Brumas de Sintra

Ponto de encontro entre a fantasia e a realidade. Alinhar de pensamentos e evocação de factos que povoam a imaginação ou a memória. Divagações nos momentos calmos e silenciosos que ajudam à concentração, no balanço dos dias que se partilham através da janela que, entretanto, se abriu para a lonjura das grandes distâncias. Sem fronteiras, nem limites

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O meu nome é Maria Elvira Bento. Gosto de olhar para o meu computador e reconhecer nele um excelente ouvinte. Simultaneamente, fidelíssimo, capaz de guardar o meu espólio e transportá-lo, seja para onde for, sempre que solicitado. http://brumasdesintra.blogspot.com e brumasdesintra.wordpress.com

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

A PAIXÃO DE HAWKING


No tempo em que dos céus de Londres (1942) caíam bombas destruidoras e as sirenes alertavam estridentemente a cidade, os abrigos enchiam-se pessoas em pânico. Nesses tempos difíceis nasceu em Oxford, a 8 de Janeiro, Stephen William Hawking, curiosamente 300 anos depois da morte do cientista italiano Galileu Galilei que, na sua época, desafiou os poderes instalados ao tentar demonstrar que a Terra não era o centro do Universo e que girava em torno do Sol.


Não se pode dizer que na infância fosse fácil admitir que o jovem seria, anos mais tarde, um astrofísico mundialmente conhecido e respeitado até por que Hawking não foi um aluno brilhante nos primeiros anos de escola (Einstein também não), chegando a ser o penúltimo da aula. Todavia, essa pontuação na escala de apreciação não impediu que aos 17 anos, na Universidade de Oxford, tivesse no final do curso de física (a ideia inicial era a matemática) uma excelente nota. É na Universidade de Cambridge que conclui o curso de física teórica, onde se viria a doutorar e a exercer. Aí passa a dar aulas e a ser o responsável pela cadeira de matemática (pertenceu a Isaac Newton) e é eleito membro honorário.


Quando em 1963 patinava no gelo, Hawking dá uma queda que o deixa imobilizado. Mais tarde, aos 21 anos, é-lhe diagnosticada uma grave e rara doença degenerativa Esclerose Lateral Amiotrófica que paralisa os músculos do corpo embora poupe as funções cerebrais. Ano após ano vai perdendo o movimento dos membros e fica sem força para manter a cabeça erguida, podendo dizer-se que a sua mobilidade é quase nula


Casa-se (em 1965) com Jane Wilde (tem três filhos e, creio, um neto) mas a união acabaria por se desfazer. Quando estava em Genebra, em 1985, teve uma severa pneumonia. Os médicos aconselharam a desligar a máquina que o mantinha vivo, mas Jane não o permitiu. Levou-o para Inglaterra e, aí, Wawking foi submetido a uma traqueotomia. Milagrosamente o cientista recuperou, mas perdeu a voz.


Em 1995, volta a contrair matrimónio com Elaine Mason, que era a sua enfermeira. Wawking apesar do seu estado, consegue conciliar a vida familiar com viagens de estudo constantes que o levam num ritmo quase alucinante pelo mundo, dando aulas, fazendo conferências, participando em debates.


A situação física torna-se difícil, capaz de deixar qualquer humano, preso a uma cadeira de rodas para sempre, sem ânimo para se interligar com a vida mas, um dos mais consagrado físicos teóricos do mundo parece redescobrir fontes de novo entusiasmo e é dito por aqueles que o rodeiam que nunca o viram expressar qualquer espécie de revolta.


Hawking tem um senso de humor invulgar e saboreia todos os segundos da sua existência. Além disso, desafia a vida destemidamente. O seu desejo, ainda não concretizável, é ir a bordo do Enterprise, talvez em 2009, mas até agora tem feito de tudo: sobrevoar um vulcão, experimentar a ausência de gravidade. E já entrou num episódio da série Star Trek, participou num disco dos Pink Floyd e participou nos Simpsons, Futurama e Padrinhos Mágicos. Absolutamente imparável. Sempre projectos, sempre viagens. Tanto está no Chile, como no Alasca, Brasil, Argentina...



Aquele que é considerado por muitos como a inteligência mais notável, depois de Einstein (Deus não joga dados com o mundo, disse um dia e Hawking argumentou: Deus não só joga dados, como os esconde). O mais famoso cosmólogo do mundo, com investigação dedicada aos mistérios dos buracos negros, gravidade quântica e teoria da relatividade tem mostrado de forma prodigiosa como sempre enfrentou a sua deficiência Não há muito tempo teve problemas de coração. mas, uma vez mais, venceu a batalha.


Apesar de se ver confinado a uma cadeira de rodas, ao movimento de dedos (durante anos), que lhe permitiu escrever estudos, livros, cujas vendas ultrapassam os 16 milhões e foram traduzidos em 40 línguas, artigos e conferências, num sofisticado computador adaptada às suas necessidades –um teclado acoplado a um computador para controlar um sintetizador de voz, através do qual podia falar-. Wawking deixa todos rendidos à sua inteligência e entusiasmo.


Com o passar dos tempos e o avançar da doença o físico acabou por perder capacidades e deixar de poder usar o computador que, anteriormente, conseguia activar manualmente. Assim, passou a usar uns óculos com um dispositivo acoplado na armação. Através da movimentação dos músculos da face, Hawking pode desviar a direcção dos raios e, assim, controlar as letras que aparecem na tela de um computador.


A novidade revelou-se eficaz pois o físico consegue com este novo sistema escrever mais rapidamente. Aos 66 anos, apesar da doença degenerativa que enfrenta há 30 anos, continua a aprofundar os seus estudos e a estar atento ao que o rodeia. Não há muito tempo, como cientista, alertou os líderes mundiais para o grave risco que seria se o mundo entrasse numa era de armas nucleares e chamou a atenção para as drásticas alterações climáticas que o futuro nos reserva e as mudanças de comportamento e atitude que devem ser tomadas urgentemente.


Os seus cálculos para 2600, alertam para o excesso de população e como é uma pessoa positiva não quer pensar na possibilidade de exterminação da humanidade por uma guerra nuclear, por exemplo. Prefere dizer que continuaremos sozinhos, evoluindo rapidamente na complexidade biológica e electrónica. Pouco acontecerá nos próximos 100 anos mas, no final do milénio (se os povos o conseguirem), a diferença entre nós e a ficção será significativa.


A vida de Stephen Hawking é tão invulgar e tão fascinante que demonstra até que ponto ele é íntimo com a sua própria vontade. Passou dificuldades financeiras em adolescente. Aceitou a sentença da doença, teve problemas em impor-se, na sua cadeira de rodas, mesmo depois de formado. Tinha tudo para desistir, mas, curiosamente, foi a partir da sentença de ficar preso a uma incapacidade física que encontrou no Universo a força para nunca desistir da poderosa intenção de viver.


O Universo inquietou-o e fascinou-o. Continua a fasciná-lo. Um Universo indecifrável sobre o qual parece não existir total compreensão sobre a sua origem, num Universo infinito ou, apenas, enorme? Eterno ou só com uma vida longa? Dúvidas que lhe povoaram a mente e as certezas O Universo está a expandir-se, diz o físico.


Criou a radiação Hawking, demonstrou evidências, lutou para as provar, fez cálculos, oscilou entre o espaço-tempo e, em cada pesquisa, o Universo continuava a provocá-lo, desafiá-lo, por entre teoremas, buracos negros, mini buracos, modelo padrão do big bang. Hawking continua a fascinar-se intensamente pelo Universo. O tempo é o movimento do pensamento, por isso o físico britânico sempre agarrou, saboreou e aproveitou a vida. Não sabe até quando mas, apesar da paixão, não tem pressa nenhuma de ir tocar no Universo.

O mundo da ciência ofereceu-lhe o asteróide 7672 Hawking

domingo, 24 de fevereiro de 2008

A AMIZADE É UM SEGREDO DA VIDA


Um escritor inglês disse que a amizade constituía um dos segredos da vida. Que vence o mais empedernido coração, desenvolve a parte mais nobre da alma e favorece a prática do bem. Desarma a resistência e abranda a natureza humana. Estas palavras avivam a necessidade de sabermos conviver com os outros. Vivemos em sociedade, não somos ilhas isoladas (não devemos ser), necessitamos de apoio e de saber cultivar a solidez da amizade, lembrando-nos que, provavelmente, os amigos de pura gema não serão tantos como os dedos das nossas mãos.


A amizade é rara e preciosa. Um amigo nunca recusa nem o abraço nem o ombro onde o outro amigo (a) necessita de apoiar-se quando o que lhe apetece é desistir. De tudo! O amigo conta sempre com o outro em tempos de desânimo, sofrimento, desespero e, quando se senta à sua frente e fala, fala, em sã cumplicidade, vai readquirindo o ânimo perdido.Costuma dizer-se que só há uma regra para o bom conversador: aprender a ouvir. E, praticada, quantas são as coisas boas que se descobrem nos diálogos-monólogos, observando quem fala, acompanhando-lhes os silêncios, decifrando as pausas, deixando-nos absorver pela linha do pensamento que é exposto, por vezes com visível satisfação pessoal por parte de quem fala; outras, com manifesta angústia pela confidência que era necessário partilhar.


Não é privilégio de muitos mas seguramente faz parte da personalidade do verdadeiro amigo, daquele que fala pouca mas que escuta atentamente. Daquele que se procura quando o dia, por isto ou por aquilo, pesa demasiado sobre as costas, como se o mundo caísse, inexplicavelmente, em cima dos ombros. Ou quando os dias não têm claridade nem tom: são, apagados, nublados, tristes, impregnados da saudade que aperta com uma nostalgia marcante. Aí, o diálogo sabe bem. Funciona como se duas mãos se estendessem na procura do tal ombro onde se quer encostar o rosto e, provavelmente, chorar. Ou não. Há lágrimas que nunca rompem os diques interiores apenas entram, silenciosamente, no ritmo da respiração.


Se o diálogo é, portanto, uma terapia particularmente eficaz, ter o amigo, a amiga (os bons ouvintes), é uma dádiva notável que deve agradecer e não se afastar. Porque o número de amigos a sério, de corpo inteiro (nem sempre presentes mas nunca ausentes), nunca abundarão. A amizade supera o mais valioso diamante que possa existir no mundo. É pedra preciosa, valiosíssima e rara. Não se vulgariza. Um mundo sem amigos é como tentar agarrar o mar dentro de um búzio ou tentar contar as estrelas que brilham, é tarefa impossível. São tentativas frustrantes que nos deixam na aridez do deserto. Sós, rodeados do nada. Há que saber viver dentro das regras do jogo que o Universo ensina e exige .

A vida é para ser compartilhada com fraternidade e merecida com entusiasmo, vencendo inibições, derrotas, traições, desencantos, desafiando o futuro. Boris Pastemark, escritor e poeta, autor do romance Doutor Jivago, é considerado um dos maiores expoentes da literatura russa contemporânea (morreu em 1960). É dele esta pergunta:

-Pode alguém controlar o seu futuro?”


E a resposta é também dele:


-Pode, independentemente do sistema em que viva, creio que em toda a parte os homens têm mais força do que nunca sobre o seu futuro”


Longe de nos sentirmos desesperançados ou impotentes, devemos agarrar qualquer oportunidade, por menor que seja, para auxiliar o mundo que nos rodeia, no sentido da paz, da produtividade e da fraternidade humana.


Estamos em 2008 e as suas palavras continuam a ser actuais. O mundo deveria parar de se fragmentar, de cessar conflitos, e reaprender a ser solidário, fraterno para que o legado dos adulto de hoje às crianças do amanhã seja uma herança positiva, sólida, sã, capaz de abrir caminhos novos e seguros.


Se cada um de nós é uma célula do infinito Universo e pertence aos mil milhões da população, é necessário no dia-a-dia contribuirmos para que passos positivo sejam dados. Se assim fizermos há triliões de passos, por segundo, em movimento, na marcha grandiosa rumo ao amanhã.


Pode controlar-se o futuro dentro de padrões há muito estipulados mas nunca devemos percorrer a estrada da vida num ritmo solitário. A família é o pilar, é a grande muralha que nos apoia nos tremendos vendavais que cortam a respiração e nas estonteantes alegrias. Os amigos, esses, estão (longe ou perto), a nosso lado sempre que os chamamos e nessa dinâmica troca de dar e receber: amizade, gratidão e o conforto do apoio que conduz à sensação de felicidade. Esta potencialidade grandiosa do sentimento humano é capaz de gerar a mais deliciosa harmonia. Connosco e com os outros.

Não rejeite um amigo. Nunca.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

SÓCRATES: DO GRITO DA VERDADE AO DO IPIRANGA


Esperei propositadamente uns dias para falar da recente entrevista, na SIC, feita ao Primeiro-ministro José Sócrates (a frio analisa-se melhor) e, reconheço, que não foi das suas mais brilhantes intervenções. Pelo tom de voz, por um visível cansaço, mais mental do que físico (provavelmente).


Também não me encantou a condução dos entrevistadores. Pela qualidade de profissionalismo que os caracteriza podiam ter feito melhor e martelar nos famigerados projectos que Sócrates assinou ou não, é irrelevante. Sobre isso o entrevistado já tinha respondido demasiadas vezes.


Falando francamente, preferia ter visto nessa noite o Primeiro-ministro, molhado até aos ossos, nas zonas afectadas pelo temporal. Se fosse em Espanha, por exemplo (já para não referenciar Nicolas Sarkozy, com ou sem Carla Bruni), lá estariam os Príncipes das Astúrias, junto aos angustiados, mostrando-lhes que estavam com eles, na hora do desespero. O povo precisa de sentir que não está só. Pouco adianta no momento, mas reconforta.


Não demorou muito tempo para que os ecos da entrevista da SIC se fizessem ouvir e se pudessem ler. Através da Rádio escutaram-se muitas, diversas e longas opiniões e, aí, lembrei-me da expressão de um determinado general romano que –parece- disse no seu tempo:

- Lá para o Sul há um povo que não se governa nem se deixa governar…


Continuamos a ser assim! Por hábito, sina ou fatalidade, não deixamos de dificultar as sucessivas governações. Gostamos das que não temos e, quando as temos, já ansiamos pelo regresso das outras. Ainda hoje somos instáveis e, no fundo, não sabemos o que queremos. Temos é de nos sentir contra. É mau. Foi mau e será péssimo se não crescermos cívica e políticamente.


Falando de José Sócrates e Cavaco Silva, penso que são a hipótese certa que Portugal tem, hoje, para conseguir enfrentar os desafios do futuro. A reacção que se está a vulgarizar dos apupos e manifestações verbais, afrontando o Primeiro-ministro, em permanente desacordo (orquestrado do exterior e, por vezes, do interior) levar-nos-á à situação de qualquer dia podermos querer eleger um Presidente da República ou Primeiro-ministro e não existir ninguém credível a querer candidatar-se. É preocupante, qualquer dia ainda corro o risco de ser convidada!!!


Tenho uma opinião sobre o futuro político das presidenciais, por volta de 2015/17 (a esta hora não consigo saber datas correctas). Depois de Durão Barroso terminar o seu segundo mandato, será um potencial candidato. O seu trabalho pode não contentar uma vasta franja de portugueses (!), mas tem conquistado pontos a nível internacional. António Guterres, muito à sua maneira, está a acumular um silêncio político amorfo mas internacional, que facilmente é convertível em prestígio, em relações internacionais que ficarão bem a um Presidente (é humanista e, isso, é bom).


Entretanto, José Sócrates terá andado pela Europa a contabilizar conhecimentos e contactos. A levar a Portugal pelo mundo fora. A engrandecer-se politicamente, a aprender o toque subtil da maciez verbal que hoje, por vezes, peremptoriamente, ainda não domina. A obra feita e a situação de Portugal poderá já ser analisada à distância e, por ela, o ex-Primeiro ministro será um fortíssimo candidato a Belém. Luís Amado, sabedor e discreto, poderá ser a grande revelação política do futuro. Ele sempre teve uma intervenção correcta, mesmo brilhante, no desempenho das suas funções. Pode dizer-se que é um ministro presidencial. Um dia, poderá ser o locatário do palácio cor-de-rosa.


E quanto a Portugal? Por entre apupos de uns, a esperança de outros e reformas governamentais, vislumbramos um Portugal forte e moderno. O que temos agora? Que terrenos pisamos? Pois bem, Portugal está a ganhar forma e a deixar marcas firmes na política internacional Europeia. Tudo o que tem feito nos últimos anos, tem corrido bem. E, entretanto, poderão surgir condições para (finalmente) se desenvolver uma estratégia de política com os Palops e, aí, ficamos definitivamente, no centro da cena internacional, à nossa escala (pequena) mas com eficiência, identidade, iniciativa e capacidade que é mais vocação que obrigação.


Portugal está num tempo em que, se não recear as sanções de Bruxelas, deve empreender passos seguros com África, por iniciativa própria, sem esperar que a política internacional Europeia se defina objectivamente. É como dar o grito de Ipiranga, como o que formou o Brasil e agora formaria a Comunidade Mundial de Língua Portuguesa que os ingleses, americanos e agora russos e chineses dispensam e fazem com que não aconteça. Bruxelas não expulsará Portugal por isso e se quisesse penalizar a iniciativa estaria a enviar uma má mensagem aos Palops e, isso, a EU não quer! África apoiaria Portugal nessa iniciativa pioneira porque seria uma forma de ganhar mais hipóteses de entrar vigorosa na EU (União Europeia).


É necessária ponderação, sapiência, estratégia, política lúcida, para o êxito do projecto. E, aí, recordo novamente Luís Amado (Ministro dos Negócios Estrangeiros), ele que tem sido também um dos pilares do sucesso nas negociações de Portugal pelo mundo, seria um interlocutor (imbatível) com África. Neste sector não esqueço Durão Barroso, é que ele é o Presidente Europeu com mais prestígio e empatia junto dos Palops, desde o seu papel estruturante em Bicesse. Nada nos falta para nos aproximarmos de África. Está tudo a indicar que o devemos fazer, até, por exemplo… a necessidade absoluta que temos de o fazer de qualquer modo.


Falei das presidenciais que ainda estão longe, da necessidade de subirmos à Montanha Alta e os portugueses darem novamente o grito de Ipiranga. E o povo? Aquele que apupa governantes, que faz greves atrás de greves, aquele que se defronta diariamente com as dificuldades? As dificuldades são reais é verdade mas os portugueses, como disse o tal general romano, são potencialmente ingovernáveis, no sentido de apatia como Nação. Falta-lhes ambição, objectivos como tem Israel, por exemplo, Singapura, Dubai ou alguns novos e bons países do Leste. Estamos tão bem arrumadinhos num canto há 900 anos que não nos habituámos a competir para sobreviver como Nação. O centro da Europa sempre teve que lutar por causa de guerras e invasões e agora com mudança de sistemas políticos e fronteiras. E nós? Estáveis e conformados.


Reconheço que tem havido uma certa fragilidade na liderança governamental: ausência de explicações em certas decisões políticas. O povo tem de reconhecer em Sócrates (eleito democraticamente) o líder que tem a noção da verdade e que a pratica na condução do País. Lembro Teixeira dos Santos (Ministro das Finanças), meio carrancudo, não dá azo a argumentos, aplica o que pensa que tem de ser feito (por acaso até é sacar-nos a massa) mas conta a verdade. Toda. Uma vez. E segue em frente.


Contar a verdade foi o que Churchill fez para não perder tempo enquanto geriu a guerra; foi o que Gandhi também fez para não perder a oportunidade de agarrar a independência; é o que Al Gore está a fazer! A abanar consciências, já que o fim do Planeta não é tão distante como pensavam os cientistas. Há que modificar hábitos e mentalidades; Mandela também o fez, contou a verdade e teve sucesso com um dos povos mais guerreiros do mundo (os Zulus, que até nem eram da sua tribo). Soube deixar para trás as mazelas de um dos regimes mais injustos onde vigorava o apartheid.


À nossa escala, Sócrates só se devia preocupar em contar a verdade política em tudo e seguir em frente. E preocupar-se somente com as verdades que moldam o nosso futuro. Os projectos? Assinou? Não assinou? Há 20 anos? Isso é polémica a uma dimensão muito pequena que não deve interferir nem seu tempo nem na sua agenda. Bastava, na altura, um comunicado breve para a Imprensa .


Tem de contar a verdade: Portugal tem de aumentar, já este ano, a produtividade laboral. Tem de dizer a verdade, a que diz que é difícil gerir os grandes interesses e ao mesmo sanear mas, se lhe derem tempo, Sócrates fará mais do que já fez e fará a diferença: a que diz que vamos continuar a pagar impostos mas que também diz que passa a ser cada vez mais visível e transparente o que se faz com esse dinheiro.


Falar a verdade e não ter medo de falhar. A sua missão é conduzir o País ao futuro. Por isso, gostava muito mais de o ter visto encharcado na zona do caos, a olhar nos olhos dos desamparados e infelizes, mesmo que tivesse de escutar desabafos desagradáveis, do que vê-lo crispado frente a dois jornalistas que se esqueceram, num programa em directo, de colocar na mesa o tema da noite: as cheias!
*Acho que devo dizer que não votei em Sócrates

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

CHOVE EM LISBOA


Bastaram umas horas de chuva intensa (superior à precipitação de todo um Fevereiro normal) numa madrugada que não se esperava tão agreste, embora se soubesse ir ser molhada, segundo os boletins emitidos pelo Serviço de Meteorologia, para que a Grande Lisboa e os distritos de Santarém e Setúbal ficassem num caos medonho.

As consequências foram dramáticas, assinalando-se até agora a perda de uma vida, o desaparecimento de uma pessoa, na zona de Belas, 2000 mil participações de ocorrências, a presença de 2200 bombeiros ajudados por 900 viaturas e um helicóptero. Largas dezenas de desalojados, deslocados, prejuízos materiais ainda por contabilizar, sem falar do pânico e do desalento daqueles que sofreram as consequências de tal intempérie


No filme África Minha (uma jóia de Sydney Pollack), há uma parte em que Meryl Streep, que encarna na tela a personagem da escritora dinamarquesa Karen Blixten, na sua angustiada aventura (no Quénia) com a plantação de café (criada pelo marido sem o seu consentimento) que, desde o início, tinha tudo para não ter um resultado brilhante, derivado à escassez de água na zona e à altitude em que fora plantado.


Tentando salvar esse investimento onde fora aplicado todo o seu dinheiro, Karen faz de tudo o que humanamente é possível, pensando triunfar contrariando a Natureza. Com a ajuda dos muitos empregados da fazenda, consegue ter uma reserva -uma espécie de lago artificial- com água desviada de um rio próximo.


Durante uns tempos a plantação é regada e, no seu tempo, os bagos de café começam a formar-se. Tudo parecia correr bem até uma madrugada em que a reserva de água, desviada do seu curso se revolta e salta vencendo (sem esforço) a barreira de sacos, pedras e areia que a aprisionava. Todos lutavam para travar essa fúria da Natureza mas aí, completamente esgotada, Karem põe um pé sobre uma rocha e, encharcada, exausta, diz:


-Chega. Parem. Não adianta


Derrotada, olha para a água rebelde que quebra todas as barreiras e, vitoriosa, sai (saudosa) ao encontro de um leito que lhe pertence.


- Esta água nunca deixou de viver em Mombaça!


Assim é Lisboa! Aprisiona o curso das águas debaixo de cimento, de alcatrão. Não quer respeitar-lhe nem a força nem o direito e, o resultado é idêntico ao das águas que a baronesa Karen não conseguiu prender na sua fazenda em África, no sopé das montanhas Ngongo. É assim em todo o Globo! Não há ninguém neste pequeno ponto flutuando no Universo que consiga vencer a Natureza.


A 26 de Julho de 1985 entrevistei para a revista “Mais” (de Carlos Cruz), o arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles. A extinção do Ministério da Qualidade de Vida era recente e o seu ex-ministro considerou, na altura, ser uma vitória para determinados empórios.


- O contra-poder que exercia, disse Ribeiro Teles, não interessava aos grandes negócios de betão, da construção civil, da celulose. Era a “voz” da consciência que se tornava urgente abafar. Foi um Ministério que começou a afirmar-se em diversos campos onde o País estava numa situação de autêntico caos que permitia toda a especulação com o solo urbano.


Foram horas de um diálogo interessantíssimo, em 1985. Já lá vão 25 anos e, hoje, ao reler o trabalho reconheci-lhe actualidade. Diversos temas foram abordados e, por exemplo, quando lhe perguntei sobre a criação da Reserva Agrícola Nacional, disse:


-Protege os melhores solos agrícolas e não permite que eles tenham outro uso que não o da agricultura. Foi uma lei muito positiva e evitou graves desastres ao País. Claro que nem sempre foi cumprida, muitas vezes foi torpedeada, mas existia e, era preciso acabar com ela…


Falou da sua luta em tentar organizar o sistema hídrico das linhas de água e do supremo interesse dos Serviços Hidráulicos em apenas fazer obras hidráulicas e não se interessar pela regularização desses cursos de água.


Falou da desertificação das povoações que se iria verificar daí a 20 anos (acertou em cheio). Apontou para a futura ameaça às paisagens protegidas e, sobre Lisboa, fez reparo ás torres que despontavam quando a Europa estava a adoptar outro tipo de construção e lembrou o relatório que a Alemanha tinha publicado, lembrando os efeitos negativos para quem habita para lá do sétimo andar.


Não esqueceu de referenciar o perigo das construções feitas sobre os cursos de água. Da gravidade que se estava a fazer na Baixa de Lisboa, impermeabilizando as terras, com lojas, garagens, túneis. A falta de espaços verdes.

-Não deixam respirar as terras, repetia frequentemente.


Falou muito e, claro, falou bem. O arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles é, ainda hoje, um expert na matéria e sobre o temporal da madrugada que se abriu impiedosamente sobre a Grande Lisboa, Santarém e Setúbal não sei se dirá, mas é capaz de pensar:


-Com tanta asneira repetida, ano após ano, quando chove invulgarmente, esperam o quê?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

TRÊS PRESIDENTES NA CASA BRANCA


Tenho um amigo que, passados anos, ainda mantêm intacto o prazer de relembrar a sua dinâmica, creio, passagem por umas eleições presidenciais americanas. Devem ter sido mesmo muito marcantes e emotivas já que ele vibra sempre que recorda o acontecimento.


Não garanto (e como não sei por qual dos continentes anda, não posso confirmar agora) mas creio que pertenceu à equipa do republicano Richard Nixon, advogado, oriundo da Califórnia, que viria a ser o 37º presidente dos EUA ( 1969/ 1974).


Curiosamente dos 43 presidentes já eleitos (o primeiro -1789 / 1797- foi George Washington, um fazendeiro e militar da Virgínia), Nixon foi o único que renunciou ao cargo, após o Caso Watergate, abrindo caminho a Gerald Ford (1974/1979), um republicano do Nebraska e, tal como ele, Andrew Jackson (1829 /1837), Harry Truman (1945 /1953) e Ronald Reagan (1981/1989) foi vítima de atentado.


Imagino que na Patagónia ou em Katmandu esse meu amigo deve estar em alerta vermelho. È! Sempre que surgem novas eleições nos EUA ele volta furiosamente às notícias, previsões, intuições. Faz gráficos, devora as biografias, compara os candidatos mi-nu-cio-sa-men-te e sofre como gente grande. E a 4 de Novembro, quando 200 milhões de eleitores votarem na escolha presidencial (é muito confusa a forma de eleição, passa pelos delegados ligados aos partidos), ele vai roer as unhas até ao cotovelo. Seguríssimo.


Vá lá saber-se porquê se nem sequer tem nacionalidade americana (se o fosse, tivesse 35 anos e vivesse há mais de 14 anos no país, podia candidatar-se… ). Só pode ter sido das noitadas frente às televisões, das sondagens, dos quilómetros de páginas escritas, das frenéticas viagens, dos garrafões de coca- cola, de litros de café (que detestava) . Acho que não tinha tempo para comer, dormir, tomar banho, mas sempre ia dizendo que na sede, nos comícios, havia uma louras de parar o trânsito.


Por isso, tenho muita pena que ele não esteja em Portugal assim, não tenho horas garantidas de acesas discussões. Mas como o tema me interessa vou falar nele, salvaguardando que não sou, nem de perto nem de longe, uma expert na matéria. Curiosa e estudiosa. Apenas isso.


No momento, o que de início parecia impossível, Hillary Clinton (primeira dama dos Estados Unidos de 1993/2001) não está desafogadamente sorridente nas tabelas das preferências do eleitorado. Pelo contrário, quem sorri (abertamente) é o inesperado senador do Illinois de nome Barack Obama que nos discursos (muito bem escritos por um jovem de 26 anos, cujo nome não recordo neste momento), distribui empatia pela assistência, onde os jovens estão a ser o seu grande e inesperado trunfo, tal como a sua frontal oposição à guerra do Iraque que quer ver terminada.


Hillary, por seu lado, apoiou Bush na invasão e agora sente o peso desse calcanhar de Aquiles que lhe cobra dividendos, embora a candidata faça questão de deixar bem vincada a ideia de que quer trazer para casa o mais rapidamente possível as forças estacionadas no Iraque. Este facto é, sem dúvida, uma fragilidade (que alguns na época, mal informados e com boas intençõs, caíram).


O desfecho de 4 de Novembro é imprevisível, penso que estas eleições para a Presidência da América são as mais complicadas e confusas dos últimos tempos e, em minha opinião, o jogo está assim no tabuleiro:


-Metade da América não quer Hillary (inteligente, forte, segura) que, à partida, não esperava tão alto nível de rejeição por parte dos americanos.

-A outra metade não quer Obama (jovem, visionário, carismático e excelente orador), que surpreendeu pela positiva, apoiado por uma campanha estonteante e conquistando apoiantes de peso, em sectores diversos.

-O republicano e herói de guerra John McCain (o mais idoso candidato à Presidência, ultrapassando mesmo Reagan), defende a continuação das tropas americanas no Iraque e tem a “bênção” de Bush (os americanos estão saturadas da sua Administração),
mantêm a esperança de vencer os democratas.


Até agora o inesperado brilho de Obama tem ofuscado Hillary, mas tanto um como outro têm trunfos na manga, traduzidos também nos dólares angariados para as campanhas e, também aí Obama, no momento, conseguiu mais contribuições do que a sua rival.

Mas as eleições americanas são um mundo! Nos bastidores tecem-se acordos de última hora, “cobram-se” lealdades, lembram-se promessas, há verdadeiras maratonas nos corredores que levarão um dos candidatos à Casa Branca.


Serão duas personalidades distintas na corrida presidencial: a de Hillary Clinton e Barack Obama. Apesar dos americanos estarem fartos de “dinastias” por capricho dos deuses ou voltas do destino, Bill Clinton será o primeiro-cavalheiro da América, Barack Obama vice-presidente (um dia será presidente) e Hillary Clinton, a presidente.

Antevisionando 4 de Novembro de 2008, recordo o 4 de Julho de 1776 onde 56 homens assinaram a Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, em Filadélfia e, para celebrarem o acontecimento brindaram com Vinho da Madeira.



Na altura, brindarei. O Mundo precisa de três presidentes na Casa Branca, os estragos foram demasiados.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

PERFEITA...PERFEITA


Tentar, pode, mas não adianta e, se pensar que será capaz um dia de agradar a todos, acabará desiludida. Mesmo que seja um modelo de virtudes; mesmo que entenda o sorrir do Universo e seja francamente tolerante, altruísta, generosa; mesmo que saiba de cor a vida e a obra de Madre Teresa de Calcutá e se emocione verdadeiramente com a descompostura dos acontecimentos que grassam no mundo e chegue ao ponto de chorar, frente aos noticiários que entram em sua casa e lhe agridem o coração e a sensibilidade.

Mesmo que domine a Teoria da Evolução de Darwin ( fascinante, actual e polémica) e seja uma curiosa permanente pela vida de Newton, Einstein, Lincoln. Mesmo que se emocione e se transcenda frente ao quadro de Dali -Cristo na Cruz- e sinta que a poesia de Florbela a eleva espiritualmente e a deixa a pairar noutras dimensões existenciais.

Mesmo que admire até à exaustão os voluntários, sempre presentes quando os infortúnios acontecem, em qualquer parte do Globo ou ao ao virar da esquina mais próxima, numa instituição que abre as mãos aos desprotegidos da sorte, em gesto de acolhimento, dizendo-lhes sem palavras: vocês, não estão sós.

Mesmo que se deslumbre quando se lembra que tudo começou com o pó das estrelas e dez mil biliões de biliões de átomos e seja uma acérrima defensora dos Direitos dos Homens, das Crianças e dos Animais. Mesmo que seja um sumatório positivo de inegáveis qualidades: trabalhadora, séria, fidelíssima, sempre pronta a ajudar, sem esquecer de sorrir, de cumprimentar, de agradecer.

Mesmo que faça bem e com gosto a reciclagem e troque as lâmpadas antigas pelas de baixo consumo. Mesmo que se esgantanhe toda para ajudar a marcha do mundo a tapar o buraco do ozono e contribua para a continuação viva da Amazónia e para instituições de solidariedade, além de ter os impostos em dia e uma árvore com o seu nome, na reflorestação do Gerês, seja madrinha de uma águia e esteja a pensar em defender as éguas da serra da Malcata.

Mesmo que humanamente não possa ser mais autêntica, mais perfeita (perfeita...perfeita), amiga, não vai conseguir agradar a todos!

Esopo, há 2500 anos, numa das suas fábulas escrevia essa impossibilidade, através de "O Velho, o Filho e o Burro". Ingenuamente tentaram, para não chocar a moral alheia, seguir as instruções que cada um, conforme iam passando, sugeria. Sem resultado, não conseguiram encontrar a solução que contentasse todos. Cada cabeça, sua sentença.

Mas que isso não seja impedimento para ser cada vez mais perfeita(perfeita...perfeita). O importante é que a sua conduta esteja dentro dos padrões e dos códigos de valores que a sua consciência aprova. Não se atire ao mundo para ganhar a guerra, conquiste (por vezes) uma batalha e já está a ser uma boa cidadã universal.

Acima de tudo e de todos, viver é um acto de amor. Assim, é uma exigência de tolerância.

Entender, aceitar, os que por defeito ou feitio estão sempre contra tudo e contra todos, demonstra da sua parte elevação de carácter. De amor pelo próximo. E já que que estamos no tema, lembre-se que está a chegar o Dia de São Valentim (gostava que fosse de Santo António). Apesar de termos um santo casamenteiro, nosso, disputado aguerridamente pelos italianos, cada vez mais o São Valentim, que não deve ter culpa nenhuma, surge em todo o mundo, é verdade, com uma força comercial tremenda.

Se os comerciantes, que já tiveram melhores dias, melhores vendas, aplaudem entusiasticamente a ideia e as montras são autênticos corações palpitantes, gorduchos e vermelhos, estas comemorações para a igreja católica não são tão relevantes.

Como começou a tradição? Não se sabe bem. Para os anglo-saxónicos a festa é antiga (nos Estados Unidos apareceu nos finais do século XVIII), embora os britânicos já no século XVII a festejassem. Na Itália, no ano 230, o bispo Valentim pode ter sido a origem desta onda, mas a França "culpa" os Vikings pelas primeiras trocas de prendas entre os namorados. Seria?

Importante é o amor. Se ele ocasionar sensações de alegria e afecto, materializado numa prenda, é ouro sobre azul. Mas, mais do que o valor do presente é a ideia de dar, de partilhar emoções -num dia que os homens decidiram marcar no calendário para falar de namorados- que enaltece a capacidade sentimental.

Siga a tradição. Sinta amor ao receber uma rosa vermelha ou quando der o tal anel há tanto tempo desejado. Sinta como a vida pode ser simples e empolgante.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

RECORDAÇÕES DE TORONTO


Já se passaram anos, mas ainda recordo a minha chegada a Toronto (Canadá). A viagem tinha sido boa mas extenuante, dada às muitas horas de voo. Quando o comandante avisa que estamos quase a aterrar e o blá blá do costume: temperatura, não fumar, altitude, etc. apertei o cinto e preparei-me para chegar a uma terra que desconhecia por completo e para onde ia carregada de ilusões.

E -é importante este ponto- quando aquela fortaleza voadora (tinha dois andares), dá uma curva (que eu pensei ser a última da minha vida) fiquei pregada ao vidro da janela. Num rompante, surge perante o meu campo visual uma imensidão de luz, com tal intensidade e extensão que me deixou sufocada. Não conseguia respirar. Lembro-me de olhar, cá para baixo, para o brilhar de Toronto e quase desmaiar. Foi uma sensação invulgar que me apanhou completamente de surpresa. Nunca tinha visto tanta luz junta.

Desembarquei em piloto automático, estilo robot. Só me viria a refazer horas depois, já que deixar o aeroporto de Toronto e entrar na cidade, não era fácil. Havia que passar pela polícia de controle e, isso, demorou uma eternidade. Muitos dos portugueses que iam no avião nem chegarem a pisar terras do Canadá. Ficaram no aeroporto e embarcaram novamente para Lisboa, provavelmente por questões de papéis.

Quando saí do pequeno gabinete onde decorreu a entrevista com a polícia de emigração, transpirava. Pareceu-me ter lá estado anos! Cá fora, enquanto tentava descobrir as malas, assisti a episódios que hoje me fazem sorrir mas, na altura, estava demasiada nervosa para sentir fosse o que fosse: um senhor, já com alguma idade, português, do norte, tentava convencer na alfândega a passar um presunto e um garrafão de vinho. Ele falava português, eles, claro, inglês, e o caso resolveu-se depois de muito gesticular do português e da determinação dos funcionários. O presunto e o garrafão ficaram retidos, para grande tristeza do compatriota que não se cansava de lamentar o sucedido.

Quando peguei nas malas e segui as indicações para a saída -ainda estou a ver a porta envidraçada que se abriu automaticamente assim que ultrapassei o tapete. Num ápice, o quentinho do aeroporto foi trocado por um frio tão cortante e tão intenso que não me deixou (novamente) respirar. Engasguei-me, tossi, fiquei com os olhos a chorar. Uma lástima. Tudo pelos muitos graus abaixo de zero que se faziam sentir numa tempestada como já não havia há 50 anos no Canadá. Resumindo, foi uma entrada inesquecível.

Com o passar dos dias fui-me habituando a viver num excelente país, com uma boa estrutura social. Depressa conheci a Rua Augusta que era, como o nome indica uma rua só de comércio mas todo ele português. Que bálsamo, senti-me em casa. Quando se é emigrante tem-se saudades de tudo: do bacalhau, do café, da sopa, até das torradas. Passear por ela era regressar a Portugal. Era falar português, conhecer e dar-se a conhecer.

-Vim há uma semana de Lisboa -dizia, um pouco deslocada

-Já cá estou há 18 anos, respondia a dona da peixaria que mostrava todo o orgulho nos seus produtos portugueses

-Vai gostar disto, mas as saudades vão apertar, acrescentou

-Prepare-se, vai estar com um pé cá e outro lá. É sempre assim nos primeiros tempos.

Todavia, seria na Dundas, uma extensa avenida, transversal à Rua Augusta, que viria a conhecer um café que me marcou profundamente. Era frequentado por muitos portugueses. O café era horrível, eu bebia-o com natas ou leite, parecia-me impossível fazê-lo de outra maneira. Ali, o sucesso de vendas era uma espécie de aguardente branca ou, então, uísque.

Lentamente, comecei a reparar que a maioria dos clientes era homens e que quase todos ficavam encostados ao balcão, a beber e a pensar. Não falavam. De olhares fixos e perdidos no vazio, certamente nem viam a parede branca que estava à frente. A situação intrigou-me e sempre que lá ia, tentava analisar o comportamento de pessoas que me pareciam muito sofridas. Seria pela saudade? Mas, tão doloroso, assim?

Soube, mais tarde, que eram portugueses quase todos vindos de África, que estavam a sentir grandes dificuldades em esquecer a vida que tinham deixado na terra onde gostariam de ter continuado. Era grande a dificuldade com que exerciam as suas novas funções. Comecei a reparar-lhes nas mãos gretadas pelo frio, mal tratadas, quase em ferida, pelos trabalhos duros que executavam debaixo de temperaturas agrestes.


Muitos estavam na construção civil; outros, eram empregados em h0téis onde faziam de tudo, desde o lavar pratos a canalizadores. Outros, ainda, preparavam-se para ir para o oleoduto, no Alasca, e afogavam o medo e a tristeza nos copos de aguardente.

Um dia, já menos vulnerável à situação (na vida habituamo-nos a tudo), reparei num senhor com bom aspecto, até se podia dizer bem vestido, que cumpriu o ritual do chegar, cumprimentar, pedir, beber e ficar encostado ao balcão. Ficou e, passado pouco tempo tão lentamente como bebia o líquido branco do copo, começaram a cair-lhe pelo rosto lágrimas que não conseguiu controlar. Acabou por chorar convulsivamente, dobrado sobre si próprio. Tão convulsivamente que foi levado para o hospital.

Vim a saber que era um ex-gerente de um banco em Angola que tentou o Canadá, mas a adaptação estava a ser difícil. Ganhava pouco, o trabalho era duríssimo e ele sentia-se totalmente desajustado. Dias antes um outro português tinha-o encontrado nesse mesmo café e falou-lhe de uma possibilidade de trabalho que podia dar uns dólares extra: ser figurante num programa de televisão.

O trabalho consistiu em vestir-se de palhaço, pintar a cara e colocar com um enorme nariz vermelho. Tinha de enfiar a cabeça num buraco redondo de um painel florido. Uns outros figurantes tinham por missão de atirarem bolas de algodão que ao acertarem no nariz vermelho do palhaço, faziam acender uma luz no painel de flores.

Foi a gota de água que fez transbordar o copo, do seu conceito de dignidade.


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O QUE É UM MENINO?


Por muito que pense e se decida a responder desculpe-me, mas por mais inspirado que seja, seguramente, não vai rivalizar com Alan Beck que, deliciosamente, se pronunciou sobre o tema. Duvida? Então leia. Saboreie (calmamente) esta delícia.

Os meninos surgem em tamanhos, cores e pesos sortidos. São encontrados em vários locais: em cima, em baixo, dentro, subindo, balançando, caindo, correndo ou pulando. As mães adoram-nos, as meninas pequenas, nem sempre, as irmãs e irmãos mais velhos, toleram-nos. Os adultos, por vezes, ignoram-nos e o Céu protege-os.

O menino é a Verdade, às vezes com a cara suja, a Sabedoria com os cabelos desgrenhados e a Esperança no futuro com cinco tostões no bolso. O menino tem o apetite de um cavalo, a capacidade de digestão de um faquir, a energia de uma bomba atómica de bolso, a curiosidade de um gato, os pulmões de um ditador, a imaginação de Beethoven, a timidez de uma violeta, a brusquidão de uma armadilha, o entusiasmo de guarda-redes e, quando faz alguma coisa, fá-lo como se tivesse cinco polegares em cada mão.

O menino gosta de sorvete, farturas, algodão doce, Natal e histórias aos quadradinhos. Gosta do menino da casa da frente, de pedaços de pau, de água por todos os lados, de girafas, do Pai, de eléctricos, dos sábados e dos carros de bombeiros.


Não gosta muito das aulas de catecismo, nem da escola, dos livros sem bonecos, das lições de música, dos barbeiros nem das gravatas, meninas, casacos adultos nem na hora de dormir.

Com o passar dos anos o menino acabará por ser o que se levanta mais cedo da mesa do jantar e será o que a ela chega mais tarde. O menino é uma criatura dotada de poderes mágicos –podemos fechar o escritório para ele não entrar, mas não o conseguimos impedir que ele entre nos nossos corações-.


Podemos corrê-lo da sala de visitas, mas não o conseguiremos afastar do pensamento. E, para falar com sinceridade, já é altura de confirmar que ele é o nosso patrão, guarda, chefe, o “manda-chuva”.

Esse pedaço de gente, barulhento, de cara sardenta (ou não), mas com uma maneira tão doce de olhar. Quando se chega a casa, à noite, carregando os destroços de sonhos e esperanças, ele consegue juntar todas essas partes com duas palavras mágicas:

-Olá, mamã!

BOLAMA, A DIVINA


Bolama, uma ilha aconchegante que chegou a ser capital da Guiné, tinha uma beleza natural absolutamente exuberante embora a degradação nos edifícios fosse quase desoladora. O hotel era provavelmente o imóvel mais bonito, quase majestoso, apesar do branco já farrusco pelo tempo e pela intensa humidade do clima deixar marcas implacáveis na pintura que, no original, deveria ser belíssima. Foi para lá que Catarina se dirigiu.

O proprietário, o senhor Patrício, de rosto simpático e sorridente, veio amistosamente ao seu encontro, recebendo-a na zona da esplanada por onde se espalhavam umas bonitas mesas redondas de ferro caprichosamente trabalhado.

- Boa tarde, é bom vê-la. Deduzo que seja a nova hóspede. Sei que é jornalista e veio de Angola. Isso é que é vontade de andar metida em confusões, quem diria? Logo a senhora que tem cara de anjo!


- Boa tarde, não se fie nisso. -respondeu Catarina, sorridente.
É a primeira vez que venho a Bolama, mas já estive há dois anos em Bissau. Embora esteja calor parece-me que o clima aqui é diferente do da capital. Mais suave, não?

- Ah! Sim. Bolama tem realmente dos melhores climas da Guiné, e foi uma cidade linda. Com movimento. Esta avenida que vai dar ao rio era, depois de o calor abrandar ponto de encontro e de passeio. Havia cinema, boas lojas. Enfim, tinha a vida das capitais e este hotel estava sempre cheio. Até andaram cá os americanos que descobriram petróleo, mas os militares são agora os únicos que ainda dão algum movimento a isto. Tirando os que estão de passagem, as caras são sempre as mesmas. O que se ouve é o constante martelar nos caixotes de quem se prepara para partir. Ninguém quer ficar aqui. É terra para abandonadar. Não para esquecer, repare. Para abandonar, pelas circunstâncias, claro.

- Partem por medo? -perguntou Catarina interessada no diálogo espontâneo com o dono do hotel.

- Sim, por medo claro, mas também por desencanto. Deixaram de haver metas para alcançar. Não há futuro, o nosso tempo terminou. Estão a abrir-se novos ciclos. Sabe, acho que eles têm direito à sua terra.

- Eles quem?- pergunta Catarina

- Os negros. Esta terra é deles! Só que no dia em que a tiverem na mão, não estão preparados para isso, vão sofrer. Mas ganharam a sua causa e o ideal por que lutaram. Todavia, lembrarão com saudade os portugueses, passem os anos que passarem. Nós nunca esqueceremos África, mas eles também nunca se esquecerão de nós, garanto-lhe eu que vivo aqui há décadas.

- Mas matam-nos! -disse Catarina

- E nós a eles? -perguntou o senhor Patrício

-
Tem razão, é a guerra! Ela nunca é feita por aqueles que andam nas linhas da frente. Esses são os puros, dão a vida por uma causa, defendem a Pátria, a Bandeira, mas ninguém lhes pergunta se concordam ou não com o conflito onde os integram. Não querem morrer, e para isso aprendem as leis da sobrevivência. Já vi tanta coisa na guerra que chego a pensar que se esquecem de que há o outro lado: a paz. E, paradoxalmente, os combatentes, um e de outro lado, anseiam por ela minuto a minuto.

-
Concordo consigo. Sonha-se com a paz, com razão. Todos estamos saturados de guerra. Sabe quem está atrás de si?

- Sei, é o Magna, disseram-me no quartel, vai ser o meu ajudante, responde Catarina com naturalidade.

-
Tem sorte, ele é um bom homem, mas diz-se que é o chefes dos Balantas.

- Isso quer dizer o quê?! pergunta Catarina admirada.

- Não vê? Está nas fileiras do Exército português, mas tem poder entre o seu povo.

Catarina, escutava-o com atenção

Repare -disse o senhor Patrício-
, convivemos com eles, vivem os dias a nosso lado, dentro das nossas casas e sabemos que têm metas, sonhos e ideais para conquistar diferentes dos nossos e, curioso, somos amigos. Aqui não há racismo e, exceptuando casos aberrantes, o português dá-se muito bem com o guineense. Eu sou pela liberdade dos povos, mas acho que ela deve ser dada quando estiverem criadas as condições para isso. E, a verdade, é que, em 1963, ainda não estão.

A independência é inevitável. Ela chegará e, com essa nova situação, surgirão os problemas do crescimento, de aprendizagem da democracia. Novas lutas, novas realidades, mas dentro de largos anos serão os portugueses os conciliadores, os intermediários da concórdia.

- Pode ser. diz Catarina. Só que a herança de parte a parte é dura. Choram-se já tantas vidas por viver. Quando um dia for assinada a paz, não vão chegar nem os dias nem as noites para esquecer realidades que nos envergonham como humanos. Acha que posso confiar no Magna?

- Pode. Um Balanta é leal, disse o senhor Patrício

-
Não me mata?

-
Claro que não, mas mandaria matá-la se isso fosse necessário para a sua luta. Confie, ele daria a vida por si, se ela corresse perigo, em qualquer outra circunstância.

Catarina olhou Magna e pareceu-lhe sentir que ele tinha percebido o diálogo.

-
Magna, vamos. Por favor, ajuda-me a levar as malas para cima.

- Sim, senhora.

Naquele momento nenhum dos dois podia imaginar que entre eles nasceria profunda admiração e respeito. Magna, provou ser leal e corajoso e, Catarina, demonstrou admirar-lhe a lealdade e o carácter.



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

O 2008, GANHA-SE AGORA!


O jogo particular de preparação para o Europeu colocou no relvado do estádio de Zurique a Selecção de Portugal (vice-campeões) e a Itália (campeões do mundo). Luiz Filipe Scolari e Roberto Donadoni foram os seleccionares que nos respectivos bancos torceram, logicamente, pela vitória dos seus jogadores.

Pela parte do italiano havia –seguramente- uma certa tranquilidade (os peritos na matéria dizem que a equipa de Itália é impiedosa e matreira. Parece que sim e confirmam-no sempre que podem) já que a equipa adversária era trintona no jejum de vitórias frente à sua squadra azzurra. E no jejum continuou a Equipa das Quinas, graças aos três (irritantes) golos que sofreu, apesar da saborosa réplica de Ricardo Quaresma, o internacional jogador do FC do Porto

Por parte de Scolari a tarefa era muito dura. Não se tratava de ganhar o jogo –o problema está rigorosamente aí- era quebrar a sina de 31 anos de jejum! Há 31 anos que não ganhamos aos italianos.!!! Podia ser uma vergonha, mas não é. A espécie de maldição é consequência de um bloqueio mental que envolve todos: Jogadores, treinador, adeptos presentes no estádio e em todos os cantos do Globo. São eles, em conjunto, que também decidem os resultados negativos ou positivos dos desafios. Por isso, os adeptos, são muito bem definidos como o 14º jogador (ou 12º? Não sei!)

Eu, que sou uma verdadeira naba (nota-se) em questões de futebol (gosto da Selecção Nacional), quando me lembrava do encontro na Suiça, apesar de amigável, só recordava a frase: Há 31 anos que não ganhamos. Assim, eu também fui uma das que, involuntariamente, contribuí para a derrota. Como? Não liguei como devia ao acontecimento e, colei-me aos largos milhares que pensaram da mesma forma e, tal como eles, ajudei a atrair a fragilidade que nos ameaçava como sentença fatal: não ganhamos…

Os jogos não se ganham só nos estádios, ganham-se anos antes (cuidado com o 2008 que está quase a arrancar), através de uma mente colectiva direccionada para resultados positivos. Por isso, fiquei preocupada quando Cristiano Ronaldo, há dias, numa conferência de imprensa ou numa entrevista, não sei bem, disse: Não pensem que vou estar no Euro como estou neste momento. Vou já ter muitos jogos em cima, estarei mais cansado do que estou agora no Manchester.


Então, assim será! O Ronaldo que iremos ter no 2008 (se mantiver o mesmo quadro de mentalização) não mostrará a sua habitual e exuberante forma! Sem uma mente arrumada, não há pernas e pés fabulosos... Ele estará como pensa que vai estar! Aliás,Cristiano é um excelente exemplo para demonstrar a força do querer e a capacidade de pensar positivamente. A sua vida é transparente nessa defesa: Começou muito cedo a descobrir a paixão de jogar e nunca se distanciou da meta que sonhou e escolheu.

Ser jogador e ser bom, pensava assim ainda menino e, aos 23 anos, talvez o melhor do mundo, continua a trilhar a linha que escolheu em terras da Madeira. Hoje, trabalha, trabalha, trabalha, como se estivesse no início de carreira. Esse é o seu segredo. Programa-se para ser o melhor. E, quando o for, oficialmente, trabalhará para ser o melhor dos melhores.

A nossa brilhante participação no Euro 2004, não teria sido tão vibrante se não tivesse existido uma coesão nacional que se levantou entusiasticamente em torno da sua equipa (nunca esquecerei a imagem do autocarro da Selecção, na ponte Vasco da Gama, com milhares de pessoas no percurso e até os barcos no Tejo diziam: Estamos convosco).

Só esse clima de entrega total consegue neutralizar a corrente contrária que os adversários e as suas torcidas projectam, bastando para isso reclamarem, mentalmente, a vitória. Há como que um duelo de vibrações que será ganho pelo lado mais forte e mais unido. Fácil!

Como? Vejamos: tudo no Universo é dinâmico. O pensamento de uma pessoa gera energia, é uma força magnética. O pensamento de milhares, milhões, focalizado no mesmo ponto torna-se num poderosíssimo íman e força de energia, capaz de obter resultados verdadeiramente surpreendentes. (Aplica-se a tudo e até Portugal seria diferente se os portugueses mudassem –urgentemente- de mentalidade e deixassem de ser desmotivados, apáticos, tristes, derrotados, infelizes).

Os analistas dizem que os primeiros 45 minutos da exibição dos portugueses foi soberba mas o primeiro golo, quase no final do tempo foi um copo de água fria. A segunda parte já foi má e, aos 4 minutos, outro golo. Teve o efeito de um jarro com cubos de gelo e acabou com a nossa equipa. Quando Quaresma marca o golo, passados minutos, não sei se o Pirlo, concretiza nova marcação dos italianos, sentimos que só um grande reviravolta nos tornaria vencedores.

A saída de Deco fragilizou a posição do Ronaldo que teve no guarda-redes, Amélia (será que estou enganada no nome?), um irritante opositor já que defendeu bem e várias vezes (demasiadas vezes). Ricardo não esteve nos seus dias. O nosso meio campo foi frequentemente confuso e Portugal jogou em desespero, perdeu ligações, esgotou-se. Foi uma partida com boa arbitragem mas se fosse um encontro oficial poderiam, talvez, ter sido mostrados 2 cartões amarelos.

Resumindo, como disse o capitão Ronaldo: Há que aprender com os erros. Scolari prometeu dar no 2008, aos emigrantes portugueses, na Suiça (excelentes torcedores da Selecção), razões para ficarem mais felizes: Bons resultados. Também reconheceu que: Foi uma vitória justa de Itália e, pausadamente, acrescentou: Falhámos em todos os sentidos...

Ele sabe que sim. Mas, nós (o povo), podemos ajudar!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

HOJE, MANDO EU!



“Qualquer coisa que for capaz de fazer, ou que sonhe que é capaz, comece-a. A coragem traz consigo génio, poder e magia”. Se pensa assim, parabéns. Quem quer, quando quer, seja aquilo que for, já tem grande parte das possibilidades conquistadas porque a força de vontade desafia lógicas e correntes filosóficas; entra no campo dos mistérios, das ilusões, provoca hipóteses, desmistifica fantasias e não sucumbe facilmente (não é cereja no bolo…) perante as dificuldades.

Está mesmo disposta a vencer? Sente o fogo interior que a deixa desafiadora perante o medo (por vezes pânico) como se fosse uma corrente contínua que a dinamiza no cenário em que se move? Bom, a isso chama-se ânimo: ensina-a a enfrentar a apatia, a vencer a angústia, ajuda-a a disciplinar-se; torna-a competitiva, firme, determinada e impele-a a enfrentar o seu mundo que lhe mostra a longa avenida de obstáculos para serem ultrapassados.

A vida não dá nada gratuitamente, mas não deixa de responder quando se procura orientação. Pode não ser à nossa maneira mas, é seguramente, à maneira admirável das leis do Universo onde cada um de nós é célula vital. Por isso se sente (agora) que é capaz de concretizar o tal sonho, parabéns. Cumprimente-o (o sonho, claro). Ele está mesmo ao seu lado! Completamente realizado! Diga obrigada. Um coração agradecido, é um coração feliz!

Pois, hoje, estou assim: animada para tecer vida. Disposta a ousar. Segura para descodificar os sussurros inspiradores da madrugada -há muito que entre nós há uma química reconfortante e absoluta. Por isso, desafio. Espalho ideias envolvidas por palavras, gosto de gostar.

Hoje (gostava de dizer) mando eu! Hoje, estou para lá do instituído e inovo, num misto de utopia e provocação. Com leveza, vou transportar-me para o campo da excelência, levando comigo ânsias humanas, sem bases em estatísticas, mas sincronizadas com a esperança, com o futuro, visualizados na cadência contemplativa do sopro que me anima. Hoje, vou levar o meu banquinho e em cima dele, num jardim de Lisboa, falo para os que me queiram escutar.

- Que todas as crianças, em cada manhã ao sair de casa, digam:
Bom dia, dia!
- Que os pais não sintam que os dias não têm horas para:
Brincar com os filhos
- Que os idosos não tenham só por companhia:
Programas de televisão
- Que os doentes não se sintam perdidos e abandonados pela
Família e pelos médicos
- Que os sem-abrigo se vistam de frio e desistam de
Viver
- Que os jardins não tenham
Bancos, flores, crianças e pássaros nas árvores
- Que nos lugares, nas vilas e nas aldeias não existam bandas
Que toquem aos domingos nos coretos
- Que não haja música de fundo
Nos hospitais, nos infantários, nos transportes e repartições públicas
- Que as grelhas de alguns canais ofereçam excessivas
Telenovelas
- Que nem todos os infantários e escolas primárias tenham nas manhãs e nas tardes
Um copo de leite morno e um sorriso para cada criança
- Que nas janelas e varandas não existam
Flores coloridas
- Que existam nas ruas
Animais abandonados
- Que não se ensine, ou se lembre, que o Mundo começa à porta da casa de cada um: na rua, no largo. Na vila, cidade ou aldeia
A limpeza é um sinal de civismo
- Que o ser humano não tenha
Condições de dignidade para viver. Liberdade para escolher. Oportunidades para aprender e vencer

A coragem traz génio, poder e magia. Hoje, tive a coragem de mandar. Que o poder e a magia se abracem sobre o querer e a esperança se concretize

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

CONCERTO PARA O UNIVERSO



Partindo do pressuposto muito remoto, sinto-o, que se alguém nesta vastidão da blogosfera me encontrasse e lesse o que já escrevi (e não foi nada pouco), saberia que o meu encanto pelo Universo já é antigo, dado que o referi numa ou noutra crónica. Mas não tenho ilusões, ninguém dá por mim, mas também não faz mal porque eu continuo a gostar do Universo e fim de excitação (não é citação, é mesmo excitação).

Por isso, quando hoje, às 8 horas, fui acordado com a notícia –que não entendi muito bem porque estava semi adormecida (tinha-me deitado às 3 da madrugada a escrever a crónica do Paganini. Vá-se lá saber porque adquiri esta paixão pelo meu computador, ao lado do qual sou capaz de escrever toda a noite. Nunca fui tão mal paga, mas nunca me senti tão feliz!) não sei quê… de uma canção para o Espaço… dos Beatles… em todo o Mundo. Os meus neurónios (tenho mais de 1. Confirmo) entraram em estado de alerta.

Não sei bem de que cor, talvez amarelo. Ou talvez não, mas também pouco importa. Continuei a dormir. Nem o António Macedo teve o condão de me despertar totalmente (durmo sempre com o Jorge Afonso e acordo sempre com o querido António. Explicando bem para que não me metam em sarilhos.

Sou uma fixada na Antena 1: Acordada, sonolenta, adormecida. De manhã, de tarde, de noite, de madrugada e não tenho quotas na empresa!). A Bela Adormecida, nos seus velhos tempos, não faria melhor do que eu. Dormi até às 11 horas. E acordei sem príncipe e sem beijinho. Adiante.

Fui desarticular a informação que pensava ter ouvido e, sim senhor. No dia 4 de Fevereiro, uma canção dos Beatles, escrita por John Lennon, em 1969, inserida no álbum “Let it Be”, iria beijar as estrelas com a simpática velocidade de 307 000 de quilómetros por segundo.

Fiquei deslumbrada e, num ápice, aí estava eu envolvida no espaço interestelar pensando na magia que será ir , musicalmente, para a vastidões intergalácticas. Já me tinha dado um fascínio idêntico quando a sonda Voyager 1, lançada pela NASA a 5 de Setembro, de 1997, projectada, com a sua irmã gémea Voyager 2, lançada duas semanas antes, 20 de Agosto, para, entre muitas outras coisas, estudarem os planetas Júpiter, Saturno e, depois de ajustamento de órbita da 2, Urano e Neptuno.

As Voyagers foram concebidas para operar até 2020 mas, o que verdadeiramente me encantou foi, na altura, descobrir que a Voyager 1 levava, para lá da parafernália adequada nas sondas (que eu, claro, não sei bem o que seja) ia um detector de raios cósmicos, de ondas, de plasma, de partículas de baixa energia (grande Google) e… um disco de cobre revistido a ouro e a respectiva agulha, contendo a apresentação para possíveis e distantes civilizações com 115 imagens (os pescadores portugueses estão lá. Se demoram muito a encontrar a sonda, já não há cá pescadores…) 35 sons naturais, vento, água, pássaros e saudações em 55 línguas, incluindo, claro, o Português, a nossa Jóia da Coroa.

Também inclui exertos de música étnica, de obras de Beethoven e Mozart e Johnny B, de Chuck Berry. Mensagens diversificadas tentando demonstrar o perfil da Humanidade, explicando como somos. Penso que a Voyager 2 levou 2 discos de ouro para a possibilidade de, um dia, serem encontrados por extraterrestres. Os discos incluem fotos de pessoas, animais, aspectos variados da Natureza. Enfim, um passaporte diplomático para abrir protocolarmente as estradas espaciais do futuro.

Sempre achei linda a iniciativa e a possibilidade de, mais século, menos dia, os discos irem parar às mãos certas, capazes de saberem e quererem interligar-se com os humanos.

E o que acontece com os Beatles? Ora bem, então é assim: A NASA querendo comemorar os seus 50 anos de existência e também os quase 50 da banda de Liverpool, decidiu escolher o tema “A Cross the Universo” (Através do Universo), para ecoar HOJE no Espaço, emitido pela rede Deep Space Network, direccionada para a estrela Polaris, a mais brilhante da constelação Ursa Menor, situada a 431 anos-luz da Terra (cada ano corresponde a 9460 mil milhões de quilómetros)
Estou siderada. Vou escutá-la à meia noite (são 21.54) e, sabendo que o Espaço e o Mundo também o fazem, vou sentir-me a mais espectacular e brilhante estrela no céu a dançar com o Cosmos.

Através do Universo
Palavras flutuam como chuva sem fim dentro de um copo de papel
Elas mexem-se selvaticamente enquanto deslizam pelo Universo
Um monte de mágoas, um punhado de alegrias estão a passar pela minha mente
Possuindo-me e acariciando-me
Glória ao mestre
Nada vai mudar o meu mundo
Nada vai mudar o meu mundo
Nada vai mudar o meu mundo
Nada vai mudar o meu mundo
Imagens de luzes quebradas que dançam à minha frente com milhões de olhos
Elas chamam-me para ir pelo Universo
Pensamentos movem-se como vento incansável dentro de uma caixa de correio
Elas tropeçam cegamente enquanto fazem o seu caminho pelo Universo
Glória ao mestre
Nada vai mudar o meu mundo
Nada vai mudar o meu mundo
Nada vai mudar o meu mundo
Nada vai mudar o meu mundo
Sons de risos, sombras de amor tocam nos meus ouvidos atentos
Excitando-me e convidando-me
Um amor incondicional sem limites que brilha à minha volta como milhões de sóis
E chamam-me para ir pelo Universo
Glória ao mestre
Nada vai mudar o meu mundo
Nada vai mudar o meu mundo
Nada vai mudar o meu mundo
Nada vai mudar o meu mundo
Glória ao mestre
Glória ao mestre
Glória ao mestre
Glória ao mestre
Glória ao mestre
Glória ao mestre

PAGANINI NO ROSSIO


Walt Whitan, o poeta da Democracia, disse:"Eu ou tu, sem um tostão no bolso, podemos comprar este mundo e o outro". Penso frequentemente nesta citação e gosto de o fazer, encontro leituras e sensações diferentes.

O poeta transmitiu aos menos afortunados da sorte que não há limites nem para o sonho nem para a felicidade; colocou o dinheiro no lugar onde este deve estar, primeiro, a necessidade de cortarmos amarras e voarmos tão longe quanto a nossa imaginação ou desejo nos levar, sejam quais forem as asas; depois, as viagens do mundo interior têm a dimensão do nosso querer; e, contrariamente ao que à primeira vista possa parecer, não é uma apologia nem à acomodação nem à pobreza.

Pelo contrário, é um estímulo à capacidade do querer e à grandeza do ser humano. Superar-se a si próprio, principalmente nos momentos mais desesperantes, lutando para que eles antecedam novas possibilidades. Penso que é um alerta à ganância desenfreada e uma declaração (sublime) ao sonho que mais não é que a transposição para outros estados de alma.

Conheci pessoas muito ricas que não conseguiam, não queriam, não tinham tempo, nem se lembrava, não estava no banco dos seus desejos, perder um segundo a sonhar, a voar para lá das suas realidades. Viviam em altas rotações e tudo bem. Conheci pessoas sem nada, mesmo nada, que revelaram ser uns verdadeiros hinos à vida. Eram tão felizes que incomodava! Como era possível?

Eles tinham o passaporte secreto da esperança e não perdiam-nunca- a capacidade de sentir que, um dia, venceriam. Esses sim, têm todo o direito que lhes assiste de passear a sua liberdade pelos campos das miragens e comprar este mundo e o outro, mesmo quando no bolso não têm um euro.

Lembrei-me de um facto ocorrido há anos atrás que me marcou profundamente. Nada deixava supor que aquele encontro com a noite fosse diferente dos outros, mas foi! Chovia torrencialmente, o dia tinha estado frio e desagradável e na Estação do Rossio (ainda funcionava) juntavam-se largas centenas de pessoas no seus regressos a casa depois de intenso dia de trabalho.

Assim que entrei na grande sala do piso inferior da bela estação ouvi uns acordes vibrantes, tocados com emoção, saber, e muito coração. Não podia ter ficado mais surpreendida e deliciada. Melodias famosas de grandes compositores numa miscelânea irresistível: Sonho de Amor, valsas de Strauss, prelúdios de Chopin e páginas vigorosas de Paganini, tocadas com tanto ardor que, por vezes, pareciam que "arranhavam a alma".

O silêncio foi total quando os acordes das Czardas, no átrio da estação, romperam e encheram o espaço e a emoção dos presentes que cada vez eram mais. Mas, quem tocava? Tentei aproximar-me do local onde pensava estar o violinista. Com alguma agilidade de cintura, empurrei, delicadamente (?), mais para aqui, mais para ali e, por fim, consegui!

À minha frente, o artista. No pleno sentido da palavra, o artista. Olhei para ele com admiração porque nunca tinha escutado música no Rossio e, ainda por cima, com tal qualidade. Foi o imprevisto que me surpreendeu. Olhei-o e reparei que era invisual. Senti uma espécie de murro no estômago (não esperava), mas as páginas musicais continuavam a escutar-se.

Seguro da forma como tirava do violino os sons de muito talento, alheio a todos, continuava o concerto inesperado oferecido por um homem que no escuro do seu universo fechado tinha encontrado horizontes livres e amplos, sem amarras nem bloqueios, na forma de sentir e viver o mundo, de o ver e de com ele comunicar.

O que aquele violinista fez naquele fim de tarde mais não foi de que um acto de amor à vida. À sua maneira. Enfrentou a diferença e soube aproveitar dos outros sentidos a compensação valiosa que o ajudou a superar a deficiência da visão.

Ainda hoje ouço as vibrantes páginas musicais que, na altura, encheram a estação do Rossio e adoçaram o coração dos cansados, no regresso a casa. Ainda hoje recordo a imagem do violinista que tocava com um entusiasmo contagiante. Com um ar de plena satisfação vibrava com Paganini, transmitia isso.

Paganini no Rossio, aconteceu-me uma única vez e agradeço por isso. Agradeci-lhe por isso. Só deixei o local (perdi muitos comboios) quando o artista deu por terminado o improvisado concerto. Na caixa, ouvia-se o constante tilintar das moedas, dei as minhas e disse-lhe comovida e baixinho:

-Obrigada, gostei muito de ouvi-lo.

Esboçou um sorriso e disse-me:

-E eu ainda gostei mais de tocar.

Acreditei piamente. Só quem está tão cheio de música, quem domina a técnica do violino e tem tanta emoção à flor da pele consegue partilhar, com quem não vê, tanto fulgor, luz e fantasia. Aquele violinista era um homem feliz, mesmo que não tivesse um euro no bolso tinha o seu mundo e passeava, sorridente, por ele. Tinha traçado o seu caminho ao lado da música que lhe enchia sonhos, com esplendor e paixão.