Brumas de Sintra

Ponto de encontro entre a fantasia e a realidade. Alinhar de pensamentos e evocação de factos que povoam a imaginação ou a memória. Divagações nos momentos calmos e silenciosos que ajudam à concentração, no balanço dos dias que se partilham através da janela que, entretanto, se abriu para a lonjura das grandes distâncias. Sem fronteiras, nem limites

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O meu nome é Maria Elvira Bento. Gosto de olhar para o meu computador e reconhecer nele um excelente ouvinte. Simultaneamente, fidelíssimo, capaz de guardar o meu espólio e transportá-lo, seja para onde for, sempre que solicitado. http://brumasdesintra.blogspot.com e brumasdesintra.wordpress.com

terça-feira, 30 de setembro de 2008

CAI NEVE EM...MARTE!!!

Foto: Sapo/Windows


Já 160 a.C. o astrónomo grego Hiparco se deixou fascinar por este ponto vermelho no céu chamado Marte e, ao analisá-lo, verificou que ele nem sempre se movia de Oeste para Leste. As observações do movimento aparente de Marte feitas por Tycho Brahe, em 1546, permitiram ao seu discípulo Johannes Kepler descobrir as leis dos movimentos dos planetas que deram suporte à teoria heliocêntrica de Copérnico. Em 1655, Christiaan Huygens construiu um telescópio (ampliação de 50x) e, em 1659, quando Marte se encontrava em oposição, decide examiná-lo e distingue manchas que assinala num esboço com uma marca em forma de V, o que é hoje identificado como Syrtis. O ano de 1877 foi um ano-chave para os estudos do planeta, já que se encontrava numa oposição muito mais próxima da Terra. E, assim, o astrónomo norte-americano Asaph Hall descobre os seus satélites naturais: Fobos e Deimos.


Marte, desde sempre provocou muita curiosidade (gerou-se a ideia de que o planeta foi ou é habitado e, na actualidade, pensa-se que poderá ser um destino futuro para resolver o problema terreno que, na altura, se debaterá com escassez de água, excesso de população…) e, também, em 1855, Percival Lowell espiou esse imenso deserto frio-, que é um dos mais visitados planetas por naves não tripuladas. Em 1965 recebeu uma sonda Mariner 4. Em 1971 aterra outra e, em 1976, recebe outras duas: as Viking 1 e 2. Em 97 a paisagem marciana tem um visitante estranho: um pequeno robot com uma missão especial e atribulada. Em 2004 outros dois possibilitam o envio de informações que chegam à Terra, sempre ansiosa por descobrir mais. Todavia, o maior volume de informações são obtidas pelas sondas que orbitam Marte, e que possibilitaram desconfiar mais sobre o Planeta Vermelho e as fortes marcas de erosão no terreno que deve ter sofrido erupções vulcânicas há um milhão de anos.


Desconfiados estavam (e estão) os cientistas sobre infiltrações de água, o precioso líquido cuja existência responderia a muitas interrogações: teria existido vida? Talvez sim, talvez não mas, as possibilidades aumentariam de ali ter existido vida microscópica se o gelo tivesse alguma vez ter sido água líquida. E, quando a sonda Phoenix tocou (25 de Maio. Terminará a missão em fins de 2008) o tão visitado solo marciano a NASA e a Agência Europeia, sentiram o sabor daquele distante gelo e rejubilaram ao ver (há horas) o laser da Phoenix detectar neve a cair das nuvens de Marte a uns quatro quilómetros de altura. Fantástico! Nunca ninguém tinha visto nada assim.


A comunidade científica internacional mais do que nunca quer ter certeza sobre o planeta que já nos tempos do passado longínquo tirou horas de sono aos babilónios e, mais tarde, aos gregos. As experiências vão continuar. Entretanto, a Phoenix, vai-se esgotando nas suas potencialidades e no princípio do novo ano deve já ser mais um pedaço de lixo a gravitar no Espaço. Não é muito poético mas esse terminar nunca será inglório. Dê as voltas que der, tenha as colisões que tiver ela será sempre a sonda que, pela primeira vez, deu possibilidades a estes confusos terrenos de ver cair neve sobre o solo vermelho de Marte. Soa a canção!





Todo conhecimento humano é incerto, inexacto e parcial
(Bertrand Russel)

sábado, 27 de setembro de 2008

DEBATE NO MISSISSIPI

Foto: Sapo/Windows


A esta hora decorre, no Mississipi, o primeiro dos três encontros televisivos entre McCain (republicano) e Barack Obama (democrata) de extrema importância (em 1960 John Kennedy enfrentou brilhantemente Ricard Nixon e, ainda hoje se diz que ali, na televisão, foi escolhido o Presidente) para os resultados finais das eleições presidenciais americanas que terão a 4 de Novembro o esperado epílogo. Desde o início até ao momento final, a disputa antevê-se permanentemente acesa, disputadíssima e, até hoje (27.9), nada está definido. E a actual crise financeira dos EUA veio confundir mais. Há Estados de extrema importância na decisão final (o da Florida, por exemplo) que parecem debater-se, ainda, na indecisão.

São 3:39 e como não tenho TV Cabo não me é possível acompanhar o frente-a-frente entre os dois candidatos que suponho estar a ser renhido. Outra coisa não é de esperar por quem sente e diz ter capacidades para ser o novo locatário da Casa Branca. Até ao último minuto McCain esteve para não ir mas, bem aconselhado, não primou pela ausência que lhe dava uma imagem de algo que ele, ao longo da vida, demonstrou não ser: cobarde, capaz de virar as costas a um desafio. A justiça tem de ser feita para ambos. Obama foi firme quanto ao cenário de recusa por parte de McCain e afirmou: o povo americano merece saber como tencionam os candidatos liderar a América se forem eleitos.

Campanhas na América são, como se sabe, um mundo: longas, dispendiosas, vibrantes e feéricas. Tudo pode acontecer! Publicidade no site do Wall Street Journal, e uma página publicitária no Washington Post, colocada antes do encontro, dava McCain como vencedor do debate, o que, convenhamos, é, pelo menos, bizarro. Sem quer entrar no campo da futurologia há dados que permitem analisar que, presentemente, McCain perdeu nas tabelas de preferências, a favor de Obama. A escolha da governadora do Alasca, Sarah Palin, teve apenas horas de euforia e tem-se revelado um pouco desastrosa, o que não quer dizer que Obama seja já vencedor. Eleições movem mundos de surpresas e de poder. Fervilham os bastidores, os apoiantes, e, os que tentam tudo para que o resultado final coincida com a preferência do seu voto.

O convite de Bush a Obama para se reunir na Casa Branca, pareceu-me um convite envenenado. Haveria a ideia de colocar o senador de Illinois numa situação frágil, num ambiente que ele ainda não domina, frente aos ainda indecisos, a propósito da crise financeira e do plano do actual Presidente da América (700mil milhões de dólares) que está, como se sabe, a ter dificuldades em ser aprovado? Talvez sim, talvez não. É possível. Tudo é possível! É provável que os republicanos quisessem sentar o seu candidato, McCain, já no interior da Casa Branca para valorizar a imagem, assegurar o protagonismo. Mas isso não aconteceu.

São 4:35 e notícias vindas da Antena Um dizem que este frente-a-frente (morno) que durou hora e meia, foi dominado, como se esperava, pelo tema da crise financeira americana. Quanto ao plano Bush nenhum dos dois intervenientes foi claro -McCain está optimista quanto à crise dos mercados financeiros e Obama afirmou ser a maior recessão dos últimos largos anos-, ambos ficaram pela ambiguidade. Falou-se no Iraque, Rússia, Afeganistão, mas parece que nada de novo foi acrescentado ao que os candidatos à Presidência dos Estados Unidos já disseram nas suas anteriores intervenções. A maior clivagem de opiniões foi sobre o Iraque onde Obama disse que o processo foi mal gerido e McCain afirmou que os EUA estão a ganhar e a América vai sair com honra e dignidade. Uma particularidade interessante: ao longo de todo o debate o candidato democrata nunca deixou de olhar o candidato republicano nos olhos e este, McCain, nunca fixou Obama durante os 9O minutos!

Quanto maior for a crença nos seus objectivos, mais depressa os conquistará!
(Maxwel Maltz)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O NOSSO FUTURO DEPENDE DO FUTURO DO MUNDO

Foto: Sapo/Windows

Ontem, inaugurou-se na Póvoa do Varzim algo que considero muito importante e quando me preparava para falar sobre o tema, lembrei-me de Eurico da Fonseca e de uma afirmação que me dera numa entrevista em 1978, e que estava relacionada com a referida inauguração. Ao pesquisar algo mais sobre este brilhante cientista e investigador português, inesperadamente, descobri num site, Setúbal Em Rede, uma entrevista que lhe foi feita no dia 31 de Dezembro de 2000, por Etelvina Baía. Achei-a imperdível e, por isso, transfiro para amanhã a inauguração do parque de ondas e, hoje, se o tema lhe interessa leia o que há oito anos disse Eurico da Fonseca.


O cientista e investigador Eurico da Fonseca, cujas raízes estão ligadas ao distrito de Setúbal, diz-se apreensivo quanto ao que a humanidade poderá fazer do próximo século. Nada de bom, receia, pelo menos a avaliar pelo que diz ter sido o depauperamento dos recursos do planeta em favor do consumismo e das invenções de usar e deitar fora. Para acabar com este princípio, o cientista defende um novo modelo de sociedade baseado no equilíbrio entre a Natureza e as necessidades do Homem. Mas para que isso aconteça, principalmente em Portugal, há que acreditar nos cientistas e, principalmente, informar os cidadãos e melhorar a sua cultura científica.


Setúbal na Rede - Como é que vê o pensamento científico deste milénio?


Eurico da Fonseca - Vejo-o com preocupação porque as pessoas têm sido dominadas pela crença em vez da consciência. Refiro-me ao facto de serem tão preguiçosas que acreditam nas coisas antes mesmo de as compreender e, isso, para a ciência, é um erro fatal. Neste momento estamos divididos entre dois mundos: o da crença que acredita em coisas como por exemplo a astrologia, sem fazer o mínimo esforço para compreender o que se passa, ou então inventa-se ciências que não existem; por outro lado, temos a ciência propriamente dita. Mas esta também não se pode levar ao cientismo porque a dúvida existe e faz parte da ciência. Agora a crença não tem dúvidas, é o dogma que, para mim, significa exactamente o contrário da consciência e da inteligência humana. Ou seja, se uma pessoa acredita num dogma prescinde da sua própria inteligência e deixa de ser um ser humano.


SR - Apesar da constante luta entre a crença e a ciência, não lhe parece que a ciência evoluiu muito ao longo deste milénio?


EF - Sem dúvida, o mais importante foi exactamente a ciência ter evoluído desta maneira. Mas o mais trágico é as pessoas não saberem tirar partido da ciência para melhorar a sua própria vida. E mesmo com todo o movimento ambiental existente, ainda estamos muito longe de ver essa consciência. As descobertas científicas foram muito importantes mas há coisas a que as pessoas não ligam. Certamente que ainda não deram pelo facto das leis da relatividade terem dado uma imagem completamente diferente do mundo e quando se diz que Einstein foi a figura do século isso é bem verdade. E aproveito para dizer que quando ele descobriu as Leis da Relatividade nem sequer era licenciado nem doutorado, era um simples funcionário da repartição de patentes de Genebra. Por outro lado, com base em alguma correspondência pessoal, há quem suspeite que quem teve as ideias básicas sobre isso foi a mulher dele. Seja como for, as Leis da Relatividade vieram mudar o nosso olhar e toda a concepção que temos do Mundo.


SR - Pode dizer-se que Einstein foi o responsável por uma nova geração de cientistas?


EF - É, pelo menos, o responsável pelo 'salto' que o pensamento científico deu, porque as pessoas começaram a pensar que aquilo que os mestres diziam nem sempre era verdade. Aliás, o próprio Einstein foi criticado porque a partir daí os cientistas começaram a olhar os seus próprios trabalhos e inventos de uma maneira crítica. No entanto, houve problemas que ele também não conseguiu resolver, como foi o caso da uniformização de todos os sistemas relacionados com a energia, por exemplo: o magnetismo e a gravidade. Hoje, há teorias a esse respeito e que ainda não estão perfeitamente harmonizadas.


SR - Acha que a sociedade deste século está preparada para compreender a ciência e os próprios cientistas?


EF - Não me parece que as pessoas, no geral, estejam preparadas para compreender a ciência e a sua utilização. E isso vê-se todos os dias na aceitação dos dogmas e dos mitos. Por outro lado, há a ideia errada de que o cientista é um homem frio, um materialista. Houve uma vez um cientista que disse que as pessoas admiram os artistas, e têm muita razão para os admirar, mas por outro lado esquecem-se de que, quando um cientista estuda uma flor, está implicitamente a adorar tudo quanto a Natureza fez na flor. E para compreender tudo o que é essa flor, o cientista tem de ter a imaginação e a capacidade suficientes para estudar todos os seus pormenores e saber admirá-los.


SR - Tendo sido este o século das descobertas, qual lhe parece ser actualmente o maior problema da humanidade?


EF - O grande problema que actualmente se coloca à humanidade é o abismo que existe entre o estado em que está o planeta e aquilo que, provavelmente, nos poderia ser dado se houvesse mais atenção relativamente à forma como a Terra tem vindo a esgotar as suas reservas. Ou seja, se por um lado a ciência ainda pode oferecer muita coisa neste sentido, por outro não se verificam esforços suficientes por parte dos governos, quer para esclarecer a população sobre este assunto, quer para fazer os investimentos necessários para fugirmos a uma grave situação que se aproxima. Não é preciso ir mais longe, basta dar o exemplo de Portugal que, em 1998, foi o país do mundo que mais cresceu em termos do consumo de energia. Neste momento está a fomentar-se, por todos os meios, a compra e o uso do automóvel em Portugal quando corremos o risco de daqui a 50 anos o planeta ter esgotado as reservas de combustível. E eu pergunto o que acontecerá depois disso. Um outro exemplo é o novo aeroporto de Lisboa porque, a continuarmos a esgotar energias desta maneira, quando ele estiver construído muito dificilmente as pessoas o poderão utilizar. Basta lembrar que há duas semanas os preços dos transportes aéreos nos Estados Unidos aumentaram verticalmente por causa do preço dos combustíveis.


SR - Até que ponto as investigações sobre a fusão a frio e sobre o hidrogénio poderão ser um caminho para a descoberta de um outro tipo de combustível?


EF - Tem havido muita informação contraditória acerca desses assuntos. No entanto, sabe-se que as ideias sobre a fusão a frio foram impostas até ao momento em que se soube que tinham nascido de uma guerra entre universidades para justificar a atribuição de subsídios. Na verdade nada disso era verdade e, segundo se soube, a fusão a frio é uma fraude. O mesmo pode aplicar-se às investigações sobre o hidrogénio porque, se por um lado andamos há que tempos a ouvir falar em automóveis a hidrogénio, por outro ninguém diz que ele é extraído da própria gasolina. Ou seja, voltamos ao problema do esgotamento dos combustíveis. O automóvel eléctrico existe mas é uma fraude porque os elevados preços dos componentes, particularmente das baterias, não permitem a sua comercialização. Por outro lado, esta também não seria a resolução dos problemas relacionados com a poluição porque estaríamos apenas a transferir essa poluição das zonas urbanas para as áreas onde estão instaladas as centrais de energia.


SR - Então, os desafios do próximo século estarão na procura de um equilíbrio entre a saúde do planeta e as mudanças que a tecnologia exige?


EF - É necessário repensar as tecnologias e toda a civilização. Ou seja, há que encontrar um outro modelo de desenvolvimento. Mas o problema é que a sociedade moderna está a ser levada pelo consumismo que é exactamente o contrário da poupança de recursos e de meios. Neste processo, os cientistas são atropelados pelos industriais porque estes estão mais interessados em fazer coisas que se deitem fora e possam ser substituídas. Ou seja, hoje em dia tornar as coisas obsoletas é uma prática normal. E isso começa com os automóveis e passa por tudo o que existe, é uma espécie de moda e quando as coisas saem de moda deitam-se fora.


SR - Ao longo deste século, como é que viu a evolução da ciência em Portugal?


EF - Muito mal, porque só agora é que começa a verificar-se a existência de algum pensamento científico. Há meia dúzia de anos aconteceu-me um episódio curioso, quando na RTP fizeram-me esta mesma pergunta e eu respondi o mesmo que agora: é lamentável que em Portugal a investigação científica não seja feita por razão da ciência mas sim para as pessoas obterem curriculum. Depois saem do país para se doutorarem ou fazerem o mestrado para depois verem se conquistam o cargo de professor. E quando eu estava a dizer isto, correu um filme em que se via um laboratório de uma universidade portuguesa com o investigador a dizer que estava a trabalhar num produto sem aplicação visível. Quando lhe perguntaram a razão disso, respondeu que era para o curriculum e para poder fazer o mestrado. Ou seja, as pessoas que têm algum valor acabam por ir para outros países e isso está a acontecer constantemente.


SR - Isso deve-se a falta de incentivo oficial na área da investigação?


EF - Os que existem não dão horizontes, no entanto isto não acontece só em Portugal. Trata-se de um fenómeno que acontece em muitos países. As grandes universidades, como é o caso das americanas e das alemãs, é que têm horizontes e grandes subsídios. E como muitas delas são particulares, conseguem financiamento para investigar. No entanto, não é só o dinheiro que faz falta porque para se investigar é preciso uma cultura científica. E essa cultura científica só agora começa a surgir em Portugal. E é preciso lembrar que até há cerca de 10 anos, quando se falava de ciência neste país era só no que respeitava à medicina. Os outros eram olhados como que uma espécie do operários e nada mais. Eu ainda me lembro de ter sido criticado por escrever sobre astronáutica porque diziam que estava a transtornar a cabeça dos jovens. Isto aconteceu por ocasião da primeira viagem à Lua, portanto mostra bem como era a cultura científica em Portugal e a mentalidade que existia até há bem pouco tempo.


SR - Porque é que esse olhar dos portugueses sobre a ciência foi mudando?


EF - Primeiro porque é muito diferente a maneira como a ciência é olhada em todo o mundo. Depois porque a Internet tem sido um meio privilegiado para o excelente trabalho desenvolvido pela NASA ao nível da divulgação de toda a ciência. De maneira que agora assiste-se a uma atitude completamente diferente, com os jovens a interessar-se verdadeiramente pela ciência. Estou mesmo convencido de que Portugal está a caminho de uma cultura científica diferente, embora discorde da actuação do Governo em alguns pontos, como é o caso da questão da energia. Num país onde se está a esgotar tudo, é pena que só a parte da ciência e tecnologia é que esteja a ser devidamente desenvolvida. No entanto, devo dizer que neste campo tem sido feito um trabalho muito notável e é bom que assim continue.


SR - Como cientista ligado ao distrito, como é que vê a massa crítica da área da investigação científica nesta região?


EF - Acho que as universidades e os institutos superiores que aqui existem poderiam ter um papel mais importante nesta área. É uma pena que praticamente nada se faça a esse respeito. O distrito é um bom terreno de investigação que, infelizmente, está a ser ignorado por todos nós. Começando pelos habitantes que ignoram as riquezas que aqui temos, e passando pela comunidade científica. Hoje em dia poucas pessoas conhecem a história desta região e isso é fundamental para se conhecer a própria zona em que se vive. A investigação ligada à História é muito importante porque as pessoas foram desenvolvendo a ciência e a tecnologia consoante as suas necessidades. Poucos sabem que o diferencial do automóvel foi inventado por Leonardo da Vinci e, por outro lado, poucos sabem quando é que ele começou a ser utilizado. A invenção estava feita mas só passou a ser utilizada quando foi necessária. Depois passámos da aplicação das invenções de acordo com as necessidades para a invenção de necessidades para as aplicações.


SR - De que é que o distrito precisa para evoluir no sentido do pensamento científico?


EF - Precisa essencialmente de consciencialização e isso só se consegue com informação. É preciso que a população tenha mais informação sobre as questões da ciência e da tecnologia do que a que tem hoje, que é praticamente nula. Temos universidades e institutos mas dali não sai nada para o povo e as pessoas continuam na ignorância. Em Setúbal há coisas muito belas que as pessoas acabam por perder por falta de conhecimento, e o que é fantástico é ver crianças pequenas conhecerem todos os artistas e mais alguns, mas não conhecerem os nomes dos cientistas que mudaram o mundo.


SR - Enquanto investigador, vê o próximo século com alguma preocupação?


EF - O nosso futuro depende do futuro do mundo e a minha visão do mundo divide-se entre a decadência e aquilo que os homens poderão fazer para a evitar. As pessoas ainda não têm a noção do que nos espera e parece-me que é preciso cairmos na decadência e no caos para que depois a humanidade renasça. Tudo isto tem a ver com as questões ambientais e com o esgotamento das reservas do planeta que, como está mais que provado, acaba por provocar enormes desequilíbrios sociais e humanos. Portanto, enquanto a humanidade não perceber isto, o nosso futuro será uma grande incógnita.



Teus olhos devem olhar à frente, para que a tua vista preceda os teus passos
(Salomão)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

PARABÉNS, JULIO!


Hoje, Julio Iglesias, faz anos e, como fã assumida, sinto-me bem em dizer-lhe daqui deste cantinho do litoral português: parabéns! Há anos que Julio me faz companhia nos momentos calmos ou naqueles difíceis de ultrapassar. Foi ao som musical das suas canções que sobrevivi dez anos ao trânsito de uma IC 19 e uma Segunda Circular, por exemplo. Limpezas grandes em casa, só com Julio em fundo. Não pego no aspirador se ele não estiver a ouvir-se. Taras e manias, mas é assim!


Por capricho do destino a partir de uma certa época acabei por o encontrar nas férias que fazia, anualmente, em Punta Cana (República Dominicana) ainda ele não tinha sequer pensado em construir a sua actual casa (fabulosa). Na altura a que habitava situava-se junto ao mar e ficava frente à minha. Quando o via passar, sempre vestido de branco, com a mulher, Miranda (ainda sem filhos) eu ficava nas nuvens. Estava ali a voz dos meus tempos de tranquilidade ou desassossego. Nunca o vi entrar na água. Ele ficava debaixo das palmeiras, na orla da praia, com o seu grupo: Miranda, Óscar de La Renta (por vezes), o casal Ranieri. Um dia, anos mais tarde, vi, ao cair de uma tarde solarenga, na sua praia privativa, um brilhante e famosíssimo político americano que admiro muito e o fascínio foi total. Também jantei várias vezes no restaurante Cana a seu lado e esses fragmentos de recordações são motivo forte para hoje o lembrar.


Também nunca o ouvi cantar em Punta Cana, mas escutei muitas e muitas vezes as poderosas e bonitas vozes de Sónia e de Josecito a interpretarem as suas canções e esta -Derrote- é uma das que memorizo: fecho os olhos, sinto a brisa caribenha, e sob as palmeiras e a Lua de prata, no restaurante Tortuga, a orquestra de Franklin Barbosa, executa os primeiros acordes da noite sedutoramente tropical.


El reloj de cuerda suspendido
El teléfono desconectado
Una mesa dos copas de vino
Y a la noche se le fue la mano

Una luz rosada imaginavamos
Comezamos por probar el vino
Con mirarnos todo lo dijimos
Y a la noche se le fue la mano

Si supiera contar
Todo lo que sentí
No quedó ni un lugar
Que no anduviera de ti

Besos, ternura
Que derroche de amor
Cuanta locura
Besos, ternura
Que derroche de amor
Cuanta locura...



Ninguém pode chegar ao topo apenas com talento. Deus dá o talento; o trabalho transforma o talento em génio
(Anna Pavlova)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

AS MÃES TAMBÉM ERRAM!




Deixa de jogar à bola e vai estudar para poderes ter um bom futuro.... (Mãe de Cristiano Ronaldo)


Com apenas 11 anos, Cristiano, deixou a Madeira, onde nasceu, e veio para Lisboa, ingressando nos juvenis do Sporting Clube de Portugal. A estreia nos relvados foi em Setembro de 2002, defendendo o Sporting, quando tinha 17 anos e fez um jogo de tal forma empolgante que os jogadores do Manchester United, no voo de regresso a Inglaterra, pediram a Sir Alex Ferguson a sua contratação para substituir David Beckham, que se tinha transferido para o Real Madrid. A sua carreira tem sido verdadeiramente notável.

-JogadorJovem do ano (2005)
-2º lugar na eleição do Melhor Jogador Jovem do Mundial de 2006
-Melhor Jogador Jovem da Liga Inglesa (2006/7)
-Melhor Jogador da Liga Inglesa (2007)
-3º Melhor Jogador do Mundo (2007)
-Melhor Jogador da Liga Inglesa (2008)
-Melhor jogador da Liga dos Campeões 2007/2008
-Melhor Avançado da Liga dos Campeões 2007/2008
-Bota de Ouro 2007/2008


*Pára de gritar...
(Mãe de Pavarotti)

Luciano Pavarotti, foi um tenor lírico italiano -um dos mais importantes de todos os tempos-, grande intérprete das obras de Donizetti, Puccinie Verdi, entre outros no seu grande repertório. É reconhecido como o tenor que popularizou mundialmente a Ópera. Participou, com José Carreras e Plácido Domingo, nos famosos concertos Os Três Tenores, e gravou duetos com Frank Sinatra, Ricky Martin, Laura Pausini, Spice Girls, Bryan Adams, Andrea Bocelli, entre muitos outros, especialmente em causas beneficentes. Cantou nos mais importantes teatros mundiais, como o Teatro Scala (Milão), a Royal Opera House (Covent Garden, Londres), o Metropolitan Opera House (Nova Iorque), entre outros. Em 1988, o nome de Pavarotti foi incluído no Livro Guinness dos Recordes por uma ovação que durou uma hora e sete minutos, recebida na Opera de Berlim. A sua última apresentação foi em Turim, durante os Jogos Olímpicos de Inverno, em Fevereiro de 2006; cantou, pela última vez, Nessun Dorma, na cerimónia de abertura. Faleceu a 6 de Setembro de 2007. Tinha 71 anos.



*Deixa de brincar com essas máquinas ou nunca terás nada na vida... (Mãe de Bill Gates)

William Henry Gates III, mais conhecido como Bill Gates, é, em parceria com o sócio Paul Allen, o fundador da Microsoft, a maior e mais conhecida empresa de software do mundo. Foi fundada em 1975 por Bill então com 19 anos, em parceria com Paul. Em 1980 a empresa deu um passo decisivo ao adquirir a Seattle Computer Products, o sistema operativo 86-DOS. Foi o começo do maior caso de sucesso empresarial da história americana. O multimilionário Bill Gates voltou agora a ocupar o lugar de homem mais rico dos Estados Unidos, superando Warren Buffet, que viu a sua fortuna reduzida, fruto da actual crise financeira.


*É a última vez que rabiscas as paredes da casa de banho...
(Mãe de Michelangelo)

Michelangelo (Miguel Ângelo) di Ludovico Buonarroti Simoni foi pintor, escultor, poeta e arquitecto renascentista italiano. Apesar de ter feito poucas actividades além das artes, a sua versatilidade em vários campos fez com que rivalizasse com Leonardo da Vinci. Foi genial em vários campos e, além disso, também recebeu tarefas diplomáticas. Duas de suas mais famosas obras (a Pietà e o David) foram realizadas antes de seus trinta anos. Apesar de sua pouca paixão pela pintura, criou duas obras históricas: as cenas do Génesis, no tecto da Capela Sistina (quatro anos de trabalho intenso) e O Juízo Final, também no mesmo local. Projectou a cúpula da Basílica de São Pedro, em Roma. Entre as suas outras esculturas, contam-se a Virgem, Baco, Moisés e os seus frescos mais famosos são: A Criação de Adão e Adão e Eva no Paraíso.


*Pára de bater na mesa, estou cansada desses ruídos...
(Mãe de Samuel Morse)

Samuel Finley Breese Morse foi um inventor e pintor de retratos e cenas históricas da América. Tornou-se mundialmente célebre pelas suas invenções: o Código Morse e do Telégrafo. Aos quatro anos de idade mostrava grande interesse pelo desenho e, aos 14, ganhava o seu próprio dinheiro fazendo desenhos dos seus amigos e pessoas da cidade. Ainda na época de colégio, Morse escreveu uma carta aos pais dizendo que se queria tornar pintor. Os pais, preocupados com o seu futuro, preferiram transformá-lo num vendedor de livros. Desse modo, Morse passou a vender livros de dia e a pintar à noite. Ante a persistência do artista, os pais decidiram mandá-lo para Londres para que estudasse Artes na Royal Academy.


Em 1826 fundou uma sociedade artística que, em breve, se transformou na Academia Nacional de Desenho. A partir de 1832 ensinou pintura e escultura na Universidade de Nova Yorque, alcançando fama de excelente retratista. Numa viagem de pesquisas à Europa, em 1832, idealizou o Telégrafo por meio do registo electromagnético dos sinais que formam o Alfabeto Morse. O seu primeiro projecto, utilizando electricidade para enviar mensagens para longa distância, não foi aprovado pelos governos francês e inglês, tendo se defrontado com dificuldades económicas. Em 1843, o Congresso dos EUA concedeu-lhe uma verba para que pudesse terminar uma linha telegráfica entre Washington e Baltimore, com a qual teve êxito. Essa linha foi inaugurada em 24 de Maio de 1844.


*Fica quieto de uma vez, daqui a pouco vais querer dançar nas paredes...

(Mãe de Fred Astaire)

Frederick Austerlitz, Fred Astaire, fez a sua primeira apresentação no palco aos cinco anos com a irmã Adele, que o acompanhava em revistas musicais nos anos 20, em Londres. Estreou-se no Cinema em 1915, fazendo um pequeno papel e, em 1933, apareceu ao lado de Joan Crawford em Dancing Lady. Nesse mesmo ano actuou no primeiro de uma série de dez filmes ao lado de Ginger Rogers. Os dois formavam uma par notável, elegante, sofisticado e radioso, conquistando admiradores em todos os cantos do mundo. Hollywood rendeu-se inteiramente á sua arte, valor e simpatia e deu-lhe um Óscar Especial em 1949, pela sua contribuição à técnica dos musicais no cinema. Foi actor, dançarino e cantor e os seus filmes ainda hoje, são revistos com prazer.


*Nada de igualdades, eu sou a tua mãe e tu és o meu filho...
(Mãe de Karl Marx)

Friedrich Engels, disse estas palavras na cerimónia fúnebre de Karl Marx: Marx era, antes de tudo, um revolucionário. A sua verdadeira missão na vida era contribuir, de um modo ou de outro, para derrubar a sociedade capitalista e das instituições estatais por estas suscitadas; contribuir para a libertação do proletariado moderno, ele foi o primeiro a tornar-se consciente da sua posição e das suas necessidades, consciente das condições da sua emancipação. A luta era o seu elemento. E ele lutou com uma tenacidade e um sucesso com quem poucos puderam rivalizar.

Marx foi o homem mais odiado e mais caluniado de seu tempo. Governos, tanto absolutos como republicanos, deportaram-no dos seus territórios. Burgueses, quer conservadores ou ultra democráticos, lançavam difamações. Tudo isso ele punha de lado, como se fossem teias de aranha, não tomando conhecimento, só respondendo quando necessidade extrema o compelia a tal. E morreu amado, reverenciado e chorado por milhões de colegas trabalhadores revolucionários -das minas da Sibéria até a Califórnia, de todas as partes da Europa e da América- e, apesar de ter tido muitos adversários, não teve nenhum inimigo pessoal.


*Pára de mentir! Pensas que, estar sempre a mentir, vai ajudar-te a ser alguém na vida?
(Mãe de...)

Escolha um político, por exemplo, e diga qual foi a sua escolha.



O acaso não existe. Quando alguém encontra algo de que verdadeiramente necessita, não é o acaso que tal proporciona, mas a própria pessoa; seu próprio desejo e sua própria necessidade o conduzem a isso
(Demian)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A CANÇÃO DA MINHA VIDA


Foram anos e anos de fascinação, de memórias, de dores terríveis, de alegrias imensas. Foram transformações, lutas, mudanças constantes num transbordar de vitalidade ou numa serenidade inspiradora capaz de iluminar pensamentos e ambições. Foram medos negativos que tolheram gestos e palavras treinadas que nunca foram ditas. Foram confissões em surdina que perderam o vigor. Enfraqueci e contemplei, com o sabor mágico do encanto, do deslumbramento, o sonho, de olhar e sorrir como se a fonte de inspiração fosse magnífica e fizesse de mim sábia num universo revitalizador. Tornei-me aliada da minha própria existência no desfilar dos meus dias.


Transcendi-me. Quebrei grilhetas, agitei emoções adormecidas em silêncios vigorosos, doloridos, que me agitaram, engrandeceram e deixaram transbordante de vitalidade e grandeza. Vivi em permanente estado de desassossego. Dediquei-me a causas. Procurei cumprir objectivos. Com harmonia, em desamor, em lassidão. Fui agressiva, obsessiva, doce, serena, silenciosa, autêntica. Envolvi-me em mantos de luz, de audácia.Tomei as rédeas da vida e apelei ao meu poder. Desafiei e desafiei-me. Esperei. Amei e desamei. Amei em esperança, em desespero, em fascínio. Amei silenciosa em cada manhã por acontecer. Deambulei por montes e vales, andei mil quilómetros a cada segundo, percorri estradas que não eram minhas, caí em precipícios medonhos.


Saltei obstáculos mortíferos. Defendi o meu tempo e os meus anseios e, quando me sentia vazia, corria ao sabor do vento para lhe escutar os sussurros e sentir as brisas. Chorei e desisti em fugas de solidão e de amor. Fiquei exausta, esgotada, desanimada, esquecida. Foram viagens gratificantes, esplendorosas, por caminhos de medo e união que, por vezes, conduziam à esperança, à sabedoria e à renovação. Levantei-me sempre que caí, mesmo que o trilho de lama ou de pedras já me tivesse ferido os pés, mesmo que a densidade da mata já me tivesse rasgado, dilacerado. Atormentada no círculo do silêncio respondi, sempre, ao milagre, ao mistério da vida que me amparava, rodeava e protegia. Confesso que vivi e enfrentei desertos, oásis e ilhas paradisíacas ao som constante de uma melodia que encheu a minha vida. Foram anos sucessivos com ela no coração, fazendo de mim o barco que contornava a costa, ao som do eco do farol e da sua luz. Fui dependente da sua harmonia. Escutava-a quando queria e mesmo quando a rejeitava. Ela era o sinal de trânsito da minha existência.


Foi o despertador sem horas das minhas alvoradas Foi demais e foi bom. Foi motivador e desesperante. Foi tudo e continua a ser o que já foi e, assim, será... Concerto para Uma Voz, foi a canção da minha vida. Tudo girou em torno dela (como é possível!). A primeira vez que tomei contacto com esse 45 rotações foi em Luanda, na Rádio Ecclésia, quando necessitava de um indicativo para um novo programa. Seria a queridíssima Ana Maria Bello Marques a descobri-lo. Escutei-o e, no mesmo instante, fiquei no mais exaltante e indelével estado de deslumbramento. Acabei por o usar frequentemente e o curioso (ou seria provocação?) da vida é que o viria a encontrar ao longa do exercício da minha profissão (é uma história demasiado longa para contar).


Concerto para uma Voz foi composto por Saint Preux, em 1969. Tinha 19 anos. Danielle Licari interpretava-o tão bem que arrepiava.


-Dabadá, dabadabadabadá-dabadabá. Badaba badabada badaba uabididaba. Badabada ahhhhh... badabadaba uabididaba


Nunca ouvi mais do que isto e, como bastou!



A música é a linguagem universal da humanidade
(Longfellow)

EM SINTRA, NO REINO DAS FLORES, HÁ PORTAIS ABERTOS NO INFINITO!


Foto: Galeria Windows


Em Sintra, há pontos de harmonia que alguns conseguem sentir e ultrapassar. São portões invisíveis, poderosos de vibrações, abertos no vazio que transportam a dimensões de espiritualidade expandidas no Universo, como canais de ligação que vencem fronteiras onde reina a Luz, a Energia, o Amor e a Sabedoria. Há portais abertos no Infinito, aqui, em Sintra, no reino das flores, das árvores centenárias, dos cheiros indecifráveis e inebriantes que nos envolvem e encantam. O desafio é perfeito, abundante, ao qual é difícil resistir.


Evoluir, elevar a ânsia do Amor e do Conhecimento a portais intensos e evolutivos libertos de amarras e bloqueios que (não vencidos) podem manietar. Aqui, em Sintra, há sopros de ventos que conduzem a campos energéticos, aos templos onde dormem as estrelas e o idioma é a voz do coração. Vivemos em mundos paralelos, em intercâmbios inseguros ou vibrantes, onde se sintoniza com o Universo. Surpreendente. Imenso. Pleno.


Há luzes douradas nos caminhos dos portais brilhantes e das escadas que transportam: que levam e trazem de mundos esotéricos onde feixes de vibrações atraem conhecimentos. São os caminhos do tempo que nos deixam em voos de vigor e de transformações. Em Sintra, há visões de longo alcance, palpáveis, ao alcance das mãos, neste paraíso sem tempo, luminoso, que (caprichosamente) renova quadros de maravilha em pinturas na Natureza, iluminadas por feéricos raios de luz que inspiram visões criativas.


Os seres humanos são como anjos de uma só asa. Só conseguem voar quando estão abraçados
(Neo Buscarle)

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O "FURACÃO" PALIN


Foto: site da governadora

Curiosamente, nenhum Centro vocacionado para estudar a ameaça de furacões aos EUA foi capaz de visionar nos sofisticadíssimos ecrãs o nascimento de uma tempestade nascida nos gelos do Alasca que chegaria às costas quentes da América com ventos fortes e, por vezes, ameaçadores! O fenómeno acabou por ser baptizado por Palin.


Pois é, não foi mas podia ser sido descrito assim o aparecimento mundial de Sarah Palin, descoberta num magistral golpe de asa de McCain, o candidato republicano às presidenciais americanas, que ocorrerão a 4 de Novembro, disputadas ao lado de Barack Obama, o candidato democrata. A escolha do velho guerreiro para seu vice teve mesmo o efeito de furação e abanou todos, inclusive Obama e todo o seu staff, diria, brilhante staff. Em Denver, Obama e McCain estavam nivelados nas sondagens, mas após essa Convenção o líder dos democratas subiu 6% na tabela das preferências. Depois do primeiro aparecimento de Palin a escala balançou mas não caiu e só quando a bonita e elegante governadora do Alasca, numa entrevista disse ser possível a declaração de guerra dos EUA à Rússia, se esta insistisse na invasão da Geórgia, é que o seu estado de graça começou a quebrar-se e se reflectiu de imediato nas sondagens. Obama volta a liderar e os indecisos ficam mais indecisos e os convencidos ficam menos convencidos.


Depois dos oito anos bélicos de Bush o que não interessa nem ao mundo nem à América é que qualquer ameaça de uma nova guerra seja pensada e muito menos executada. Claro que à Rússia também não interessa aumentar tensões com a América, mas as declarações de Sarah Palin, fruto de inexperiência, sim, revelaram insensatez e falta de conhecimentos da política externa. E se a isso se acrescentar a frase por ela proferida em que diz estar pronta para se tornar presidente dos Estados Unidos, se necessário, em entrevista à rede de televisão americana ABC, não sei como McCain (72 anos) se terá sentido ao ver-se no papel de falecido ou desistente.


Estas eleições tem sido na realidade, energizantes. De um entusiasmo e um mistério permanentes. Desde o primeiro dia da disputa acesa entre Obama e Hillary Clinton. A ex-primeira dama perdeu a favor do seu companheiro de partido e este, em minha opinião, não conseguiu ou não o deixaram? Não o aconselharam a não abrir mão de Hillary? Foi uma oportunidade, única, perdida que lhe poderá custar uma derrota ao não incluir, pelo menos na lista dos vice, o nome de Clinton. O eleitorado que lhe é fiel (18 milhões de votos) como reagirá frente a Sarah (defende o ensino do criacionismo nas escolas, é contra o aborto e a favor das armas para todos)? Votará em McCain? É preciso que os eleitores consigam votar em Novembro nas eleições entre Obama e McCain e não entre Hillary (na recordação e no coração) e Palin. Já não falta muito tempo para a decisão final deste longo e entusiasmante combate político que tem abanado, confundido e entusiasmado os americanos.


Eleições, na América, querem dizer: espectáculo! Espectáculo mas em grande, estilo Hollywood e, Palin, tem perfil de estrela, por isso vai a Meca do Cinema, com o candidato republicano, no próximo Outubro (realizadores e produtores estão fascinados com a sua história pessoal: ex Miss Alasca, governadora, mãe de cinco filhos, um a combater no Iraque (missão divina na opinião da vice) e outro de cinco meses. Barack, não se pode negar, foi uma surpresa total e já mostrou que além de um orador carismático, é telegénico, sabe enfrentar plateias, tem igualmente um percurso de vida invulgar e fascinante e tem demonstrado como cresceu politicamente desde que proferiu o seu primeiro discurso nas primárias, mas será que os americanos estarão preparados para o ver o casal Obama na Casa Branca? E Joe Biden, vice dos democratas? Tem prestígio e credibilidade. E McCain? Também. Experiente, herói, e, politicamente, matreiro.



A política é quase tão excitante quanto a guerra, e quase tão perigosa. Na guerra, você é morto uma vez mas em política, várias vezes
(Winston Churchill)

domingo, 14 de setembro de 2008

HOLLYWOOD DE M-A-D-O-N-N-A



Everybody comes to Hollywood
They wanna make it in the neighbourhood
They like the smell of it in
Hollywood
How could it hurt you when it looks
so good?

Shine your light now
This time it's got to be good
You get it right now
Cause you're in Hollywood

There's something in the air in Hollywood
The sun is shining like you knew it would
You're riding in your car in
Hollywood
You got the top down and it feels so good

Everybody comes to Hollywood
They wanna make it in the neighbourhood
They like the smell of it in
Hollywood
How could it hurt you when it looks so good?

I lost my memory in
Hollywood
I've had a million visions
bad and good
There's something in the air in Hollywood
I tried to leave it but I never could

Shine your light now
This time it's got to be good
You get it right now yeah
Cause you're in Hollywood

There's something in the air in Hollywood
I've lost my reputation
bad and good
You're riding in your car in
Hollywood
You got the top down and it feels so good

Music stations always play the same songs
I'm bored with the concept
of right and wrong

Everybody comes to
Hollywood
They wanna make it in the neighbourhood
They like the smell of it in
Hollywood
How could it hurt you when it looks so good?

Shine your light now
This time it's got to be good
You get it right now yeah
Cause you're in
Hollywood

Cause you're in
Hollywood
Cause you're in
Hollywood
In Hollywood
In Hollywood
In Hollywood

Check it out
This bird has flown

Shine your light now
This time it's got to be good
You get it right now yeah

Cause you're in Hollywood
Cause you're in Hollywood
Cause you're in Hollywood

In Hollywood
In Hollywood
In Hollywood

Push the button
Don't push the button
Trip the station
Change the channel

Push the button
Don't push the button
Trip the station
Change the channel

Push the button
Don't push the button
Trip the station
Change the channel

Push the button
Don't push the button
Trip the station
Change the channel



Nada lhe posso dar que já não exista em sim mesma. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há na sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu a ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo
(Hermann Hesse)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

NÃO HÁ ESFORÇO SEM ERRO

Foto: Olhares / Windows

...O crítico não conta absolutamente nada: tudo o que faz é apontar um dedo acusador no momento em que o forte sofre uma queda, ou na altura em que o que está a fazer algo comete um erro. O verdadeiro mérito é daquele que está na arena, com o rosto sujo de de poeira, suor e sangue, a lutar com coragem.


O verdadeiro mérito é daquele que erra, que falha, mas aos poucos vai acertando, porque não há esforço sem erro. Ele conhece o grande entusiasmo, a grande devoção, e está a gastar a sua energia em algo que vale a pena. Este é o verdadeiro homem, que na melhor das hipóteses irá conhecer a vitória e a conquista e, na pior, irá cair. Mas, mesmo na queda, é grande porque viveu com coragem e esteve acima das almas mesquinhas, que nunca conheceram vitórias nem derrotas...

* Extracto de um discurso que o presidente americano, Theodore Roosevelt, pronunciou na Sobornne, em Paris, Abril (23) de 1910

É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glórias, mesmo expondo-se a derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota.
(Theodore Roosevelt)


quarta-feira, 10 de setembro de 2008

SERÁ QUE ME VAI CAIR UM DINOSSAURO NA SOPA?

Foto: Sapo/G.Windows


Bom, então é assim (como diria o meu amigo António Macedo, o das Paixões Cruzadas, na Antena Um): dizer que conheço o Large Hadron Collider (LHC-demorou 14 anos a ser construído e 30 anos de pesquisas e é a maior máquina da Terra: a Máquina de Deus, dizem alguns. Outros, discordam), não tem nada de verdade. Não conheço mesmo mas, confesso, quando comecei a embrenhar-me nas suas vastas, vastíssimas possibilidades deste acelerador de partículas mais poderoso do mundo, fiquei presa de admiração por aquela que muitos dizem ir ser a maior experiência científica da história. Só vos digo! Isto mexe com a nossa contemporaneidade, não? É!


Começaram hoje, 10 de Setembro, os primeiros testes de funcionamento e, dentro de um mês, dizem, ele, o Large Hadron Collider- Grande Colisor de Hádrons (contou com a participação de 6 mil cientistas de 181 institutos de pesquisas, Portugal incluído, com 200 cientistas) estará a funcionar em pleno. O custo foi de 6,37 mil milhões de euros. Ups!


E o que faz ou fará? Parece ser simples para os cientistas (nem todos): pela primeira vez poderão observar-se dois feixes de protões chocando violentamente (quase à velocidade da luz-300 mil km/s) depois de acelerar ao longo de um anel de 27 quilómetros de perímetro, situado a mais de 100 metros de profundidade ao longo da fronteira entre a Suíça e a França. Para? Compreender o Big Bang (14 mil milhões de anos)! Isto é, compreender as origens do Universo (estou a lembrar-me do Regresso ao Futuro e não sei porquê! Aqui o alvo é o passado!) Hoje, o LHC deu apenas os primeiros passos. As experiências cruciais estão previstas para 2010, quando ele atingir a energia máxima para que foi concebido. E é aqui que se podem criar microscópicos buracos negros, a probabilidade mínima existe.


Esta experiência está a ser muito criticada pelos cientistas mais cépticos, que acreditam que o LHC não é mais do que uma máquina do Juízo Final, que pode destruir o Planeta. Para os reticentes, o projecto pode criar buracos negros no Universo, que, posteriormente, conseguiriam devorar a Terra. Os cientistas do CERN rejeitam a teoria e avançam: a experiência pode mudar toda a concepção que a Humanidade tem hoje acerca da formação do Universo. Infelizmente há a notícia (triste) de uma jovem indiana, de 16 anos que, hoje, com medo do fim do mundo, suicidou-se. Para o físico Stephen Hawking, o projecto que recria Big Bang não ameaça a Terra e Tara Shears, da Universidade de Liverpool, em Inglaterra diz:


-Vamos conseguir analisar a matéria mais profundamente do que jamais conseguimos. Poderemos observar do que o Universo se constituía bilionésimos de segundo depois do Big Bang.



Eu consigo calcular o movimento de corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas
[
Isaac Newton ]


domingo, 7 de setembro de 2008

ANGOLA - LIVRE, ORDEIRA, CIVILIZADA


Foto: Galeria Windows


Não estive em Angola nos dias 5 e 6, onde decorreram as eleições legislativas (as primeiras desde 1992). Aliás, não vou a Angola há anos. Por isso, reconheço que não tenho a visão in loco dos acontecimentos mas, apesar da distância, sinto-me bem documentada para falar neles. Além disso, sou portadora de um conhecimento vivido (anos) em território angolano e, por isso, não posso deixar de mostrar agora que estão contados quase 90% dos votos, a satisfação e, confesso sem rodeios, alguma admiração, pelo comportamento de 8 milhões de pessoas que, apesar de alguns contratempos logísticos, tiveram um comportamento cívico exemplar. Exemplar mesmo e ponto final. Angola é 13 vezes maior do que Portugal e soube preparar-se para o encontro com o seu povo sob a bandeira da democracia. Há que não esquecer que os angolanos não têm tarimba de votantes, esta presença maciça nas urnas foi feita com empenho, esperança e inexperiência, o que só valoriza as decisões e os comportamentos.


Como se esperava o MPLA está com maioria e, até ao momento (23:15), a seu favor, contam 81,79 dos votos. A UNITA posiciona-se em segundo lugar e, a Nova Democracia União Eleitoral (inesperadamente) ultrapassa a FNLA. Não são os resultados finais mas pouco se devem distanciar das últimas contagens, previstas para amanhã. O importante e o que se deve analisar é que estes milhões de pessoas escolheram livre, ordeira e civilizadamente e votaram no partido que, por este ou aquele motivo, consideram o mais importante para o futuro do seu país. A partir de agora têm o direito de exigir pois usaram o seu direito de cidadania, a arma que têm a seu favor: o voto depositado nas urnas.


A missão de observadores da Comunidade de Desenvolvimento dos Países da África Austral (SADC), composta por 80 observadores, esteve presente em 15 das 18 províncias de Angola (3 equipas em Luanda), declarou que as legislativas de Angola foram: livres, credíveis e pacíficas. Todavia, parece que a UNITA vai optar para impugnar as eleições, o que na opinião de analistas não é um acto reflectido que vá ajudar Angola e, obviamente, os angolanos. Mas, Isaías Samakuva, que se tem revelado um político esclarecido e conciliador, poderá deixar cair esta decisão. As horas futuras confirmarão qual o cenário que vigorará no xadrez político de Angola.


O MPLA ganhar não é, como já referi atrás, uma grande admiração. A grande percentagem, sim. É um resultado confortável para o Presidente José Eduardo dos Santos e, se por um lado o responsabiliza ainda mais frente aos destinos do seu país; por outro, pode deixá-lo resvalar para uma certa arrogância política que geralmente toca quase sempre as maiorias expressivas. Ouvi-o, via TV, dizer no Cacuaco:... o que foi feito é uma gota de água no imenso Oceano, muito mais poderá ser feito... É, portanto, chegado o tempo de combater, eficazmente, a fome, a pobreza e a corrupção. É também tempo de reconhecer que a Angola que fervilha em obras, em pó, em buracos, em trânsito, em progresso, tem o carimbo bem impresso do governo vigente. Ninguém lhe pode negar obra feita!


Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho
(Gandhi)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

UMA PAIXÃO SENSUAL

Foto: Amabilidade ARPANet

Ontem, em Sintra, foi tempo de neblina cerrada com brisas do mar e da serra, envolvendo os contornos da noite com luzes fluídas, mescladas, cruzadas com fragrâncias intemporais, fortes, inebriantes, vindas das acácias, das sequóias, magnólias, jacarandás, cameleiras. Foi uma noite de alimentar a alma. Uma noite de silêncios e de energias pairando sobre o Monte da Lua. Majestoso. Reluzente. Belo. Ontem, em Sintra, a noite foi especial.


Usei o tempo do manto cerrado de nuvens caídas para rever um filme que há anos vi no Tivoli. Sei que na altura quando as imagens finais, verdadeiramente apoteóticas, surgiram no ecrã e o final foi assinalado, não me consegui levantar. Estava sem fôlego, hipnotizada, em total deslumbramento, com tal intensidade que nunca mais tive coragem de admirar o filme de Claude Lelouch, Uns e os Outros, três horas de pura magia, rodado na Tailândia, Paris e Nova Iorque. Tenho muitos filmes especiais na minha vida que só vejo muito, mas muito, espaçadamente, para não correr o risco de os vulgarizar. O único que nunca mais vi foi esta pérola de Lelouch, que demorou 13 anos para ser concluída.


Ontem, já sem o impacto da surpresa, sem o som das grandes salas e a espectacularidade das telas imensas -era de madrugada e para não incomodar os vizinhos foi quase em surdina que voltei a escutar as belíssimas canções e a rever as coreografias fabulosas-. O filme foca a vida de quatro famílias (anos 30/80), russas, americanas, francesas e alemãs, que enfrentam os dramas da Segunda Guerra Mundial e do pós-guerra, unidas pela tragédia e pela arte. A música e a dança percorrem toda a história que sem ser verídica foi inspirada em pessoas que viveram situações idênticas. Famílias que se reúnem num final apoteótico, em Paris, num concerto de gala aos pés da Torre Eiffel, em benefício da Unicef e da Cruz Vermelha.


Quando o coreógrafo Maurício Bejart coloca em cena todo seu talento, numa longa sequência de verdadeiro delírio visual com Jorge Donn (nasceu em Buenos Aires, em 1947. Começou a dançar aos quatro anos e em 1989 foi considerado dos maiores bailarinos do mundo. Morreu com Sida, em 1992, na Suíça) a dançar o Bolero de Ravel, uma obra musical de um único movimento,
repetido cento e sessenta e nove vezes em dois compassos que lhe dão o ritmo uniforme e invariável. Composto entre Julho e Outubro de 1928, a estreia ocorreu em Paris, na Ópera Garnier. A peça causou escândalo devido à sensualidade da coreografia.


As últimas imagens de Uns e os Outros, sensuais, claro, de Jorge Donn marcam o final de um filme lindíssimo, de um invulgar requinte visual. Francis Lai, Michel Legrand garantem a imensa qualidade da banda sonora que, ainda hoje é considerada uma verdadeira preciosidade. Vivi uma noite especial com um filme que, para mim, continua a ser de paixão.


Posso resistir a tudo, menos às tentações
(Oscar Wilde)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

ENCONTRO INESPERADO

Foto: Galeria de Fotos do Windows


...Numa das intervenções o capitão Faria foi gravemente ferido. Conduzido ao Hospital de Luanda, acabou por ser submetido a uma intervenção cirúrgica, onde lhe foi amputado o pé esquerdo. A mulher foi avisada da situação e, em desespero, chegou ao hospital que, naquele momento, começou a ser alvejado por um tiroteio intenso. Conforme começou assim terminou: rápida e inesperadamente. Lídia, uma mulher de aspecto frágil (mas forte como o aço), com a preocupação da situação do marido, e fugindo ao tiroteio, acabou por entrar numa enfermaria onde todos os doentes estavam escondidos debaixo da cama, excepto um que, sentado numa cadeira, olhava o vazio. Magro, pálido, com péssimo aspecto. Lídia olhou-o com os olhos muito abertos, chegou-se ao pé dele abraçou-o e, chorando convulsivamente, disse-lhe:


- Cardoso Fernandes, o que estás a fazer aqui?


Ele não esboçou o menor gesto e não deixou de olhar o vazio. Dividida entre o ver o marido e estar com o amigo que todos julgavam morto, optou por telefonar para o quartel e contar a situação ao comandante.


-O capitão Cardoso Fernandes está na enfermaria 3 do Hospital, venha depressa porque ele está com péssimo aspecto.


Custou deixá-lo mas tinha de ir ver o marido, não sabia concretamente o que lhe tinha acontecido. Quando chegou ao quarto ele ainda estava inconsciente. O médico informou-a da amputação, mas Lídia suportou bem a notícia. O importante era estar livre de perigo. Lídia pediu ao cirurgião, que o tinha operado que a acompanhasse a outra enfermaria. O médico seguiu-a sem perceber bem a situação. Entraram, Cardoso Fernandes estava na mesma posição.


-Doutor, este homem é um militar português desaparecido em combate. Todos o julgam morto. Já avisei o comandante da Unidade da sua presença neste hospital. Por favor, o que se passa com ele?

-Temos feito tudo para descobrir a sua identidade. Quando chegou aqui vinha sem nada que o pudesse identificar. Não conseguiu superar o estado de choque. Não fala e tudo indica que sofre de amnésia. Não reage a nada, não escuta, olha mas não vê. Está aí, somente. No meio do quadro deste hospital, apesar de tudo, não é dos piores. Está, pelo menos, inteiro. Geralmente estes casos que podem levar anos ou meses, nunca se sabe. Podem acabar por se solucionar inesperadamente ou, na pior das hipóteses, ficar assim vegetativamente para toda a vida. Neste momento a situação é estacionária.


Em menos de uma hora, o comandante estava frente ao capitão e foi com custo que conseguiu manter a compostura. Aquele farrapo humano era o que restava de um dos seus melhores oficiais, dado como morto. Sentiu uma imensa alegria e uma pena terrível. Cardoso Fernandes foi transferido para Lisboa um mês depois, e durante todo esse tempo, Lídia, o marido, os colegas mais chegados revezavam-se e falavam-lhe continuamente, na esperança de serem escutados e, assim, o trazerem à realidade. Lídia foi incansável, falou-lhe da Catarina, lembrou-lhe os jantares, os passeios que tinham feito em conjunto. Lembrou-lhe as praias. Tudo! Falou horas seguidas sem se cansar, mas sem resultado.


O marido de Lídia acabou por embarcar para Lisboa no mesmo avião de Cardoso Fernandes. No Hospital Militar foram para zonas diferentes. Lídia passou a ser o ponto de contacto entre ambos e, um dia, no meio da azáfama diária, consegue ligação para casa de Catarina. A empregada diz-lhe que a senhora está fora em serviço, no estrangeiro. Dias mais tarde, decide ligar para o jornal e deixar uma mensagem e o seu número de telefone.


-Cardoso Fernandes foi encontrado. Está no Hospital Militar de Lisboa. Aguardo contacto. Urgente. Lídia...

terça-feira, 2 de setembro de 2008

NÃO DESESPEREM


Foto: Galeria Windows


Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar, se possível, judeus, o gentio, negros, brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo, não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos! A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém, perdemo-nos. A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios.


Criamos a época da velocidade, mas sentimo-nos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado pobres. Os nossos conhecimentos fizeram-nos cépticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido. A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo fora: milhões de desesperados, homens, mulheres, crianças, vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes.


Aos que me podem ouvir, digo: não desesperem! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há-de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a Liberdade nunca perecerá. Soldados! Não vos entregueis a esses brutais que vos desprezam, que vos escravizam, que arregimentam as vossas vidas, que ditam os vossos actos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão!


Não sois máquina! Homens é que são! E com o amor da Humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar, os que não se fazem amar e os inumanos! Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem, não de um só homem ou grupo de homens, mas de todos os homens! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela, de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto, em nome da Democracia, usemos desse poder, unamo-nos. Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.


É pela promessa de tais coisas que ditadores têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da Democracia, unamo-nos!

*Este discurso pertence ao filme O Grande Ditador e foi escrito por Charles Chaplin, o actor inglês que veria, em 1952, recusada a sua entrada na América. Passou a viver na Suiça. Morreu em 1977 (no dia de Natal) e está sepultado em Vevey.




Faço parte do mundo e, no entanto, ele me torna perplexo
(C.Chaplin)