Milton Ribeiro).

domingo, 30 de março de 2008

LÁ...ONDE NASCEM OS DEUSES!


Andam a mexer nos meus sonhos e nas minhas inquietações. Há anos que fujo espiritualmente para Lhassa (Lugar dos Deuses), um santuário onde as feridas da vida saram, na tranquilidade dos lugares de silêncios profundos, nos cumes das serenidades e dos deuses. Os deuses nascem ali! No tecto do Mundo (encravado nas encostas dos Himalaias, entre a China e a Índia), para contemplarem a sublimação da existência humana que deveria ser esclarecida e gratificante.


Não sou budista (400 milhões de seguidores no mundo inteiro), mas aprecio a serenidade que essa filosofia de vida irradia e, sem nunca ter posto um pé no Tibete e, consequentemente, no Palácio Potala, o Branco e o Vermelho (declarado pela UNESCO, em 1994, Património Cultural da Humanidade), majestoso no cimo da Montanha Vermelha, a roçar as nuvens, nos seus 3.700 metros acima do nível do mar, sinto conhecer-lhe cantos, recantos, paredes, escadarias, patamares, muros, paisagens, janelas. Tantos foram os filmes que vi, os artigos que assimilei, os vídeos que colecciono.


Os distúrbios ultimamente ocorridos (iniciaram-se a 14 de Março), com visível agressividade, provocam angústia e preocupação a nível mundial já que a situação pode transformar-se num rastilho de pólvora de dramáticas consequências. O povo tibetano há 100 anos que sente a supremacia chinesa no seu território e o Dalai-Lama (quer dizer Oceano de Sabedoria), Prémio Nobel da Paz, em 1989, está exilado há 49 anos na Índia. Deixou Lhassa a 17 de Março de 1959 e, nos últimos anos, crê-se, que tem tido conversas informais com as autoridades chinesas na procura de solução para o conflito, embora a China o indique publicamente como instigador das recentes rebeliões. As divergências, as lutas, as revoltas no Tibete e as sistemáticas ocupações por parte da China têm sido, uma constante. Só que, desta vez, dada a proximidade com a realização dos Jogos Olímpicos (criados na era moderna, em 1896, em Atenas, pelo barão francês, Pierre Coubertain. Atletas do sexo feminino só participaram em 1900), em Pequim, a situação atinge contornos de difícil resolução.


Se por um lado, quando foram assinados os protocolos necessários para a realização dos Jogos, na China, em 2008, se sabia da situação no Tibete e não se ignorava que este país, a China, não é um salutar exemplo de defesa dos Direitos Humanos, a verdade é que se disse “sim” a essa mesma realização. Os acordos comerciais continuam entre muitos e muitos países e boicotar este evento desportivo que já percorre os caminhos do Mundo, há mais de 2.500 anos, a partir da Grécia Antiga, cidade de Olímpia, no Peloponeso, não é sob ângulo algum uma medida a tomar, dado o seu prestígio e visibilidade. Claro que o povo tibetano encontrou neste Março, uma oportunidade única de fazer ouvir a sua voz pelo mundo, precisamente pela proximidade da realização Olímpica, na defesa da bandeira que é a libertação do seu país.


A China não é flexível mas teme, à sua maneira, o boicote e sabe que neste momento, em teoria, pouco joga a seu favor mas, na prática, é uma potência imensa e isso pesa no mundo. Como terminará a situação Lhassa/Jogos 2008? A importância e o impacto dos Jogos Olímpicos serviu já para confrontos e reivindicações políticas de gravosas consequências. Foi o caso, em 1972, em Munique, do massacre sobre atletas e membros da comitiva de Israel. Em 1980, 1984, verificaram-se boicotes e em 1996 (Atlanta), um atentado à bomba. Só que as estruturas já existentes e as que se estão a concluir na China para a realização dos Jogos, diz quem já viu, são absolutamente espectaculares. E o governo de Pequim quer abrir as portas e mostrar ao mundo o seu poder e capacidade de realização. Para já, pagou uma verba à família das vítimas ocorridas no Tibete, e assumiu todos os compromissos nos tratamentos hospitalares aos feridos. Convenhamos que é pouco.


A situação é, portanto, de natural expectativa. Que não se verifiquem extremismos, que a moderação mova decisões sábias, que os objectivos da Grande Festa do Desporto, que reúne milhares de atletas, vindos de centenas de países, sirvam para aquietar energias que devem ser orientadas na alegria, na paz e na beleza.



O mundo precisa de acreditar em Pequim.

sábado, 29 de março de 2008

O CHARME DESCONHECIDO DE MARIA


O Presidente da República, Cavaco Silva, na sua recente viagem a Moçambique, ia correndo o risco de John Kennedy ( um dos melhores Presidentes que o Tio Sam já teve) quando ao visitar a França e, enfrentando o fulgurante e um pouco inesperado sucesso de sua mulher, Jacqueline, junto da população e círculos oficiais. Charles de Gaulle e o público renderam-se aos seus encantos e ao seu francês e a revista Time revista escreveu:


-Havia também aquele companheiro que veio com ela… (o presidente).


Até mesmo John Kennedy brincou com a situação ao dizer, creio que no discurso de abertura de um banquete oficial, não tenho a certeza.


- Eu sou o homem que acompanhou Jacqueline Kennedy a Paris e gostei muito!


Correu bem a viagem do nosso Presidente a Moçambique e apreciei a forma como, ali, foi recebido. Apreciei-a no seu todo e deliciei-me com a felicidade contagiante do casal presidencial que não se inibiu de a mostrar nos três dias da visita oficial (24 a 26 de Março), onde foram abordados temas relevantes e se abriram novas directrizes (com Cavaco Silva foram 45 empresários) avivando ideias para uma colaboração bilateral mais vigorosa entre Portugal e este país do Índico, vivendo já uma democracia consolidada. A visita de Cavaco Silva (primeira a um país africano de expressão portuguesa) foi acompanhado pelos ministros dos Negócios Estrangeiros, Defesa, Educação e Cultura.


Sucederam-se cerimónias, encontros, discursos e promessas de cooperação mais estreita e vigorosa. O Presidente não deixou de agradecer ao seu homólogo Armando Emílio Guebuza e ao povo moçambicano a defesa da Língua Portuguesa, defesa que fazem quando a falam, mantendo-a viva. O futuro não se faz com os fantasmas do passado. Ontem, fomos colonizadores; hoje, devemos ser parceiros. Folheando o Livro da História não se encontram países perfeitos, isentos culpas de fragilidades e de feridas. A solução harmoniosa, equilibrada, sensata e actual será a de, em conjunto, desbravar obstáculos que ainda possam existir a nível de bloqueios (de toda a espécie) que dificultem a interligação no tempo já de novos ciclos e novos desafios.


Antecedendo essa visita oficial o Presidente, acompanhado pela mulher, quatro netos e dois filhos, passaram uns dias (por certo deliciosos) em Bazaruto, destino de rara beleza, numa ilha rodeada de azul onde apetece mergulhar. Por isso chegaram bronzeados e felizes -estava lá, na Alma, era impossível disfarçar- a Maputo (ex-Lourenço Marques), recebidos com a rigidez protocolar e, simultaneamente, vibrante calor humano. E foi aqui que começou a delinear-se o êxito (inesperado) que sua mulher, Maria Cavaco Silva, professora de Língua e Cultura Portuguesa poderia vir a ter nesta visita. Digo inesperado porque, sinceramente, só há muito pouquinho (inho mesmo) é que comecei a encontrar na fisionomia da primeira-dama (eu sei que detesta o termo) uma abertura humana que me despertou interesse. Perdoe-me (como se me fosse ler! Delírios de uma bloguer, às três da madrugada…) mas achava-a, como vou dizer isto?


Achava-a mandona, antipática, com mau feitio (posso dizer carrancuda?), com um péssimo gosto, um penteado sem it, uma maquilhagem nada inspirada. Sabia do seu valor cultural e pronto, ficava-me por aqui. Longe de mim pensar que, um dia, inesperadamente, romperia essa espécie de casulo e, por artes mágicas de alguma equipa sabedora do ofício, a mulher do Presidente da República ressaltaria radiosa para as páginas dos jornais. E a primeira das suas muitas conquistas oficiais começou em Moçambique (o mundo que a aguarde), um país queridíssimo para o casal que ali viveu nos anos 1963/65, onde passou a lua-de-mel e dois primeiros anos de casados. Quando nesta visita oficial, no segundo dia, Maria Cavaco Silva voltou à escola (Secundária Josina Machel, ex-Liceu Salazar), onde há 44 anos deu aulas de português e francês, a emoção e a alegria, foram patentes. Foi vibrante e foi autêntica. Conquistou sem reservas e sem esforço.


-É com uma grande emoção, uma carga enorme de afecto que regresso aqui hoje. Só me apetece chorar de alegria…


Foram umas férias de Páscoa e três dias de visita oficial ao país de coração (do qual, hoje, têm a Chave da Cidade) deste casal de algarvios, actuais locatários do Palácio de Belém que, apesar das décadas já passadas, lembram a emoção dos tempos vividos em Moçambique, onde o Presidente cumpriu o serviço militar, da aventura de atravessarem o país num carro que não era topo de gama, dos filmes do desconhecido realizador Cavaco Silva que fazia tudo: guião sonorização, montagem, diálogos etc., para estar em contacto com a família. A saudade é verdadeira e a recordação daquelas paragens do Índico serão indeléveis. Seguramente.


-O nome da nossa filha (Patrícia) surge da predilecção que a minha mulher e eu tínhamos por uma rua em Maputo, cheia de jacarandás (quando florescem é uma sinfonia envolvente de lilás), que se chamava rua Princesa Patrícia, disse Cavaco Silva.


Por isso, seguindo os ecos do sucesso da viagem e do casal e, principalmente do clima encantatório vivido e transmitido por Maria Cavaco Silva, até então, penso, mostrando-se (apenas) risonha ao lado do marido e pouco mais do que isso, creio que este abrir de asas, num voo prometedor pode, algum dia, obrigar o Presidente a confidenciar mais ou menos assim:


-Eu sou o homem que acompanhou Maria Cavaco Silva a…(?) e gostei muito!

quinta-feira, 27 de março de 2008

ESTA GRÉCIA DEIXA-NOS GREGOS!


Pronto, apagaram-se as luzes da Arena de Dusseldorf (Alemanha) e os trinta mil espectadores rumaram às suas casas. Vinte e tal mil vestiram-se de azul e branco e vibraram com mais uma vitória da sua Selecção (Grécia). Sete mil eram emigrantes portugueses que, parece, escutaram os apelos de Scolari e fizeram-se representar em número superior ao inicialmente previsto. Sofreram mas não desanimaram e os seus gritos de apoio ecoaram pelo estádio, apesar de só explodirem verdadeiramente de alegria quando aos 75 minutos o golo de raiva do capitão Nuno Gomes (com uma assistência perfeita de Hugo Almeida), entrou na baliza da equipa adversária. Este foi o primeiro golo da época 2008 do avançado do Benfica que, diga-se, fez com Hugo Almeida uma excelente parceria, neste encontro marcadíssimo pelas ausências de Ronaldo, Deco, Petit, Nani, Maniche, Bosingwa.


No decorrer do encontro amigável, Simão sairia lesionado e entraria em campo João Moutinho que trouxe chama à partida, da qual ia saindo com a cabeça partida quando chocou em voo de águia com Karagounis (ex-benfiquista). Aliás, foi ele todo que marcou os dois golos da Grécia, em livres directos, que iam provocando um piripaque a Ricardo, excessivamente deslocado, que (parece) nem se mexeu ao ver a bola passar. Não estava nos seus dias. Acabaram-se os desafios a feijões e agora espera-se, no Verão, o emotivo e dificílimo Euro 2008 que vai agitar muitas almas e pulverizar emoções. Há 12 anos que não ganhamos à Grécia, essa matreira equipa que no brilhante 2004 nos atirou para o lugar de Vi-Campeões e eles quedaram-se (descaradamente, digo eu) com a majestosa taça e título de Campeões, facto que ainda hoje nos provoca pele de galinha. Perdemos, é verdade (é uma realidade que se vai tornando comum, mas…) mas, senhores, somos o 4º classificado no Campeonato do Mundo e Vice-Campeão da Europa. Temos peso, não? Antes do início do jogo já se sabia que ia ser difícil. A nossa Selecção estava desfalcada de jogadores de peso e a Grécia, como avisava Helder Postiga, antes do encontro:


-Não é muito diferente da selecção de 2004. Cria muitos problemas


E não é que criou! A nossa (querida) Selecção que estreou os novos equipamentos estava elegantérrima. A cor é linda. O corte é impecável e o cair do tecido é excelente, mas o Karagounis estragou-nos a festa. No banco, Scolari estava calmo, muito calmo, contrastando com Otto Rehhagel (seleccionador grego) que parecia movido a pilhas Duracell. Portugal começou mal o jogo e sofreu o impacto do primeiro golo. Só a entrada de Moutinho veio dar nova dinâmica, movimentação e posse e controlo de bola. É justo recordar que Miguel Veloso e Moutinho foram os melhores jogadores da primeira parte, Hugo Almeida criou embaraços aos gregos, Miguel, como lateral direito, cumpriu. E, Ricardo Carvalho (como eu gosto dele), voltou a ser um Senhor em campo, em toda a partida. Todavia, o trabalho da Selecção, no seu todo, não chegou para a desejada vitória. O talentoso Quaresma (que Mourinho parece querer levar para o Barça) não esteve no seu melhor. Sobre este encontro amigável o seleccionador português, disse:


-A eficiência da Grécia foi melhor do que a nossa! É um martírio! Mais uma vez perdemos. Fazer o quê? Mas, neste encontro, ganhámos um ou dois jogadores para o Euro…


Mistério. A quem se referia Filipão? E saber? Moutinho (dinâmico), Veloso (impetuoso)? Recapitulando: bom seleccionador, temos. Excelentes jogadores, quem duvida? O que nos falta? Vitórias! Pois é e, aí, lembramo-nos de Carlos Queiroz, o português que é treinador-adjunto do Manchester United, adjunto de Fergunson que, qualquer dia, vai andar calvo como um ovo graças à aposta feita com Cristiano Ronaldo, quando pensava que este não marcaria 30 golos. Pois! E, além de careca, ainda terá de pagar uma bela quantia de libras ao nosso Madeirense de ouro. Voltando a Queiroz, que tem alguns dos melhores pontas-de-lança da Europa, disse (não gostei nem do tom nem do timing):


-Portugal não é equipa favorita no Europeu. É gritante a questão do ponta-de-lança que tarda em ser resolvida. Pauleta foi uma excepção…


É! Pauleta foi realmente o melhor marcador do futebol português e , ainda, não encontramos substituto, mas há quem possa dizer isso (não é que não seja verdade) com altivez, porque pode. Tem de se ter classe.


-Pois! Mas quem marca golos no Manchester é o Cristiano Ronaldo, que não é ponta-de-lança… Expressão de Luiz Filipe Scolari, Seleccionador Nacional


A prová-lo lá estão os trinta e tal golinhos do Ronaldo que vão deixar o Fergunson careca. Olha se ele, o Ronaldo, fosse ponta-de-lança!


segunda-feira, 24 de março de 2008

O SOL LARANJA NO CAIS DO PIDJIGUITI


...Catarina chegou ao aeroporto de Bissau, vinda de Luanda. Quando se encontrou na placa voltou a sentir o contraste poderoso (sentido já na sua primeira deslocação à Guiné) entre a terra vermelha e os troncos suados dos negros que trabalhavam sob o sol ardente e, impressionou-se com o vigor das imagens. O calor e a humidade eram de valores altos e incomodativos e, rapidamente, sentiu a desagradável sensação de pele pegajosa. Ultrapassada a pequena gare apanhou o jipe que esperava pela jornalista e nele fez o trajecto até à cidade. Foi um percurso demorado feito numa estrada de terra batida. Deliciada, voltou a confirmar que o cenário continuava exótico e belíssimo.


-A Guiné é linda! Sente-se aqui o palpitar e o vigor do coração africano. Tudo é genuíno, de uma pureza comovente -Pensou Catarina enquanto admirava a paisagem que a envolvia.


Os miúdos banhavam-se nas celhas e as lavadeiras, com saias de longos e coloridos panos, mantinham o peito descoberto. As mulheres e os homens guineenses sempre foram de uma elegância impressionante, tinham o porte de príncipes. As silhuetas longuilíneas de corpos esculturais pareciam ter sido esculpidos por artista. Tinham um porte naturalmente majestoso. As mulheres, com o ancestral hábito de trazerem os filhos às costas, adquiriram uma postura própria dos grandes manequins do internacional mundo da moda.


Catarina voltou a sentir os activos cheiros da terra, das flores, no ar que respirava. Odores inebriantes, únicos, nada se lhes comparava. Respirou profundamente e voltou a deslumbrar-se. Viu as cubatas de colmo, construídas com rigor e a forma como se dispunham no terreno. Encantou-se com o percurso até ao asfalto, à entrada da cidade. E foi aí que um episódio impensável se tornou numa hilariante realidade Dois chimpanzés, à beira da estrada pediam boleia às viaturas militares que passavam (as civis não eram escolhidas).


-Não é possível. Pensou Catarina


- Deve ser insolação! Boleia?


Eles lá estavam, tranquilamente, do lado direito da berma. Catarina tinha-os visto saltar de um outro jipe e atravessarem a estrada. Juntos e decididos preparavam-se para regressar, fazendo o percurso inverso. Foi nessa altura que um dos chimpanzés bateu com força no capou do jipe em que a jornalista seguia. O motorista parou e, naturalmente, deixou-os entrar. Eles fizeram-no calmamente e, quando se sentiram confortáveis, olharam para trás e, num gesto rápido, estenderam as mãos a Catarina, num largo cumprimento. Catarina riu abertamente.


-Estou na Guiné, voltei a casa!


E não parou de rir, facto que não agradou nada ao chimpanzé macho e se não fosse a rapidez do condutor a agarrar-lhe a palma da mão, Catarina tinha levado uma forte e sonora bofetada.


-Isto não me pode estar a acontecer. É sonho! Não, miragem. Ninguém vai acreditar nisto, se eu um dia tiver coragem de contar.


Acabou por saber através do condutor que aquele era o comportamento normal do casal de chimpanzés, conhecidos por todos os militares de Bissau. Eram uns animais simpáticos, por vezes até sorridentes (mostravam abertamente os grandes dentes amarelados como se estivessem a troçar do mundo) e tinham nítidas preferências sobre as viaturas que escolhiam. Se andavam nas camionetas era por não haver alternativa porque os jipes descapotáveis (detestavam quando lhes colocavam as lonas) eram, decididamente, os preferidos. Comiam bananas, papaias e adoravam cajú. Por isso, muitos soldados iam fornecidos com esses frutos para melhor apreciarem tão insólita companhia. Todavia, havia uma regra que não ousavam esquecer: ninguém se podia rir! Eles não o permitiam. E quem o ignorava, esquecia ou queria testar a realidade, tinha já ido parar com as costas ao chão e com a cara a ferver, tal tinha sido a força da bofetada dada. Sorrindo (para dentro), Catarina sentia-se feliz e exultante com o inebriante cheiro de África a entrar-lhe na alma. O calor intenso e a humidade davam uma sensação desagradável é verdade, mas África, é África!


-Desconcertante, magnetizante, electrizante. Apaixonante! -Disse Catarina para si própria. apetecendo-lhe gritar com força para que a ouvissem bem.


-África é isto: apaixonante. Conquista-nos no primeiro segundo e prende-nos a vida inteira.


Chegou ao hotel, preencheu a ficha e esperou que o empregado levasse a bagagem ao quarto. Este era amplo e tinha uma grande ventoinha no tecto. A cama era larga e sobre ela caía um mosquiteiro de tule branco como se fosse um leve véu de noiva. Catarina sentiu-se bem. Depois de abrir as malas dirigiu-se à casa de banho onde tomou um longo duche que a deixou fresca. Em seguida, optou por dar uma volta pela cidade, enquanto ainda era dia. Revisitar a Casa Branca, que vendia desde agulhas a carros, era apetitoso e essa visita foi das primeiras coisas que fez (tinha de fazer) no seu regresso a Bissau. Já na rua, olhou para recantos dos quais se lembrava e descobriu uma varanda de um prédio colonial, em tons de um bonito verde e branco, onde funcionava a sucursal do hotel onde tinha dormido anteriormente, já que na altura a sede estava esgotada. No tranquilo deambular pela cidade notou uma desusada movimentação facto que, por certo, se ficava a dever à cerimónia oficial a realizar no dia seguinte, no aeroporto de Bissau, que se preparava para receber o novo Governador e, Catarina, estava destacada para fazer a reportagem. De novo em terras guineenses, tinha apenas um dia para estar na capital. No dia seguinte apanharia a avioneta para Bolama.


Para andar serenamente pelas ruas que ainda lembrava, mitigando a saudade desse fascínio africano, Catarina escolheu um vestido azul claro, cingido ao corpo, de corte direito com um largo decote nas costas que quebrava a simplicidade do modelo. Fresca e cheirosa, caminhou pelas ruas de Bissau onde, inesperadamente, viu a chegada de um contingente de tropas portuguesas recebidas pelos habitantes da cidade com grande calor humano. Deitaram flores, bateram palmas e dançaram, expressando alegria e agradecimento pela protecção que viam nesses militares vindos de Lisboa, garbosos nas suas fardas de caqui. Teve pena de não ter consigo a máquina para fotografar o momento, mas a memória fixou as expressões sorridentes dos guineenses e as dos maçaricos muito brancos, alguns com calções exageradamente largos, marchando com visível apreensão. Estar na Guiné (1964) não era uma missão fácil, tudo lhes era desconhecido e, por isso mesmo, os medos tornavam-se terrores, as dúvidas afligiam e a surpresa parecia acontecer a cada canto. Todavia, aquele primeiro contacto, tão espontâneo e amistoso com a população, tranquilizou-os. Catarina olhou-os com um misto de orgulho e pena, sabia que muitos não voltariam e seriam vencidos pelos fazedores de balas, pelo deflagrar das minas, pelo explodir das granadas. Guerra, era terreno que Catarina conhecia bem e, por isso, sofreu ali, na Avenida de Bissau. Por eles, pelas mães que em Portugal, choravam, pelas mulheres e pelos filhos. Sentiu-se mal. Emocionou-se. Havia que reagir e continuar o passeio. Viu tudo e voltou a deliciar-se com o comércio africano. Numa loja acabou por comprar uma belíssima pulseira que passou a usar frequentemente.


A Guiné era fascinante, Catarina sabia-o, e pensou que se não houvesse guerra e fosse um território explorado para o turismo, por exemplo, as propostas a oferecer eram irrecusáveis. Lembrou-se como o arquipélago dos Bijagós era de uma beleza estonteante. A Ilha das Galinhas parecia um diamante a sair da terra, tal era a sua pureza! A beleza, em bruto, faiscava ao sol intenso de forma ofuscante. Luxuriante, colorida, exótica. Indescritível a transparência das suas águas, a vegetação tropical. Sobrevoada duas vezes por semana, quando o avião passava e largava o correio era como se a 5ª Avenida, de Nova Iorque, descesse à ilha. A euforia era geral, dava direito a gargalhadas, a mergulhos nas águas mornas e límpidas, a acenos para o piloto que correspondia ao entusiasmo incontido dos militares destacados naquelas paradísiacas paragens.


Na Guiné viveu momentos inesquecíveis. Lembrou o batuque escutado numa das ilhas do arquipélago. Nunca vira até ali nada que se pudesse igualar e tinha sérias dúvidas se alguma vez mais voltaria a ter sensação idêntica. Foi uma experiência fabulosa. Maravilhou e amedrontou numa amálgama de emoções que, na altura, nem soube saborear, recordou.


-Não dominei o momento, fui literalmente arrebatada por ele.


Os corpos brilhavam intensamente pelos óleos usados e pelas gotas de suor que caíam como pérolas no ritmo frenético dos movimentos de homens e de mulheres que foram ao fundo das suas raízes culturais e agarraram a tradição, libertaram-se e, numa poderosa agilidade, executaram danças que não só desafiavam a gravidade como se revestiram de fortíssima emoção. Foram danças nativas autênticas, vigorosas, sensuais, arrepiantes, arrebatadoras e envolventes. A cadência dos tambores ecoava na noite como um coro de vozes sobrenaturais. Catarina chegou mesmo a ter medo desse ritmo, desse entusiasmo e desse frenesim que dominou por completo os bailarinos, pintados garridamente, descalços, vestidos com pequenas tangas, não faltavam dezenas de colares e máscaras estranhas. As bailarinas, usavam saias de ráfia que mexiam nas ancas como se um furacão as fustigasse. Tudo foi freneticamente genuíno e contagiante. A jornalista não encontrou as palavras certas nem teve memória visual para fixar o que nunca tinha visto. Valeu-lhe a máquina fotográfica e, através dela, fez um trabalho fabuloso, com fotos de qualidade.


Sempre recordou aquele inédito serão. A determinada altura levaram-na para o centro do círculo e, à sua volta, dançaram, cantaram e gritaram. Pensou que ia morrer de susto. Sentiu-se como alguém que ia ser sacrificada a algum deus desconhecido. Mas, afinal, aqueles bailarinos acabaram por lhe colocar ao pescoço um longo colar de ráfia florido, elegendo-a rainha da noite, por entre gritos, risos e palmas. Mas, as expressões, os olhares, o ritmo avassalador que lhe tinham provocado arrepios, foram instantâneos que a memória não apagou.


Lembrou-se também de Varela, uma estância turística de muita qualidade que foi destruída num ataque pela calada da noite. Ataque impiedoso que fez dezenas de vítimas e destruiu uma estância de férias que poderia rivalizar com as melhores das melhores na elegante Europa. Um dos donos, um antigo e famoso jogador de futebol, agora dono de um café no centro de Bissau, quando falava dessa jóia perdida não conseguia reter as lágrimas, que deslizavam pelo rosto magro e curtido por muitos sóis e demasiadas amarguras. No entanto, não deixou a Guiné. O fascínio africano corria-lhe nas veias e embora não o confessasse, ou talvez nem se apercebesse, continuar ali era estar mais perto do seu sonho, do paraíso que um dia tinha construído. Apenas lhe restava a miragem que lhe iluminava os dias e lhe povoava os sonhos, por vezes tornados pesadelos.


Catarina respirou tranquilamente e ao sabor das recordações e do caminhar pausado, quando deu por si estava frente ao cais do Pidjiguiti. A criatividade da Natureza no seu grande esplendor estava ali por entre barcos, palmeiras, numa avenida africana transbordando energia. Sentou-se no muro branco alvo e olhou o quadro que o céu pintava numa mescla de nuvens, cores e transparências assombrosamente irreais. O Sol, laranja-avermelhado, preparava-se para outras paragens e deixava, lentamente, Bissau envolvida num manto brilhante e multicolorido, raiado de luzes intensas e fugidias. Catarina olhou, voltou a olhar e disse, baixinho, para si:

-Isto é uma canção de amor...




domingo, 23 de março de 2008

COMBATE NO LESTE DE ANGOLA


As viagens para operações no Leste eram sempre fatigantes e perigosas mas para o capitão Fernandes aquela pareceu-lhe ir ser a pior de todas.

-Simples pressentimento, mau pressentimento, que não posso alimentar, dizia para si próprio, indiferente aos solavancos do transporte que o deixaria, horas depois, no centro das operações, num território de péssima fama dado às sistemáticas e sangrentas lutas (e emboscadas) aí travadas.

Deixou correr livremente os pensamentos e acabou por dormitar. O combate acabaria por se desenrolar num dia de chuva torrencial e foi extremamente duro para as tropas intervenientes. Cresceu de intensidade, de tal forma que muitos soldados entraram em desespero. A operação durou dias, mas os objectivos não estavam a ser conseguidos e as várias companhias que se deslocaram ao Leste, exaustas, acabaram por cumprir a missão mas com elevadas baixas. O dia tinha nascido debaixo de um tiroteio infernal e inesperado, o que obrigou mudanças na estratégia. Os capitães Sousa Aragão, Afonso Duarte e Cardoso Fernandes estavam com os seus homens numa área pressionada pelo fogo inimigo e suportaram-na, esperando o apoio das forças da retaguarda, dispersas pela zona. Apoio que tardou.


No intenso tiroteio Cardoso Fernandes reparou que os capitães Afonso e Sousa tinham sido atingidos e estavam inanimados no solo. Ignorando a gravidade dos seus próprios ferimentos deu instruções aos homens para se dividirem em grupos e atacarem em três frentes, tentando cercar o inimigo sob o factor surpresa. Levou consigo dois soldados e pediu auxílio médico. O rebentamento de granadas tornou o local num inferno, e os dois soldados são obrigados a distanciar-se do capitão. Uma nuvem de poeira intensa, de fumo e de fogo, separou-os. Simultaneamente o inimigo ganhou terreno, o que obrigou as tropas portuguesas a recuarem. Nessa alteração de táctica de combate ficaram isolados os três oficiais portugueses. Cardoso Fernandes conseguiu chegar junto de Sousa Aragão e de Afonso Duarte e verificou que Sousa não tinha sobrevivido aos ferimentos que lhe tinham esfacelado brutalmente a zona da cabeça. Afonso, apresentava sérias dificuldades em respirar, atingido no peito e braço direito. Notava-se o esforço que fazia para não desfalecer.


O capitão Fernandes avaliou a situação no momento e, rapidamente, pôs em prática um plano que lhe pareceu ser, no momento, a única tentativa possível. Antes, tirou o camuflado e despiu a camisola interior. Voltou a vestir o camuflado, tendo o cuidado de sujar a cara de graxa, tal como fez aos outros dois oficiais. Rasgou a camisa e tentou amparar as feridas que no estômago e no ombro sangrava abundantemente. Deu a Afonso Duarte um pouco de água e um comprimido para as dores. Teria sido melhor que o adormecesse, mas necessitava do seu apoio para transportar o corpo (sem vida) do capitão Aragão. A muito custo arrastaram-se até a um declive que terminava perto de uma ponte. Daí, Fernandes, pareceu-lhe ter visto um local que daria um bom esconderijo. O tiroteio intensificava-se e tornou o terreno num autêntico inferno, facto que ajudou na fuga, terrivelmente penosa para os dois sobreviventes. Afonso Duarte não aguentou as dores e voltou a desmaiar e Cardoso Fernandes viu-se obrigado a deixar o corpo de Sousa Aragão e transportar Afonso para uma zona perto do rio.


Zona com bastante vegetação, o que facilitou o esconderijo. Fernandes deixou aí o colega e regressou ao ponto de partida para trazer o corpo, já sem vida, de Sousa Aragão e juntá-lo ao inanimado Afonso Duarte. Olhando os dois companheiros, Cardoso Fernandes não desesperou e não reagiu. Estava numa fase de nítido adormecimento físico e de alerta mental. O subconsciente funcionou num estado de letargia penoso e em "piloto automático". Apesar disso, sentiu que o inimigo estava por perto. Com a calma possível, colocou o corpo de Afonso por cima do de Sousa e, rapidamente, executou uma camuflagem perfeita que não denunciava nenhum dos colegas. Em seguida, entrou no rio e ficou totalmente coberto pela água respirando por uma pequena cana que tinha conseguido partir. Não soube nunca o tempo que ali esteve. Perdeu a noção. Ficou insensível à dor. Resistiu sem forças e, simultaneamente com uma resistência tirada da raiva do querer viver. Afonso preocupava-o, sabia que as condições em que o tinha deixado não eram as melhores para o seu estado, mas foi a única possível.


Passou a noite ali, sem se mexer. O tiroteio acabou por parar mas o silêncio, depois de um intenso combate é sempre angustiante. De madrugada, Fernandes saiu e tirou debaixo dos ramos, o corpo de Afonso Duarte e o de Sousa Aragão. Tarde demais. Afonso também não conseguiu resistir às hemorragias. Silenciosa e lentamente Cardoso Fernandes retirou aos companheiros as placas de identificação e o que traziam nos bolsos. Era pouca coisa, mas significativa. A foto da mulher do Sousa, (num compartimento de plástico no bolso do blusão) na neve, sorridente, ao lado do marido. O Afonso, para além de um crucifixo pequeno, em madeira negra, nada mais tinha a não ser o espólio normal de um combatente em acção. Olhou para os corpos sem vida dos colegas. Ajoelhou-se junto deles e chorou. Não os queria deixar ali mas, no momento, não sabia o que fazer. Desejou que alguma coluna passasse e os levasse, o que ele reconheceu ser improvável, mas havia que tentar. Alguém teria de passar, mais cedo ou mais tarde.


-Eles merecem uma sepultura em Portugal. Disse para si próprio.


O capitão arrastou-se para cima da encosta com o corpo de Afonso e depois com o de Sousa. Sentou-os, encostados a uma árvore, à beira da estrada que passava não muito distante do rio. Olhou-os fixamente. A visão era horrorosa. Os corpos inchados, cheios de mosquitos e de sangue coagulado provocaram calafrios. Fernandes cerrou os lábios dolorosamente. Pela dor de ver os companheiros mortos. Pelo cansaço. Pela tensão dos últimos sangrentos dias e pela fraqueza. Acabou por desmaiar e cair desamparado sobre os cadáveres dos colegas.


A vida, o destino, a sorte, têm caprichos inexplicáveis e mesmo que sobre eles se queira encontrar lógica, raramente o desejo é satisfeito. No caso do capitão Fernandes o decorrer dos acontecimentos revelar-se-ia absolutamente imprevisto. Desmaiado, durante largas horas, o seu estado físico fragilizava-se gradualmente. Não foi, porém, nenhum combatente que encontrou o quadro macabro dos três oficiais do Exército Português, parecendo mortos, juntos a uma árvore. Foi um camponês. Já idoso. Ao passar, maquinalmente, pelo trajecto que fazia habitualmente, foi alertado por algo que, de princípio, não conseguiu entender bem do que se tratava. Parou. Aproximou-se com cuidado daquilo que lhe pareceu ser um monte de roupa. Depois, vendo melhor, reconheceu ser um homem que estava deitado sobre outros. Admirado e, com desconfiança, ficou parado frente ao inesperado achado. Olhou, sem emoção, os militares e, julgando-os mortos, preparava-se para seguir o seu caminho quando, inesperadamente, viu que as pálpebras de um mexeram, embora esse fosse o único ténue sinal de vida.


Parou novamente e, sem tocar no militar, ficou a olhá-lo e a pensar no que deveria fazer. Deixá-lo ali ou acabar com ele? Acabou por pegar numa pedra com a qual se preparava para lhe esmagar o crânio e, quando estava prestes a largá-la, baixou os braços e fixou os olhos no vazio parecendo olhar para lá do horizonte. À memória veio-lhe a recordação do dia em que um militar português lhe salvou a neta, Diana, quando este a puxou e a pôs debaixo do seu corpo, protegendo-a da explosão de uma mina.


A guerra tem destas cumplicidades. Nem o homem velho nunca soube o nome do militar português que lhe salvou a neta, nem o oficial soube quais foram os intervenientes do encontro que ia sendo fatal. Salvar uma criança foi o motivo suficientemente forte que uniu dois homens que, movendo-se em campos contrários, foram capazes de superar rivalidades e guerras. Depois, cada um partiu para seu lado sem dizerem uma única palavra. Nem o velho delatou a presença de um militar em território que não era o seu, nem o oficial o matou ou aprisionou. Em silêncio, e talvez sem se aperceberem, arquitectaram e concretizaram um perfeito e sábio acordo de cavalheiros. O homem idoso já não tinha coração para se sensibilizar. Os sofrimentos eram constantes -vivia no meio de guerrilhas devastadoras- mas, mesmo assim, lembrou o encontro e, lentamente, pousou a pedra no chão. Ficou parado a olhar para os militares caídos e acabou por os arrastar. Rapidamente confirmou que dois estavam mortos. Esses, deixou-os num local mais visível para que fossem encontrados pelos seus camaradas e, assim, lhe pudessem dar uma campa e o outro que ainda respirava, escondeu-o numa zona bem camuflada Depois, partiu com determinação rumo a casa.


Voltou ao local mais tarde, já quando o sol gordo e muito vermelho parecia cair do céu. Com ele veio um homem mais novo (o pai da neta) que carregava uma pequena trouxa com roupa com a qual vestiu o militar sobrevivente(o capitão Fernandes). Com a cumplicidade do fim da tarde retiraram o corpo da zona onde estava escondido e dirigiram-se para a cubata de colmo onde viviam. Uma mulher também idosa que tinha sido previamente avisada pelo marido, aguardava pela chegada do militar. Para ele já tinha preparado o canto onde ficaria até recuperar forças. Ou morrer. Deitado sobre a esteira o militar não dava sinal de vida, a não ser através de uma débil respiração que espaçadamente lhe fazia mover o peito. A mulher olhou-o e torceu o nariz. De mãos nas ancas andou de um lado para o outro no interior até que parou e decidiu tomar uma decisão: tratar do ferido.


Completada a segunda fase da operação de socorro que foi deixar o militar ferido nas mãos da mulher os dois homens saíram e, junto a um bidão velho, colocado nas traseiras, atiram para dentro dele o camuflado com tudo o que estava nos bolsos (nada lhes pareceu interessar).Taparam-no parcialmente e queimaram as roupas que se poderiam tornar denunciadoras caso fossem descobertas. A operação não foi demorada, e não levantou suspeitas aos outros moradores das seis cubatas em redor, porque tudo foi feito com a cumplicidade do dia ainda por nascer.No interior, a mulher olhou para Cardoso Fernandes e perguntou a si própria se ele se salvaria. Despiu-o com gestos firmes e reparou nos vários ferimentos espalhados pelo corpo. O mais grave pareceu-lhe ser o do estômago. A ferida era profunda e o muito sangue coalhado dava-lhe um péssima aspecto. Não perdeu tempo em mais análises. Energicamente lavou-o e passou pelo corpo do capitão um líquido obtido da trituração de diversas folhas ao qual juntou uma espécie de azeite avermelhado. Enrolou o corpo em folhas verdes, largas e longas e passou-lhe pela testa uma espécie de pomada branca. Em seguida atou-lhe um pano vermelho à volta da cabeça. E esperou.


No dia seguinte, Mãe Maria, era este o seu nome, levantou com cuidado a cabeça do militar e deu-lhe de beber, muito lentamente, um caldo morno. Durante sete dias o tratamento intensivo foi feito com cuidado e com a sabedoria daqueles que conhecem os poderes ocultos da vida e sabem das propriedades curativas das ervas medicinais que aprenderam a dominar através dos pais, e estes de gerações e gerações anteriores. Duas vezes ao dia, nunca à noite, ajoelhava-se na esteira onde o capitão estava deitado e passava-lhe sobre corpo um fumo de cheiro acre-doce e atirava as cinzas para o lado como que fazendo um círculo cinzento onde, na sua maneira de pensar, nada passaria dali e nada entraria. Foi uma forma de isolar não o corpo mas o espírito do militar ferido. Sucederam-se muitas rezas sibiladas em murmúrios monocórdicos. Horas de ladainhas imperceptíveis. O tratamento acabou por resultar. Uma manhã, quando o marido foi ver o ferido reparou que ele estava de olhos abertos e com um ar tranquilo. Demasiado tranquilo. Apático, sem qualquer expressão. Se não fossem as suas cores um pouco mais vivas do que há semanas atrás, podia dizer-se que parecia morto. Mas não, a respiração era agora mais forte e ritmada. A surpresa apanhou-o desprevenido e esboçou um sorriso disfarçado. Olha para o militar e disse-lhe num péssimo português que o tinha salvo, nem ele sabia bem porquê, mas agora que estava curado tinha de se ir embora o mais depressa possível.Gregório e Maria deixaram-no estar mais uma semana. A mulher não desistiu do tratamento e fez de uma espécie de leite azedo, que coalhava ao sol, um poderoso aliado já que os efeitos foram miraculosos. Cardoso Fernandes recuperou forças, apesar de não perder o ar apático, nunca conseguiu balbuciar uma palavra sequer.


Nunca mais falou. Os ferimentos e o estado de choque tinha-lhe deixado, por certo, sequelas graves.Uma noite, Gregório ajudado pelo genro, o Fernando, vestiram o capitão com roupas de camponês e levaram-no para fora da cubata. Depois de muito andarem, carregando o militar nas costas, acabaram por o deixar num trilho que era frequentemente patrulhado pelas forças portuguesas. Tiveram o cuidado de lhe limpar bem a cara para que se visse facilmente que era branco, o que contrastava com as roupas camponesas, mas daria seguramente, uma pista aos militares.Também se podia dar o caso de passarem por ali elementos de algum Movimento Angolano e, se assim fosse, seria muito difícil o militar salvar-se. Eles não o iriam poupar.


-A guerra é assim! -Disse Gregório ao Fernando.


-Vive-se, sobrevive-se ou morre-se. Nós já agradecemos o que o outro nos fez pela Diana. Não podemos fazer mais nada. Das nossas mãos já não sai mais poder. O resto, é como espírito dele.



Deixaram-no encostado a umas grandes pedras, tendo primeiro o cuidado de fazer uma operação de limpeza nas redondezas porque se aparecesse algum bicho, o doente, débil como estava, não podia fazer qualquer gesto de defesa.



-O homem não se mexe! Mas olha que a mãe Maria tratou bem dele e quando ela trata de alguém, cura! Tu sabes, não é Fernando?


-A mãe Maria tem vida nas mãos. Ela sabe o que ninguém sabe. Disse Gregório falando com os seus botões.


Passados três dias uma coluna passou pelo trilho e encontrou sem dificuldade um homem que olhava fixamente mas não via ninguém. Que não falava e que apesar de estar vestido à camponês, era branco.Não escondendo a admiração que sentiram pela descoberta feita os elementos da coluna, depois de patrulharem minuciosamente a zona, pegaram no homem e sentam-no no banco da Berlier. Cardoso Fernandes não reagiu. Quando a coluna partiu, um homem velho escondido por várias pedras, ficou contente. Tinha lá ido todos os dias, dar de comer e de beber ao desconhecido, de quem nunca soube nem o nome nem o posto. Escondido, espiou sempre até que apareceu alguém que pudesse salvar a vida daquele homem. Ficou feliz por serem soldados inimigos, por isso amigos do ferido que, entre os seus, tinha possibilidades de recuperação.Quando as viaturas partiram Gregório olhou para o local onde o doente tinha estado mas acabou por partir, decidido a não se lembrar mais do branco que, um dia, encontrou moribundo e que ele recebeu na sua casa, com vontade de o salvar.


Foi uma jogada bonita da guerra. Foi um virar de folha na violência que mata animalescamente. Foi um acto de um homem que, apesar dos morteiros, minas, granadas e balas, ainda lhe batia no peito um coração grato. O capitão Fernandes chegou à capital dias depois (foi transportado do Luso) e deixado nos cuidados médicos do Hospital de Luanda, onde lhe diagnosticaram amnésia, desidratação e vários traumatismos. Não conseguiram saber nada a seu respeito. Estranhavam a cicatriz na zona do estômago que parecia ser recente mas não era bem perceptível como teria sido tratada (estava excelente) nem quando. O doente continuava sem reacção: não via, não falava e parecia não ouvir. Estava agarrado a um mundo onde só ele se projectava, movia e entendia...

quarta-feira, 19 de março de 2008

PEDRA FILOSOFAL


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho é tela,
é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarela voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.


Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão
(Rómulo Vasco da Gama de Carvalho)

domingo, 16 de março de 2008

AS ESTRADAS DA MEMÓRIA


Os moradores do Mundo, que somos todos nós, imbuídos de átomos e poeiras divinas têm, desde sempre, mais dúvidas do que certezas e a procura das respostas às sucessivas e sempre renovadas interrogações é constante. Questões como: Quem sou? Para onde vou? Qual é a minha missão? As perguntas tocam a todos e podem ser um excelente ponto de partida para salutares interiorizações. Hoje, mais do que nunca, através de técnicas de aperfeiçoamento há quem consiga conhecer-se bem ou razoavelmente, mas há também quem se sinta desajustado entre o corpo e o espírito. Viver não é fácil, é preciso saber activar mente e energia. Desvendar códigos e sentir alegria por se estar vivo, como a Natureza gosta!


Sentir alegria por se estar vivo, é poderosa essência capaz de operar verdadeiros milagres. Foi o caso de um soldado americano, vamos chamar-lhe “Tom”, ferido na Primeira Grande Guerra (1914/1918) que aliou a coragem à gratidão por sobreviver Das linhas da frente foi transportado para o hospital provisório na retaguarda das linhas do Castelo Tierry, onde se verificou que tinha sido ferido no lado direito, por detrás da clavícula, atravessando o pulmão, diafragma, vesícula e fígado. Além disso, tinha treze perfurações nos intestinos e seis delas eram duplas. Quando chegou ao hospital estava consciente e, enquanto o preparavam para a operação, Tom, esboçando um sorriso, por certo amarelado, não parava de dizer:


-Estejam calmos. Eu estou bem... estou vivo!


Abriram-lhe o estômago, coseram-lhe as perfurações e, espantosamente, sobreviveu. Ao acordar revelou uma vitalidade surpreendente, de tal maneira que o seu grito de guerra fez eco nas enfermarias:


-Eu estou bem. Estou vivo!


E todos os feridos se sentiram tocados pela forma como ele se agarrava à vida, apesar de ter colapsos, pulso anormal, febres altíssimas, delírios, mas quando recuperava e voltava a estar lúcido, repetia:


-Eu estou bem. Estou vivo!


Dos doze soldados que entraram com ele em estado muito grave, quatro morreram, mas os outros, seguindo o exemplo de Tom, agarraram-se à coragem transmitida pelo companheiro que, subitamente, lhes despertou o intenso desejo de lutar e de continuarem vivos. E, contrariando todos os prognósticos, sobreviveram. Tom não desistiu de lutar, apesar do quadro clínico inicial fazer crer que o desfecho seria fatal. Só que para ele continuar a percorrer a estrada da sua vida não era um desejo débil. Tinha a força gloriosa dos que são gratos por cada segundo das suas existências. Por isso, venceu!


Lembrei-me desta história, muito antiga é certo, por há dias (12.03) ter lido que em França morreu o seu último veterano da Primeira Guerra Mundial (morreram 1,4 milhão de soldados franceses). Chamava-se Lazare Ponicelli. Tinha 110 anos e era de ascendência italiana.


Tive o privilégio de em 1983, creio, ter entrevistado uma das enfermeiras portuguesas que esteve em França a apoiar Corpo Expedicionário Português. Penso que eram quatro (não tenho aqui a revista) e elas, foram, sem dúvida, as pioneiras mulheres portuguesas na guerra. Era uma senhora bastante idosa, de olhar sereno mas um pouco perdido, talvez, no horizonte das suas recordações. Entrevistei-a num lar, na zona de Campo de Ourique. O seu quarto, num primeiro andar, era uma espécie de montra de memórias. Havia muitas fotos. Ao longo do diálogo -revelou muita lucidez-, não disfarçou o orgulho por ter pertencido a um restrito grupo feminino que cumpriu a missão, ao lado dos soldados do seu País. Não posso afirmar, não me lembro, mas julgo que nunca chegou a receber qualquer condecoração por parte do Governo português.


No sangrento e vasto campo de batalha sucumbiram mais de nove milhões de soldados (de diferentes países). Quase dez mil portugueses mortos e milhares de feridos, colocados na Frente Ocidental, na Flandres (França). O Corpo Expedicionário Português (comandadas pelo general Gomes da Costa), participou na decisiva batalha de La Lys, uma das mais sangrentas travadas neste conflito, num período negro da História Mundial (iniciado a 28 de Julho de 1914). As tropas alemãs (com 50 mil homens) venceram, em sete horas, os militares portugueses num desaire verdadeiramente dramático. A 11de Novembro de 1918 foi assinado o Armistício que pôs fim ao conflito.


Passaram-se noventa e quatro anos e o Mundo, hoje, tal como há nove décadas atrás, continua vulnerável às ameaças quem vêm dos confins da existência: os humanos continuam a poder ser destruídos pela fome, pela peste e pela guerra. Os perigos não desapareceram. Há fome, há doenças e há guerras. É necessário, portanto, que também exista a coragem e a gratidão que Tom, em 1914, demonstrou ter quando, mais morto do que vivo, decidiu agarrar-se à vida.

sexta-feira, 14 de março de 2008

NOITES NO ÚCUA (2ªparte)


…O jipe parecia uma máquina de saracotear. Todos tremiam naquele percurso de buracos que deveria ser longo, mas que teria de terminar antes de escurecer já que não seria possível acender os faróis para não revelar a posição da coluna. Continuava a ver-se embondeiros, uma árvore robusta, majestosa e dramática. Os seus ramos esguios, virados ao céu, contrastavam com o tronco bojudo, metalizado. Pareciam as catedrais das savanas.


-Nunca vi nada tão bonito parece que são árvores que rezam aos céus. -Disse Catarina. Ninguém lhe respondeu, nem o capitão.


-Não ouviram ou não ligaram. Pensou a jornalista que acabou por optar também pelo silêncio. Olhou disfarçadamente para o condutor e confirmou que para ele só havia estrada. O seu rosto não deixava traduzir outra preocupação. Sem virar muito a cabeça, fixou o olhar no capitão que de G-3 ao alto, boné enfiado até aos olhos, não deixou ver se estava apreensivo.


À frente do primeiro e último jipe iam agora mais camionetas (cada uma com doze homens) com as respectivas escoltas. Catarina conheceu o capitão de uma delas. Era um militar excelente, que já estivera com ela noutras operações no Leste. Sorriram e cumprimentaram-se à distância. Nenhum dos dois podia imaginar que, em breve, numa outra missão, ele iria perder um pé, na explosão de uma mina.


-Sinto-me importante. Nunca tantos me guardaram. -Gracejou Catarina.


-Se chegarem, não será mau. -Pensou em voz alta o capitão.


-Só pode ser para me confundir, não acredito que o perigo nos espreite já aqui em pleno descampado com este Sol infernal. Não me consegue desmoralizar, vou mesmo ignorar o que ouvi. -Replicou a jornalista.


O percurso tornava-se gradualmente penoso e o pó era cada vez mais incomodativo, o que não só dificultava a respiração como deixava os olhos num estado lastimoso. Por sugestão do capitão, Catarina colocou um lenço à volta da boca e do nariz.


-Verde! Será que aqui é tudo verde? Pensou, lembrando-se das meias, das camisolas, camuflados, bonés.


A situação nada tinha de hilariante, mas foi a custo que conseguiu disfarçar uma incontrolável vontade de rir -visível manifestação nervosa. Pareciam uns cowboys montados em cavalos trepidantes. O cansaço deu os primeiros sinais, o corpo estava dorido e os pés inchados. O cenário ficou repetitivo com os embondeiros solitários cortando a imensidão dos espaços.


Viam-se alguns pássaros, invulgares e lindíssimos mas o silêncio, o Sol e as nuvens densas de pó amarelado eram os grandes companheiros do percurso. Catarina tentou fixar através dos óculos escuros a bola laranja do Sol que parecia estar mesmo por cima da sua cabeça. Sentiu tonturas. Tinha sede, a garganta estava áspera pela poeira, não conseguiu engolir e os lábios, já gretados, começaram a doer-lhe.


Há muito que o posto de controlo a caminho do Úcua tinha ficado para trás. O trilho de terra batida dera lugar novamente ao asfalto. Contudo, o estado físico da jornalista não se podia dizer que fosse dos melhores. Dorida pelos constantes saltos do jipe, sentiu-se abatida, mas sem disso dar o mais pequeno sinal.Apesar de protegidos com lenços, a poeira causava uma sensação desagradável e nem a água bebida lentamente resolvia o incómodo, apenas o suavizava. Os lábios, já quase em ferida, foram salvos pela experiência de Catarina no mato: ter sempre nos seus objectos pessoais os produtos próprios para cada caso. Mesmo assim, levou a mão à boca, defendendo-a do pó.


-Sente-se mal? Perguntou o capitão.


-Não, estou bem, obrigada. É a poeira. Ainda falta muito para chegarmos?


-Não, assim que passarmos a casa do cantoneiro estamos perto. Dentro de uma hora, se tudo correr bem, terminamos a viagem.


Palavras eram ditas e, sem se saber como, ouviu-se um grande alarido seguido de tiros e gritos. O jipe pára. Catarina, nada diz, sai precipitadamente e fica a seu lado, virando as costas ao mato. Olha para as outras viaturas e não vê ninguém, nem o capitão. Pareceu-lhe ser a única pessoa de pé, o que sabia ser errado; tinha de abrigar-se mas a inesperada confusão deixara-a atónita.


Um braço vindo por baixo do jipe puxa-lhe um dos pés o que a obriga a deitar-se no chão. Sentiu-se arrastada com violência para debaixo da viatura, mas não opôs resistência. Ficou apática, mas rapidamente se recompôs e aninhou-se entre as rodas, enquanto disparos que pareciam ser cruzados, tornavam o momento preocupante O tiroteio não durou muito mas foi forte. Na estrada, a coluna tinha-se dispersado. O silêncio voltou e surgiram os primeiros militares, dispondo-se rapidamente, com a arma em posição de disparo, junto das viaturas. Em seguida, deixaram a estrada e correram para o lado esquerdo. Catarina pegou na máquina e seguiu atrás do capitão.


-Caímos numa emboscada, não há tempo para nada, corra.


Os tiros voltaram a ouvir-se mas agora com mais intensidade. Dentro do capim, altíssimo, tudo eram sons indefinidos e aterradores. Catarina fotografou o que podia. Olhou para a estrada e já não viu os jipes, o que quis dizer que estavam longe. Os disparos sucederam-se sem tréguas, por vezes seguidos de silêncios breves e foi num desses espaços que alguém gritou desesperadamente:


-Matámos um elefante!


O efeito foi idêntico ao deflagrar de uma bomba. Todos se sentiram presos ao chão. De súbito, começou a escutar-se os rugidos vigorosos e doloridos de um elefante. A confusão foi total.


-Fujam, há um outro elefante ferido na zona.


E, num ápice, tudo ficou dantesco. O fogo alastrou-se rapidamente e, em escassos segundos, o som característico do capim seco a arder pareceu um rastilho de pólvora. Cercados pelas labaredas, o fogo adensou-se e nuvens negras cobriram o local. Foi necessário sair urgentemente. Na correria desenfreada, Catarina escorregou numa pedra mas, nesse preciso momento, sentiu-se agarrada pela cintura. Olhou para trás e viu o capitão com uma expressão carregada


-Ia cair mesmo em cima do feijão maluco (ervas que em contacto com o corpo fazem tal ardor, que só rebolando na areia atenua a dolorosa sensação), disse o capitão visivelmente preocupado.


Catarina, lívida, sentiu que estava no centro do maior furacão de medo da sua vida e não sabia se ia sair dele. Apesar de corajosa, por momentos, pensou que ninguém iria conseguir salvar-se. O calor sufocante e o fumo provocavam náuseas, tosse e lágrimas. Não se conseguia respirar. Os rugidos roucos, arrastados, demolidores, estavam cada vez mais próximos e as labaredas tomavam uma altitude imensa.Foram momentos dramáticos que geraram silêncios profundos e indefesos. Cada um tentou entender o que se tinha passado e como conseguiram escapar da situação. O capitão passou o cantil a Catarina e disse-lhe:


-Já tem para contar aos seus netos. Nem sabe do que se livrou.


-Do que nos livrámos! O risco foi idêntico para todos. Reconheço que acabei de passar o maior susto de toda a minha vida. Tem razão, sinto-me a tremer.


-Já não falta muito para chegarmos ao Úcua. Disse o capitão...

NOITES NO ÚCUA (1ª parte)


Tudo estava já organizado e a partida da coluna de Belas não demorou a deslizar no asfalto que conduzia a local bem distante de Luanda. No primeiro jipe ia o coronel e três elementos de segurança; no segundo, Catarina ( a ordem oficial não tinha chegado a tempo, mas o trabalho estava marcado), dois soldados e o capitão, sentado no banco de trás.Nas restantes viaturas elementos de uma Companhia e, certamente elementos de segurança, pormenores a que a jornalista não tinha acesso. A única coisa que sabia é que todos empunhavam uma G-3, como se esperassem ser atacados na próxima curva.


Catarina era naquele momento uma profissional feliz, sabia que ia ao encontro de um trabalho difícil, mas essa mesma dificuldade entusiasmava-a, era um desafio profissional que enfrentava com determinação.Sentia-se bem no camuflado, os longos caracóis apanhados atrás não a protegiam do sol intenso e foi o capitão Fernandes que lhe chamou a atenção para o facto.


-Talvez fosse melhor usar este boné, caso contrário duvido que chegue ao destino com forças para pegar na máquina fotográfica.


-Isso é ironia? -Perguntou Catarina.


-De maneira nenhuma, é uma atitude gentil e simultaneamente egoísta. Confesso que não estou interessado, nem posso perder tempo consigo doente. Já que vai, vá na sua melhor forma e poupe-me trabalhos, por favor.


- Não se preocupe capitão. Replicou Catarina. Já devia saber que sou uma mulher determinada, mas concordo, está um sol forte. Aceito o boné, é feio, mas, enfim, é para bem da humanidade. Como se põe isto?


-É indiferente, fica-lhe bem de qualquer maneira.


Catarina olhou para trás e sorriu. O capitão, agora menos tenso do que na parada do quartel entregou-lhe o boné camuflado, de pala, e retribuiu o sorriso. A cidade começou a distanciar-se cada vez mais e a estrada (demasiado deserta) tornou-se desconfortável para quem não fazia da carreira militar, profissão. Os quilómetros sucederam-se sem diálogo e Catarina sentiu que no ar pairava uma preocupação cada vez maior. Provavelmente não faltaria muito para a zona de controlo onde estariam as outras viaturas que fariam a escolta até ao acampamento.


O seu grande problema continuava por resolver. Sabia que esconder-se por baixo da lona era a única forma de não ser vista. No posto da PM ao fazerem a conferência dos ocupantes, estes teriam de estar certos com o número da lista enviada por Luanda. Se não se escondesse sabia que ficaria retida e a sua ousadia seria inglória porque a enviariam para Luanda, sem escutar qualquer tipo de apelo. Foi de agonia a sensação que arrastou durante largo tempo. Inesperadamente o capitão tocou-lhe no ombro e disse com firmeza:


-Estamos a chegar ao posto de controlo.


Catarina ficou lívida. Afinal ele sabia de tudo desde o início. Como? Quem lhe tinha dito? Ficou sem capacidade de diálogo, engoliu em seco, olhou-o sem dizer nada, saiu do jipe e ajudada, escondeu-se debaixo da lona.Sentiu-se mal, quando deveria sentir-se eufórica; tudo se estava a resolver naturalmente. Mal porquê? -Perguntou a si própria. A ideia de que a sua audácia pudesse prejudicar alguém inibia-a profundamente, não era mulher para se esconder. Sentiu-se cobarde, ali, no escuro da caixa do atrelado. Chorou. Nervoso? Não soube bem, naquele momento tudo era confuso.


Sentiu o jipe abrandar e escutou vozes desconhecidas. Apertou as mãos contra o estômago e quase juntou os joelhos ao queixo. Aguardou, não sabia bem o quê, mas desejou não ser descoberta. Pareceram-lhe séculos o tempo da paragem. O diálogo travado entre o capitão e os militares da PM que faziam a contagem não lhe foi perceptível, mas pelas frases soltas que conseguiu apanhar pareceu-lhe que tudo estava a correr com normalidade. Será que passaria? Em boa hora voltou a ouvir trabalhar o motor do jipe, mas, mesmo assim, não ousou nem sequer mexer um dedo. Permaneceu na mesma posição e esperou que se lembrassem de que ela precisava de respirar ar puro.


-Pode sair, venceu o primeiro round . -Avisou-a o capitão, com uma satisfação que tentava disfarçar. Não era homem que gostasse de demonstrar emoções.


-Primeiro round ? Ainda há mais!? Inquiriu Catarina, atrapalhada.


-Conte com isso, aliás, conte com tudo porque a partir de agora até chegar novamente a sua casa está em terreno altamente perigoso. Mas como a escolha foi sua... Não a consigo perceber, confesso, mas respeito-a e admiro-a como profissional. Penso que, pelo menos psicologicamente, nada a deve surpreender.-Adiantou o capitão.


-Não é tanto assim, estou preparada e não espero o pior; movo-me sempre pela positividade. Tudo vai correr bem, penso. Posso mesmo sair daqui?


-Força, respire fundo. Está em terreno de alerta vermelho.


Catarina saiu agilmente do atrelado e, ao lado do jipe, respirou com prazer, apesar da aragem pesada numa tarde quentíssima. Sentiu-se transpirada, mas não se importou. Acabava de ganhar a sua primeira batalha. O asfalto terminara, a coluna tinha transposto a barreira formada por uma espécie de portão e entrara no trilho situado à direita. Embora largo, era de terra batida (ali a terra era vermelha, não tanto como a que estava habituada a ver na Guiné, mas tinha muito desse tom que, com os reflexos do Sol, ficava mais intensa). De regresso ao lugar no jipe reparou que pelo menos seis grandes viaturas esperavam a coluna. Aí, teve uma inesperada sensação de perigo. Olhou para os magníficos e imponentes embondeiros que povoavam a zona e fixou o olhar no horizonte a perder de vista...

segunda-feira, 10 de março de 2008

EM BUSCA DA MÍSTICA PERDIDA


Não percebo nada de futebol, mas percebo de mística. Quando vivi no estrangeiro, em várias localidades consegui, sem esforço, aperceber-me dessa coisa empolgante que cresce dentro de nós e nos deixa super. Capazes de vencermos os Golias do Universo.


Exactamente assim: quando o Benfica era escutado, quase em prece, através dos relatos de futebol (onde o saudoso Perestrelo nos levava ao céu com o seu entusiasmo e dinamismo). E, se o glorioso ia à localidade onde estávamos ou próximo dali, mil quilómetros ou mais, não importava, então o mundo parava para nos deixar passar.


Lá íamos nós como bando de andorinhas, felizes até ao papo, ver in loco a força motriz que nos movia. O esplendor místico do nosso Benfica, a espalhar magia nos corações e se chegasse ao resultado vencedor, tanto melhor. Caso não, que importava! O Benfica era sempre o maior! E o dia era de festa.


Ainda sou do tempo em que para lá de Badajoz só Amália e Eusébio eram conhecidos. E o Benfica, claro! Era um clube diferente dos outros. Ganhava e perdia como eles mas, a tal de mística, isso sim, só os benfiquistas eram detentores dessa preciosidade. E o bem que ela, a mística, fazia aos emigrantes! No dia seguinte ao encontro, passeavam pelas ruas longínquas como se fossem realezas a olhar o povo.


Os outros nem entendiam a pose, mas isso não importava. Que poderiam eles entender de mística benfiquista? Tinha de correr no sangue! Tinha de fazer vibrar! Tinha de gritar dentro de nós! Tinha de fazer as colónias de emigrantes uníssonas, agregadas, coesas, como se fossem só uma a torcer pelo glorioso no mundo.


Ontem, estava eu a debruçar-me sobre a verdadeira epopeia do pinguim imperador (fascina-me o tema) quando a Televisão anuncia a inesperada saída de Camacho. Mas, passado uns segundos de admiração, pensei para comigo:


-Sim senhor, aqui está a atitude de um homem digno. Não sei se lutador, mas digno.


Sair nesta altura do campeonato não era desejável mas Camacho confessou que já não conseguia motivar os seus jogadores, passar a mensagem. Ir embora, pode parecer fácil (não deve ser tanto assim) mas se não conseguia inspirar as pedras do xadrez em campo, prolongar a situação, não era desejável. Deixou o segundo lugar e foi-se embora, talvez com tristeza. Há muito que Camacho demonstrava já ter perdido as ilusões com que chegou, pela segunda vez, a Lisboa. As declarações pecavam por um tom de certo desencanto, desinteresse, quase monossilábicas, sem garra. Foi melhor assim e, concretizou no seu palmarés a quarta demissão (Madrid, Sevilha e Benfica, duas vezes).


E agora? Agora é aproveitarem uma vez por todas o mágico Chalana que já merecia ser mais do que o 112 da Segunda Circular, em fases de desespero (esta época o Benfica teve quatro treinadores). Se ele ousar (força homem) enfrentar a maldição (quatro treinadores demitiram-se já por causa desse Getafe. Só pode ter uma massa associativa e um treinador poderosos, positivos, aguerridos) e levar os nossos jogadores a uma vitória (é tão difícil como a passagem no Bojador), Senhor, a mística foi reencontrada.



Mas é preciso dizer que a massa associativa não está isenta de culpa na actual situação do Benfica. Então e o Estádio vazio? Desafios sem apoio? Os assobios quando deviam ser aplausos? Lembro o João Pinto que foi o menino de ouro durante oito anos e, agora quando mete um pé no Estádio este fica verde de vergonha com os apupos.


E os jogadores? Isso é música para outra banda que vai ser regida pelo Chalana. O primeiro obstáculo é ganhar ao Getafe (que nome) e a mística até toca na asa da águia que sobrevoa o Estádio da Luz. Há que garantir o segundo lugar e a Taça de Portugal. Custe o que custar. A frase não é minha mas sou eu que a vou dizer agora:


-Comam a relva e façam felizes os sócios que vos amam e, muitas vezes, vos odeiam. É a mística!...

domingo, 9 de março de 2008

A ABNEGAÇÃO DO PINGUIM IMPERADOR


Se a esta hora da noite fizer uma pausa e me compenetrar na análise do mundo envolvente facilmente chego à triste conclusão que a violência não pára de ameaçar. De todas as maneiras e em todos os Continentes, como se fosse um ébrio e inexplicável caminhar para o abismo. Sem saída e sem salvação A ameaça é cega, não tem nem discernimento nem precisa de motivação. Precisa sim de amedrontar, semear o pânico, manietar esperanças e asfixiar futuros. E o mundo que deveria ser de inspiração, torna-se num mundo de terror, de dias lamacentos e intoleráveis.


O homem a matar o semelhante. Dia-a-dia. Friamente. Com ódio (o ódio gera ódio). Parece um comportamento animal mas a verdade é que na selva as regras de sobrevivência têm tido desde sempre linhas definidas e, ainda hoje, cumpridas nos mundos competitivos habitados, coabitados, pertencentes a perdedores irracionais.


Todavia, lá, onde o sol queima, elefantes, leões, búfalos, não matam por matar. Fazem-no por sobrevivência ou por defesa. Nas profundezas das selvas a vida animal decorre com equilíbrio e as mensagens primitivas mas universais são cumpridas escrupulosamente, como se de um código de honra se tratasse. Revela-se o espírito de entreajuda, autodefesa, competição, e os impulsos dos seus instintos vão da fraternidade à unidade, do companheirismo às alianças, aos pactos selados com tais manifestações de autenticidade e inteligência que confundem. Os animais sabem que da união lhes virá a força e que ela se revelará tão necessária como o sopro de vida, o que frequentemente transforma o trabalho de equipa em verdadeiras sociedades operantes.


Os biologistas podem penetrar frequentemente nos mistérios da Natureza e, apesar disso, nunca deixam de se maravilhar a cada nova descoberta, no cenário sempre emotivo e transparente onde vigoram as leis como Cuida de Ti ou Uni-vos, vitais à sobrevivência dos pequenos seres.


Lembro uma espécie ameaçada pelas drásticas mudanças climáticas (tal como o homem): o Pinguim Imperador (chega a pesar 40 quilos e medir 1,5m.), habitante tradicional dos mares gelados da Antártica que se tem revelado um perito na arte da sobrevivência ( o homem necessita cada vez mais de a aperfeiçoar). Entre Maio e Junho as fêmeas põem o único ovo que abandonam nos finais de Outubro para passarem o Inverno no mar, na procura de alimento (regressam no princípio da Primavera). Durante 65 dias o macho cuida dele nas mais difíceis condições, enfrentando impiedosas temperaturas de 40º e ventos de 200 km/h. Um comportamento notavelmente exemplar.


O nosso mundo agressivo tem muito pouco, cada vez menos, da abnegação das vastas colónias de Pinguins Imperadores. Por vezes parecemos mais chacais enraivecidos, invadindo desenfreadamente, terrenos alheios. Para isso basta para ver os títulos das notícias nos jornais e revistas, de escutar os espaços informativos nas televisões e na rádio. Eles só reflectem o pulsar do Mundo!


Está, portanto, na hora de enfrentarmos e vencermos, o ressentimento, o desânimo, o medo e de agarrarmos as rédeas da vida com a sensatez que deve caracterizar o ser humano. Não precisamos de abraçar a Lua nem de conhecer o nome de todos os peixes do mar Lembro-lhe as palavras de Gandhi: O Homem torna-se grande exactamente na mesma proporção em que trabalha para o bem-estar do seu semelhante.


Viver é um dom, uma dádiva, como se quiser definir, e ter um pouco de sorte só pode ajudar mas a sorte não é fruto do acaso, é a consequência do nosso movimento em harmonia com as leis da Natureza. E, actualmente, estão a violá-las hora a hora.

quarta-feira, 5 de março de 2008

A JÓIA DA COROA


Gosto de ser portuguesa. Supera a emoção. É um sentimento que corre interiormente como um rio livre, poderoso e solto. Sinto as nossas fragilidades e, por vezes, parece-me que Portugal é um país órfão e os portugueses sofrem, desde há 900 anos, de reflexos genéticos algo confusos. Somos um povo de complexos e contradições mas, no âmago, somos deliciosos. Ainda em constante aprendizagem mas capazes de sermos mesmo deliciosos e de nos superarmos perante os desaires.


Tenho o maior orgulho na minha Pátria, na língua portuguesa e quando recordo que ela é o idioma de mais de 250 milhões de pessoas (o padre António Vieira, Camões e Fernando Pessoa deviam, a título póstumo, ser eleitos como os Embaixadores Perpétuos da Língua Portuguesa) não posso deixar de me emocionar e, simultaneamente, de me envaidecer. Ela é a ponte que une margens do Mundo, através das nossas palavras.


O português é a quinta língua materna a nível mundial (a primeira é o Chinês-Mandarim/ 9000.000.000) e a terceira língua da Europa mais falada no mundo ( Brasil/ 170.000.000, Angola/13.000.000, os países com maior número). Ao pensar nisto não posso deixar de sentir orgulho e ao olhar para o mapa do Mundo, penso: como é que um povo que abre as portas à Europa, tão pequeno em dimensões geográficas, é tão majestoso?


O nosso idioma (Língua de Camões), espalhou-se pelo mundo nos séculos XV e XVI, desde África, Macau, Japão, América, Brasil (quando os portugueses lá chegaram os indígenas falavam mais de mil idiomas). Hoje, os índios da tribo Pitaguari, só falam português. Presentemente é a língua oficial de oito países independentes, além de Portugal, claro, e falada como segunda língua em muitos outros (há cerca de 20 línguas crioulas de base portuguesa).


É, também, uma língua minoritária (wikipedia) em Andorra, Luxemburgo, Paraguai (500.000), Namíbia, Suiça e África do Sul. Os largos milhares de emigrantes em todo o mundo espalham-na por Paris, Hamilton, Toronto, Montreal, Boston, New Jersey, Miami (USA e Canadá/2.000.000), Nagoya, Hamamatsu (Japão/250.000) e fazem-na propagar através dos seus descendentes.


Verifica-se o crescente interesse pelo português na Austrália (60.000), Argentina, Uruguai e Paraguai, Senegal, Zimbabué e até Macau, Goa, Damão e Diu estão motivados em recuperá-la. Pode dizer-se, sem receio de engano, que nos locais mais exóticos, distantes, quase esquecidos ou desconhecidos, existe um nosso compatriota! Há aldeias, no Alasca, que descendem da mistura de nativos com Lusitanos e alguns familiares (poucos, é certo), ainda falam algumas palavras de português! Aliás, há algumas palavras na língua nativa que conservaram expressões portuguesas.


Pode dizer-se que o português é uma língua do futuro entre as 6.800 existentes (prevê-se que até 2100 desaparecerão 3.400 a 6.120, num ritmo superior ao referenciado por uma estatística que indica que se perderá um idioma a cada duas semanas) que se falam.


-Sim! A Língua Portuguesa encerra uma incontornável mensagem de futuro, disse, no Brasil, o Dr.Henrique Pedro. Por seu lado, a Drª Ibernise Indiara (Brasil), ao falar sobre o tema explicou-se admiravelmente:


-Compete a todos os lusófonos zelar pela sua unidade e multiplicidade. Homens e mulheres, raças e credos, reunidos, nela contidos... Brilhando e fazendo a Nação Lusófona irradiar luz... Irmãos que trabalham, amam e se emocionam amparados pela Língua Portuguesa, um amor de Mãe.


A nossa língua atravessou séculos baseada em conhecimentos e cultura, espalhou-se e constituiu-se património. Deu-se ao Mundo em prodigalidade e abundância; formou uma realidade intrínseca que nos une em todas as direcções, em campos de aprendizagem dinâmicos, criativos, imensos, movendo-se em mundos que sabem ou querem ouvir as raízes de um povo que toca no Atlântico.


No estrangeiro, apoiando os nossos emigrantes, que sejam cada vez mais as escolas, os professores, a ensinarem ou a relembrarem o idioma que os liga à Pátria. Que os escritores portugueses atravessem fronteiras e sejam conhecidos, traduzidos, admirados e respeitados. Que não se perca em todos os continentes o que fizemos de forma tão brilhante no passado: ensinar, falar português! O nosso valoroso passaporte para o futuro. O riquíssimo espólio de um passado. Uma herança valiosa a partilhar.



Há que louvar José Saramago que ao ganhar o Nobel da Literatura se transformou no atleta nacional que mais alto elevou a Língua Portuguesa ao tecto do Mundo. Louvar (sempre) Amália, Dulce Pontes, Mariza, Teresa Salgueiro e tantos outros artistas que, de país em país, juntam plateias que sabem conquistar e fazem render à musicalidade de palavras que muitas vezes não entendem: o português!
Há que louvar, ainda, as estações radiofónicas que, através das ondas hertzianas levam o nosso idioma a vários continentes dando aos emigrantes nacionais um contacto que fala de actualidade, memória, recordação e saudade, através da palavra falada e das palavras musicais na flexibilidade das canções. Finalmente, louvar a potencialidade e diversidade de jornais e revistas portuguesas que se ultrapassam nas notícias que encerram e se tornam eficazes na missão de avivar o idioma que nas distâncias não enfraquece nem desaparece.Permanece livre, aberto a todos que o queiram acompanhar na sua contínua expansão de sucesso.



O céu estrela o azul e tem grandeza
Este, que teve a fama e a glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.


No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro de luar,
El-Rei D. Sebastião.


Mas não, não é Luar: é luz e etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.

Fernando Pessoa, in Mensagem

segunda-feira, 3 de março de 2008

A PROCURA DE CARL SAGAN


Está uma noite de olhar o céu. Demoradamente. Não que ele esteja brilhante ou sequer transparente, nada disso. Está pouco bonito, isto é; vestiu a capa de nevoeiro e, altivo, não tremelica nem um pouco. Não se vislumbra sequer uma pequena abertura que seja para se descobrir qualquer coisa lá de cima.


Mas é por isso mesmo que me apetece olhar este nevoeiro da noite, fixamente, com os olhos do querer e, apesar de, até agora, não ter conseguido romper a barreira (há sempre a esperança. Há sempre um dia, sabe-se lá…) provoco a situação com evidente gosto.


Confesso que, como milhões de pessoas em todo o mundo, ainda tenho a recordação viva do brilhante Carl Sagan, astrónomo e biólogo que se interessou pela pesquisa de vida extraterrestre, razão pela qual desenvolveu trabalhos direccionados à escuta de sinais vindos do espaço cósmico (o filme que vi mais vezes, até hoje, foi Contacto, com Jodie Foster e Matthew McConaughey). Com Sagan (um dos maiores divulgadores de Ciência no mundo) aprendi e deslumbrei-me, em absoluto e, recordo frequentemente uma das suas muitas declarações


-A química que produz a vida é reproduzida facilmente por todo o Cosmo. Parece improvável que sejamos os únicos seres inteligentes. É possível mas improvável! Se não existe vida fora da Terra, então o Universo é um grande desperdício de espaço


É a pergunta que faço quando a manta que envolve a noite é impenetrável. O que estará para lá do ali? E, inevitavelmente, lembro Sagan (em 1960, doutorou-se na Universidade de Chicago, dedicando-se à pesquisa e à divulgação da Astronomia).


Foi consultor e conselheiro da NASA desde os anos 50, trabalhou com os astronautas do Projecto Apollo, antes de suas idas à Lua. Participou nos projectos da Mariner, Viking, Voyager, e das missões da sonda Galileo. Fez estudos que ajudaram a entender os mistérios das altas temperaturas de Vénus, as mudanças sazonais de Marte e a névoa avermelhada de Titã (satélite de Saturno),


Como ele foi tão imenso a nível mundial e, simultaneamente, capaz de ser um comunicador tão brilhante! Tinha uma habilidade notável para comunicar ideias complexas de modo acessível e entusiasmante que não esmoreceu nem mesmo quando, durante 2 anos, lutou contra a morte. Atacado por rara e grave doença os médicos tentaram salvá-lo fazendo um transplante da medula. A operação correu bem mas os efeitos duraram meses.


A mesma doença volta a atacar e, uma pneumonia, torna o desfecho fatal. Deixou um lugar vago cá em baixo, mas lá em cima, (seguramente) ele já há muito que deve tratar por tu as estrelas do Universo. E talvez. não só! Será que já comprovou se o Universo tem mesmo espaço a mais? Em 1966, deu entrevista à revista Veja, onde disse:


-As antenas de rádio da Universidade da Califórnia em Berkeley captaram, ao longo de alguns anos, 30 milhões de sinais intrigantes, e depois de uma minuciosa selecção sobraram 164 transmissões classificadas como misteriosas.


Em 1968, foi para a Universidade de Cornell, onde dirigiu o Laboratório de Pesquisas Planetárias. Chefiou as expedições das sondas pioneiras na exploração do Sistema Solar e foi incentivador dos grandes projectos de rastreio do Cosmos, na procura de sinais de outras civilizações, já que acreditava que as possibilidades da Humanidade captar algum sinal desta natureza aumentariam com o avanço constante das novas tecnologias


Sagan foi dos cientistas que mais trabalhou na procura de inteligência extraterrestre ou contacto interplanetário. Foi ele o pai de várias expedições na procura de sinais de rádio emitidos por essas civilizações. Chefiou expedições, e escreveu livros (Prémio Pulitzer por Dragões do Éden) que foram sucesso, em todo o mundo


O astrónomo tem citações maravilhosas, uma delas, referindo-se às crianças é, mais do que nunca, actual:


-Um extraterrestre que acabe de chegar à Terra, e que faça um escrutínio daquilo que apresentamos às nossas crianças na televisão, rádio, filmes, jornais, revistas, bandas desenhadas e muitos livros - facilmente concluiria que fazemos questão de lhes ensinarmos assassínios, violações, superstições e consumismo...


Outra que se tornou muito famosa, citada no livro Cosmos

-Somos a encarnação local de um Cosmos que toma consciência de si-próprio. Começámos a contemplar as nossas origens: pó de estrelas meditando acerca das estrelas; grupos organizados de dez mil biliões de biliões de átomos analisando a evolução do átomo; descobrindo a longa caminhada que, pelo menos para nós, levou ao aparecimento da consciência. Devemos a nossa lealdade às espécies e ao nosso Planeta. Somos nós que nos responsabilizamos pela Terra. Devemos a nossa obrigação de sobreviver não só a nós próprios, mas ao Cosmos, vasto e antigo, de onde despontámos.

A sua obra permitiu-lhe receber muitos prémios ligadas à astronomia, inclusive o maior prémio científico das Américas: o da Academia Nacional de Ciências. Recebeu também 22 títulos Honoris Causa de universidades americanas, medalhas da NASA por Excepcionais Feitos Científicos, por Feitos no Programa Apollo e duas vezes a Distinção por Serviços Públicos.

O Prémio de Astronáutica Jonh F.Kennedy da Sociedade Astronáutica norte-americana. O Prémio de Beneficência Pública por distintas contribuições para o bem-estar da Humanidade. Medalha Tsiolkovsky da Federação Cosmonáutica Soviética. O Prêmio Masursky da Sociedade Astronómica norte-americana. e um Emmy, pela série Cosmos


Carl Edward Sagan, nasceu em Nova Iorque (EUA), a 9 de Novembro de 1934 e morreu no dia 20 de Dezembro de 1996, em Seattle, vencido por uma pneumonia e uma doença óssea.


Lembrando-o, dedico-lhe um breve texto retirado de Azaron:


-Que as luzes cósmicas estejam permanentemente convosco. Pertenço a uma civilização muito distante do vosso Sistema Planetário. Porém, já estou há algum tempo na órbita do vosso Planeta, atendendo ao chamamento da Hierarquia Solar. Permanecemos na órbita do vosso Planeta Azul…

Os cientistas, homenageando-o, deram o seu nome a um asteróide.